Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

VENCENDO O MEDO
James Earl Lint



No inverno faz frio em toda parte, inclusive nos estúdios onde são realizados os filmes. Estava frio naquele dia no set número 16; e Kim Novak tossia, levantando um pouco a gola do casaco. Esbarrou, sem querer, com os dedos, no cabelo e tentou refazer um cacho que três cabeleireiros haviam levado horas penteando.
Diante de Kim, as câmeras moviam-se lentamente de um lado para outro, em busca do melhor ângulo, e pregavam-se os últimos pregos no cenário de madeira tosca. Dentro de alguns minutos, um novo filme teria início; e, para isso duzentas pessoas eram necessárias.
No verão, aquele mesmo lugar era excessivamente quente; agora, entretanto, as paredes pareciam feitas de gelo, em vez de cimento armado. Mas os cenários e os palcos nunca são feitos para o conforto dos artistas, e sim de acordo com as exigências da técnica; e Kim Novak sabe disso.
O diretor andava de um lado para outro, dando ordens e, de repente, sorrindo para Kim, perguntou-lhe:
– Está pronta, Kim?
– Acho que sim – respondeu ela, tentando sorrir.
(Se estou pronta? Estou é com medo; medo de fracassar, medo da hora em que o diretor me mandar para o centro deste imenso cenário, sob a luz intensa dos refletores, diante dos olhos de todos. Acho que vou esquecer meu papel, acho que vou fazer tudo errado; e todos acabarão rindo de mim!)
Enquanto pensava, Kim enfiou a mão no bolso do casaco; e seus dedos tocaram as contas frias de um rosário que havia pertencido a sua avó e agora representava – para Kim – uma espécie de talismã. Ela puxou um pouco mais a gola do casaco e tornou a tossir.
– Você não pode se resfriar, Kim! – Disse-lhe um extra. – Se a nossa estrela adoecer logo no primeiro dia de filmagem, que será de nós? Quer uma pastilha para a garganta?
– Não se incomode – respondeu Kim.
– Não é incômodo, é prazer! – Falou o extra, afastando-se rapidamente, com um sorriso nos lábios.
(Acho que fui um tanto rude com este rapaz. Mas estou farta de ouvi-los dizer sempre as mesmas coisas, fazer sempre os mesmos elogios. Certamente, quando voltar, vai me dizer que estive sensacional, em meu último filme; e eu sei que não estive. Fiz o possível, esforcei-me o mais que pude; e se ao menos alguém reconhecesse isso!)
Em dois minutos, o rapaz foi e voltou, trazendo o vidro de pastilhas para a garganta. Kim meteu a mão no bolso, procurando um níquel; mas o extra não aceitou.
– Absolutamente, Kim. Fico até muito contente de ter tido oportunidade de lhe fazer um favor! E, para não perder essa oportunidade, gostaria de dizer-lhe que esteve magnífica em seu último filme!
Kim fechou os olhos e respondeu maquinalmente:
– Muito obrigada.
– Qualquer coisa que precisar, disponha – insistiu o rapaz.
(Antigamente eu achava graça nessas amabilidades. Hoje em dia, tenho medo de acreditar nelas, de me julgar uma grande artista sem o ser. Quando eu era mocinha, costumava procurar a primeira estrela que brilhava no céu e fazia um pedido: fechando os olhos, pedia a Deus que me fizesse ser boa e amada por todos... É a minha maior preocupação e talvez meu maior defeito: querer ser amada por todos. Sempre me esforcei para conseguir isso e não sei se algum dia conseguirei... Quando estava no Ginásio, todas as minhas colegas procuravam me agradar; mas eu achava que era por eu ser modelo e aparecer nas capas de revistas...Estou sempre procurando agradar aos outros. Nunca discuto... nem mesmo quando tenho certeza de estar com a razão.)
Em meio aos seus devaneios, Kim sentiu a mão do diretor em seu ombro e virou-se.
– Resolvi filmar uma outra cena antes da sua – disse-lhe ele, afastando-se imediatamente. Não havia tempo a perder. Onde hoje era uma rua movimentada, ontem havia sido o tombadilho de um navio e amanhã talvez fosse a nave de uma igreja.
Assim é o mundo encantado do Cinema: enquanto o frio de uma manhã de inverno fazia Kim Novak tossir, a cena se passava em pleno verão de um outro ano qualquer.
As câmeras começaram a se movimentar outra vez; e Kim resolveu ir para o seu camarim, até na hora da filmagem de sua seqüência.
(Ainda tenho algum tempo. Sinto-me aliviada, como se alguém tivesse tirado um peso de cima de mim. Mas tudo isso por quê? Já estou trabalhando no Cinema há quase dois anos, e cada novo filme deveria ser mais fácil para mim. E talvez seja, sem que eu perceba. Preciso dominar e combater esta terrível falta de confiança em mim mesma!)
Uma vez em seu camarim, Kim Novak apanhou um boneco e deu corda. Imediatamente soaram os primeiros acordes de “Berceuse”, de Brahms.
Sem encostar a cabeça na almofada, a fim de não desmanchar o penteado, Kim fechou os olhos. Quando a melodia terminou, ela deu três pancadinhas na cabeça do boneco, pois acha que isso lhe traz sorte, antes de iniciar uma cena. Depois, levantou-se, foi até a gaveta da penteadeira e apanhou uma caixinha repleta e amuletos. Havia uma moeda de um peso argentino, dois níqueis, três dólares de prata, uma ferradura em miniatura, um trevo de quatro folhas dentro de um invólucro de plástico, um pé de coelho, uma medalha de prata etc.
Kim remexeu as moedas por alguns instantes e quando  encontrou a que queria, isto é, um níquel com uma cabeça de índio, colocou-a no bolso do casaco, onde já estava o rosário de sua avó.
Em seguida, voltou ao set e ficou andando, observando os eletricistas e os operários, aguardando o terrível momento de ser filmada.
– Olá, Kim! – Exclamou um homem do departamento de produção que havia trabalhado com ela em outra película. Trazia uma xícara na mão e, estendendo-a a Kim, disse-lhe:
– Hoje está muito frio! Beba isso para esquentar.
– Obrigada, Larry – disse ela. – Mas você sabe que eu não tomo café.
– Isso é chocolate quente – informou Larry.
Kim aceitou, e o contato de suas mãos com a xícara quente lhe fez bem. Larry também tomou o seu chocolate e, depois, comentou:
– Kim, você é mesmo formidável: hoje é o primeiro dia de filmagem; e, em geral, as estrelas ficam nervosas. Mas você está completamente calma!
(Acho que sou uma boa artista, pois dou a impressão de calma, quando não poderia estar mais nervosa!... Aliás, nunca aprendi a relaxar os nervos. Quando eu era pequena e às vezes me deitava no tapete para pensar, lá vinha minha mãe com o aspirador de pó ou o óleo de lustrar os móveis, aconselhando-me a não ficar sem fazer nada. E eu acabava passando a tarde limpando o tapete ou os móveis, achando que era pecado descansar... Gostaria de ter sido educada com menos rigor.)
– Completamente calma! – Repetiu Larry, com um sorriso.
Kim acariciou a moeda e as contas do rosário que tinha no bolso.
(Todos estão enganados a meu respeito. Pensam que sou apenas uma loura provocante e muda, só porque dou a impressão de calma e tenho algumas curvas. Como ficariam surpresos, se soubessem que estudei Filosofia no Colégio e que gosto muito de pensar... Engano a todos, exceto a Mac... Mac Krim. Kim Krim. Que nome estranho eu havia de ter, se me casasse com Mac Krim! Lembro-me tão bem das palavras de Mac, ontem à noite, quando voltávamos a pé para casa, e ele me deu esta moeda que trago no bolso... Ele sabe que sou muito supersticiosa e, quando colocou a moeda em minha mão, disse-me:
– É a última vez que dou um presente desses a você, Kim...
– Por quê? – Perguntei.
– Porque já é tempo de você confiar em si mesma, em sua capacidade, em vez de procurar apoio em moedinhas e ferraduras. É preciso confiar no que tem dentro de você, no seu talento, na sua inteligência!...
– Acho isso tão difícil, Mac! – Disse-lhe eu...
– Eu compreendo. Eu sei que será custoso, por exemplo, fazer coisas sem vontade, discutir e argumentar com as pessoas, quando tiver razão, arriscando-se a desgostar os outros. Mas o dia que você fizer isso, poderá jogar fora todas essa bugigangas que vivem em seus bolsos e em suas gavetas. Esqueça tudo isso, Kim!)

– Está pronta, miss Novak? – Perguntou-lhe alguém.
– Sim – respondeu ela.
Surgiu um maquiador à sua frente e retocou o pó-de-arroz; a cabeleireira afofou o cabelo. Então, o diretor aproximou-se, dizendo-lhe:
– Esta cena será difícil, Kim. Você está com medo?
(Não. Já li e reli esta cena uma dezena de vezes, e não estou com medo. Mas, se ele acha que eu possa estar nervosa, deve ter motivos para isso.)
– Sim, acho que estou – disse Kim, apertando a moeda que trazia no bolso.
(É mentira! Não estou com medo. É preciso ser forte! É preciso confiar em mim mesma. Mac tem razão, e todas as outras pessoas que me disseram a mesma coisa também estão certas.)
– Não – falou ela ao diretor. Não estou com medo. Estou apenas um pouco confusa.
– Confusa?! – Indagou, surpreso, o diretor, sem entendê-la.
– Sim, quer dizer, não estou mais nervosa...
– Repito que é uma cena difícil... – disse o diretor.



Estava tudo pronto para começar a filmagem, quando Kim pediu um minuto. Correu ao seu camarim, tirou a moeda do bolso e colocou-a na gaveta, junto com as outras. Voltou correndo e, quando tirou o casaco, pareceu até mais jovem no vaporoso vestido de verão que usava.
Porém, Kim não se sentia jovem, e sim muito mais velha, muito mais forte, como se tivesse vencido uma batalha importante. Quando se viu sob as luzes dos refletores, não teve medo. Só pensava na hora de telefonar para Mac e contar-lhe a sua última vitória. Sabia que haveria outras batalhas a vencer, mas pelo menos da primeira saíra vitoriosa.
– Tudo pronto, miss Novak? – Perguntou o diretor.
Kim fez que sim com a cabeça.
O.k. Silêncio! – Ordenou o diretor. – Ação!
Começava um novo filme, começava uma nova vida para Kim Novak!

 

Este texto foi transcrito do número 91 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 2ª quinzena de agosto de 1956, pp. 35 e 56)