Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

VARIAÇÕES NA PELE DE UMA MULHER DE VIDA FÁCIL
João Rodolfo Franzoni



Se há um predicado impossível de não notar em Kim Novak é que, para alguém cuja beleza demolidora sempre foi um irrecusável centro de atenções, sua postura de intérprete dedicada jamais passou despercebida.
Descoberta pelo chefe da Columbia, Harry Cohn, que pretendia torná-la uma rival da estrela máxima da Fox, uma certa Marilyn Monroe, Kim poderia ter sido uma daquelas estrelas cercada de descrédito, não fosse o brilho acachapante que ela tratou de garantir em suas interpretações. Em duas das ocasiões que encarnou uma prostituta, sua versatilidade ficou tão evidente que rever tais momentos rende uma inevitável reverência ao seu poder inegável de passar da lascívia para a sordidez, do patético para a graça legítima, e, sobretudo, da tragédia palpável para a graça pura e capaz de destacar sutileza onde outras facilmente adotariam a vulgaridade. Essas duas ocasiões ocorreram nos filmes Servidão Humana (Of Human Bondage, 1964) e Beija-me, Idiota (Kiss me, Stupid, 1964).
O primeiro é uma adaptação adaptação essa dirigida por Ken Hughes (Bryan Forbes dirigiu algumas sequências) e certamente obscurecida pela primeira versão cinematográfica (realizada em 1934), que, em nosso país, foi batizada com o título de Escravos do Desejo e trazia Bette Davis num de seus primeiros momentos de consagração do romance fatalista do escritor inglês William Somerset Maugham. A fita mostra a prisão emocional que Philip Carey (Laurence Harvey), um jovem estudante de Medicina frustrado em suas ambições artísticas e complexado com uma deformidade no pé, se vê condenado ao se apaixonar por Mildred Rogers (Kim Novak), uma garçonete desfrutável e interesseira de um restaurante bastante frequentado do centro de Londres. Na primeira vez que o olhar de Mildred avista Philip, chega a ser tão terno e complacente que, apesar de experimentados no universo de Maugham, duvidamos que uma teia de manipulação esteja prestes a ser tecida. Quando Philip confessa seu amor e decide cobri-la de presentes, Mildred percebe ter encontrado uma garantia para suas eventuais penúrias e abandonos. Após um período de convívio, ela o abandona e retorna, meses depois, grávida de outro homem. O jovem médico volta a acolhê-la e a tolerar suas traições e abusos, mesmo quando a degradação daquela mulher cujo amor ele não consegue sufocar desce numa espiral irreversível, culminando na prostituição nos becos mais pútridos.
Ainda que esquecido e não ostente o devido crédito, esse Servidão Humana é um filme ousado em sua sobriedade. O estudo de seres humanos corrompidos por uma paixão incapaz de restituir a postura esperada de quem se vê atraiçoado, recebe um tratamento impiedoso já pela própria natureza do tema; e encontra em Kim Novak a caracterização ideal para fustigar alguém impotente devido a tal servidão. Seu desempenho é marcante por não temer ser desagradável, peçonhenta ou vulgar. Sempre que a atriz visita essas nódoas morais, deixa o espectador prostrado ante tamanha capacidade de ser natural num terreno que poucas atrizes à época foram capazes de visitar com o devido realismo. Não convém uma comparação com Bette Davis, pois além de Kim dificilmente reinar sobre um dos pilares do cinema mundial, cada filme e cada interpretação exigem ser examinados no contexto da época.  Mas nada disso ofusca a imagem da inesquecível musa de Um Corpo Que Cai, destemida o bastante para protestar, enfurecida, que, apesar de depender do teto e da ajuda de Philip, precisa ter suas necessidades sexuais atendidas.
Em Beija-me, Idiota, no entanto, o registro é completamente inverso. E admirável em seu lado jocoso. Demora mais de meia hora até que Kim desponte na tela; entretanto, assim que o faz, fica impossível para o espectador não se curvar ao seu magnetismo e se dar conta de que será nela que as atenções irão imperar.
O filme, uma comédia maliciosa e deveras ousada de Billy Wilder, não costuma figurar entre os melhores ou mais lembrados trabalhos do mestre austríaco; mas, como numa revisão é comum reformular conceitos, seria bobagem não aproveitar tudo que ele tem a oferecer. Dean Martin, numa espécie de autoparódia, vive Dino, um cantor de sucesso que não resiste a um rabo-de-saia e que, no trajeto para uma apresentação em Las Vegas, aporta numa cidadezinha modorrenta para abastecer o carro. Eis que, ali, vive o professor de piano Orville (Ray Walston), extremamente ciumento da esposa, Zelda (Felicia Farr), a ponto de conferir a veracidade de cada relato da mulher sobre seus passos. Ele também é um músico sedento de ver uma de suas composições interpretadas por um astro do quilate de Dino. Quando o acaso providencia um encontro dos dois, Orville percebe que, facilitando uma escapadela entre o visitante e sua própria mulher, tornaria o cantor mais receptivo à ideia de promover sua composição. Como permitir tamanho sacrifício seria impensável, ele arma um meio para que Polly the Pistol (Kim Novak), a sensação de uma espelunca onde todas as garçonetes servem seus clientes com um button dourado no umbigo, assuma o papel de sua esposa, enquanto a verdadeira Zelda, sem ter conhecimento da farsa, parte de casa após uma discussão.
Não convém detalhar os desdobramentos da balbúrdia. O espectador experimentado em Billy Wilder vai se divertir aos montes com o crescendo de complicações e pela discussão, próxima ao inesquecível Se Meu Apartamento Falasse (The Apartment, 1960), sobre o ser humano servindo de moeda de troca quando confrontado com oportunidades de arrivismo. Dean Martin, com sua inegável limitação, desfila quase que como um ornamento necessário para ilustrar a presença de um sedutor cafajeste, permitindo assim que Kim Novak comande a cena com seu notável arsenal de sentimentos. A personagem que surge na tela, gripada e apresentada como uma prostituta sebosa e cujos predicados foram tão explorados que mal é possível enxergar toda a volúpia de sua persona, é, sem dúvida, um dos pontos altos da carreira da atriz. Qualquer apreciador de cinema atento às suas interpretações dificilmente discordaria de sua versatilidade. Aqui, ela passa de uma criatura quase patética para uma mulher comovente em sua resignação à condição que abraçou.
Kim é, certamente, uma diva capaz de exortar qualquer plateia a acompanhá-la afinal, é claro que não precisa fazer muito esforço para que desapareça qualquer reserva que possamos alimentar contra ela. O papel da prostituta, tão fácil de limitar-se ao estereótipo do coração de ouro ou da vítima das circunstâncias sociais, recebeu com ela derivações das mais complexas e inquietantes. Se hoje seu nome não desperta a lembrança imediata, a culpa certamente não é dela, e sim de tempos que optaram por alimentar um interesse à exploração em detrimento ao glamour.



Servidão Humana (Of Human Bondage, 1964, 98')
Direção: Ken Hughes
Roteiro: Bryan Forbes, baseando-se no romance homônimo de William Somerset Maugham
Elenco: Kim Novak, Laurence Harvey, Siobhan McKenna, Robert Morley, Roger Livesey, Nanette Newman, Ronald Lacey, Olive White, Norman Smythe, David Morris
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Lume



Beija-me, Idiota (Kiss Me, Stupid, 1964, 122')
Direção: Billy Wilder
Roteiro: Billy Wilder & I. A. L. Diamond, baseando-se na peça L’Ora della Fantasia, de Anna Bonacci
Música: André Previn
Elenco: Dean Martin, Kim Novak, Ray Walston, Felicia Farr, Cliff Osmond, Barbara Pepper, Doro Merande, Alice Pearce, John Fiedler, Arlen Stuart, Mel Blanc, Henry Gibson
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Classicline



João Rodolfo Franzoni é jornalista