Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

THE SPIRIT - PARTE 3 (FINAL)
Marco Aurélio Lucchetti



Segundo o crítico e jornalista Marcos Faerman, o que “Will Eisner nos propõe, em centenas de histórias em quadrinhos, é que os fios elétricos, os trilhos dos trens e a vida subterrânea dos metrôs e dos bueiros, dos encanamentos – e esses milhões de janelas dos grandes prédios... que tudo isso cria o cenário de histórias humanas que se cruzam ao infinito. E que as próprias casas e coisas formam cruzamentos estranhos e estão impregnadas do mistério e da poesia das coisas... Por isso, nas histórias que Will Eisner desenha, o cenário é tão importante quanto a própria narrativa.” (7)
Levando em conta essa afirmação e lendo com atenção os episódios de The Spirit, percebe-se que são duas as funções de Central City nas histórias.
Numa leitura menos acurada dos episódios da série, depreende-se unicamente a primeira dessas funções: ser o cenário das histórias. Ela é a cidade onde se passam as aventuras de The Spirit, servindo de habitat para pessoas comuns e quase anônimas, bem como para agentes da Lei, assassinos, escroques, ladrões, malandros, políticos corruptos, mocinhas, aventureiras e damas fatais. É em seus bairros centrais e em sua periferia que os crimes ocorrem e os delinqüentes se escondem.
É somente quando se lê com uma maior atenção os episódios de The Spirit que se percebe que a cidade tem uma segunda função nas histórias: ser a manipuladora do destino dos personagens. É ela que faz com que, em algum momento do episódio, os caminhos dos personagens se cruzem. Assim, torna-se a responsável indireta pela morte de algum participante da história (ver, por exemplo, “A Última Cartada”, “A História de Gerhard Shnobble” e “Dez Minutos”) ou pela prisão de algum delinqüente por The Spirit (ver, por exemplo, “Cinderella”; “O Desfalque”, episódio publicado em 27 de novembro de 1949; e “O Barbeiro”, episódio publicado em 22 de outubro de 1950).
Durante os mais de doze anos de publicação de The Spirit – o último episódio da série foi publicado, nos jornais norte-americanos, em 5 de outubro de 1952 –, as ruas, os becos, as avenidas, as estradas, as pontes, os viadutos, os bancos, os bares, os estabelecimentos comerciais, os galpões, os prédios, o cais, a chefatura de polícia, a penitenciária, os bondes, os vagões do metrô e os ônibus de Central City formaram um autêntico calidoscópio.
Vez por outra, algum local ou algum elemento que ajuda a compor a cidade é descrito ou mencionado nas histórias. Assim, em “O Último Bonde” (episódio publicado em 24 de março de 1946), é feita uma descrição dos bondes que trafegam por Central City):

“ELES JÁ DESAPARECERAM QUASE TOTALMENTE, OS VELHOS BONDES... SÓ UNS POUCOS CONTINUAM A RODAR... COMO O DA ANTIGA LINHA DE RAVEN’S POINT, POR EXEMPLO!!... O dia inteiro, como besouros bêbados, as velhas carroças se arrastam barulhentas pela cidade, lotadas com as multidões matutinas que voltam à noite da mesma maneira... A viagem de bonde do centro de Central City até Raven’s Point é de cerca de dez km sinuosos e não pode ser chamada de Uma Grande Aventura... Até três da manhã... os bondes vão e voltam, ficando cada vez mais vazios com o passar das horas... então, o último bonde... ‘O Carro 29’... sacoleja através da metrópole adormecida, atravessa barulhento a ponte sobre Central River e, com sua carga de escolhos humanos, se dirige para os celeiros de Raven’s Point... Daqui até o fim da linha não existem paradas... é a pior parte da viagem!” (8)

Em “Black Alley” (episódio publicado em 5 de junho de 1949), há a descrição de um dos bairros de Central City:

“Black Alley é o ponto mais distante da Zona Norte de Central City. De dia, é um bairro movimentado e barulhento, uma zona comercial e industrial coberta de fumaça e fuligem. À noite, ele se transforma numa fervilhante colmeia, onde seres humanos miseráveis se movem como num enxame, entrando e saindo de suas casas descoradas. Mas, depois de meia-noite e até o amanhecer, somente sombras se movem no silêncio... um silêncio que algumas vezes é quebrado por um grito...” (9)

E, em “Carga: Octopus” (episódio publicado em 14 de julho de 1946), é feita uma menção ao cais:

“O cais do porto! Como nenhuma outra parte da cidade, um lugar com vida própria! Mistério e intriga apegam-se a ele com a tenacidade do musgo, criando um enredo imperscrutável.” (10)



NUNCA TANTO ACONTECEU EM TÃO POUCAS PÁGINAS

É fácil compreender a importância de The Spirit. Basta saber que:
1 – Foram produzidos seiscentos e quarenta e cinco episódios de The Spirit;
2 – Para cada um dos episódios de The Spirit, Will Eisner imaginou uma maneira diferente de apresentar a página de abertura, procurando nunca repetir o mesmo tipo de letras no logotipo da série;
3 – A diagramação de cada página de The Spirit era estudada e escolhida com cuidado, a fim de causar o maior impacto possível nos leitores;
4 – Influenciado pela linguagem cinematográfica, Will Eisner, em The Spirit, usou constantemente os cortes, as ações paralelas e os travellings;
5 – Em The Spirit, além de narrar histórias de Detetive & Mistério, Will Eisner procurou mostrar dramas humanos que têm como cenário uma grande cidade;
6 – Para criar os dramas mostrados em The Spirit, Will Eisner inspirou-se, segundo suas próprias palavras, nos contos dos escritores norte-americanos Ambrose Bierce (1842-1914?) e O. Henry (1862-1910) e na obra do escritor, jornalista e roteirista cinematográfico Ben Hecht (1894-1964).
Todavia, somente quando se tem conhecimento de que Will Eisner contava as histórias de seu herói em apenas sete páginas é que se percebe que The Spirit é uma história em quadrinhos sem par, pois como disse o quadrinhista e pesquisador de Quadrinhos James Steranko:

“Nunca tanto aconteceu para tantos em tão poucos páginas. Histórias eram contadas por meio de palavras e desenhos. Os contos de Eisner eram tão pesadamente atmosféricos, eles pretendiam assemelhar-se aos filmes dos expressionistas alemães dos anos vinte – Fritz Lang, Paul Leni e Murnau. Fitas como Silêncio nas Trevas e Assassinos, de Robert Siomak, ou Brutalidade e Sombras do Mal, de Jules Dassin, estão próximas de The Spirit.” (11)



NOTAS:

(7) Marcos Faerman, “A Visita do Poeta dos Quadrinhos, do Poeta das Cidades”, in Spirit número 3, São Paulo, NG, 1988, p. 5.

(8) Will Eisner, “O Último Bonde”, in Gibi Especial número 1, pp. 4-5.

(9) Will Eisner, “Black Alley”, in Gibi Especial número 1, p. 11.

(10) Will Eisner, “Carga: Octopus”, in Spirit, p. 24.

(11) James Steranko, The Steranko History of Comics volume 2, Reading, Supergraphics, 1972, p. 16.