Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

E SEU NOME É SALA
Marco Aurélio Lucchetti



Nos meados da década de 1960, num longo ensaio sobre O Fantasma, Ernesto G. Laura escreveu:
(...) em 1917, a América não tinha interesses no mundo colonial, o mesmo que, com o desenvolvimento democrático do segundo pós-guerra, viria a ser conhecido como ‘Terceiro Mundo’.
Fora a aliança econômica com a América Latina, estabelecida em bases essencialmente coloniais, os Estados Unidos eram estranhos ao mundo africano e asiático, controlados por potências européias.
A África, de acordo com os filmes de Tarzan, era uma terra selvagem reservada aos aventureiros que se dedicavam à caça
(...).
A Ásia, por sua vez, era um mundo de segredos
(...), de pitorescos rituais religiosos e de diabólicas inteligências criminosas. Um assassino chinês com uma adaga era o máximo de sofisticação para certos escritores americanos de romances de Detetive & Mistério, gênero no qual floresciam enigmáticos detetives orientais como Mr. Moto e Charlie Chan, nos anos 1930.
Na costa ocidental dos Estados Unidos, em particular, em cujos portos o continente se unia com a Ásia, através do Oceano Pacífico, a raça amarela conferia um sabor todo particular ao folclore dos bairros habitados pelas minorias étnicas.”

Infelizmente, Ernesto G. Laura deixou de mencionar em seu ensaio que foi nos anos 1930 que os norte-americanos viram surgir nas histórias em quadrinhos produzidas para jornais algumas vilãs orientais ou de traços orientais. E a maior dessas vilãs é a bela, sofisticada (poucas vilãs dos quadrinhos têm sua beleza, sua classe e seu charme) e inteligente Dragon Lady (no Brasil, essa personagem ficou conhecida com os seguintes nomes: Dragon Lady, Madame Dragão e Dama do Dragão), uma das mais célebres personagens femininas de Terry and the Pirates (Terry e os Piratas).
Criada por Milton Caniff e inspirada numa mulher-pirata que existira realmente e que aterrorizara os mares da China durante a década de 1930, a Dragon Lady apareceu pela primeira vez na página dominical de 6 de setembro de 1936 e, apesar de ser uma criminosa, logo conquistou os leitores – se tivessem oportunidade de ficar frente a frente com ela, eles certamente lhe diriam mais ou menos o seguinte: “Você é linda... E sabe disso! O que me intriga é... por que você é... tão má? Como se meteu nesse negócio de pirataria?”
Cerca de três meses antes do aparecimento da Dragon Lady, os leitores de O Fantasma foram apresentados àquela que é a mais oriental das figuras femininas das histórias do Espírito-Que-Anda: a graciosa e irreverente bad girl Sala (estranhamente, em nosso país, no número 2 de Gibi Especial, o nome dela foi mudado para Sahla), cuja primeira aparição ocorreu na história “Os Piratas Singh” (“The Singh Brotherhood”, tiras diárias de 17 de fevereiro de 1936 a 7 de novembro de 1936; roteiro de Lee Falk, desenhos de Ray Moore). Para ser mais exato, ela apareceu pela primeira vez na tira que foi publicada nos jornais dos Estados Unidos em 10 de junho de 1936.



A atriz Marlene Dietrich afirmou, em sua autobiografia, que “a palavra glamour significa algo indefinido, não acessível às mulheres normais, um paraíso irreal, desejável, mas em princípio fora do alcance”. E uma digna representante da glamour girl nas histórias em quadrinhos é Sala, evocando a um só tempo os mistérios e os prazeres do distante Oriente. E, além de bonita e sedutora, ela é inteligente, decidida e ousada.



Em suas primeiras aparições em O Fantasma (tiras de 10 a 19 de junho de 1936), Sala não passa de uma personagem secundária. Ela é apenas uma das serviçais de Kabai Singh, o gordo e desumano chefe supremo dos piratas que há séculos são combatidos pelo Homem-Que-Não-Pode-Morrer. Então, trata o líder dos Singh com grande respeito e parece sentir grande prazer em cumprir suas ordens. Em seguida, a partir da tira de 13 de julho de 1936, imediatamente após O Fantasma haver soltado a sua querida Diana Palmer (ela estava prisioneira dos Singh), Sala muda por completo sua personalidade: deixa de ser a serviçal dócil e transforma-se numa mulher altiva que não perde uma só oportunidade para zombar de Kabai Singh. Depois, no momento em que O Fantasma é preso pelos piratas (tira de 21 de outubro de 1936), a jovem bandida torna-se uma das principais figuras da história e, em determinado momento (tira de 23 de outubro de 1936), revela para o Espírito-Que-Anda que está apaixonada por ele (Sala encabeça a longa lista de femmes fatales apaixonadas pel’O Fantasma).



Segundo o polonês Rafal Ksiezyk, as femmes fatales “excitam e amedrontam. Aparecem nas mais antigas manifestações culturais e em todas as partes do mundo. Diabólicas, misteriosas, divas, vamps, dominadoras, cruéis. Mulheres fatais. Atraentes e sedutoras, mas também muito perigosas. Em nome dos seus interesses pessoais, despertam nos homens desejos que os levam à perdição. Já foi escrito que a femme fatale é o espelho do lado mais sombrio do homem, a personificação do seu lado sexual mais destrutivo. Independentemente da época e do lugar, uma coisas as une: elas sabem como tirar proveito do sexo”. E Sala é a mais perfeita personificação da femme fatale em O Fantasma.



E, quase no final de “Os Piratas Singh”, achando que sua morte está próxima (logo após matar Kabai Singh, ela foi ferida pelo estilhaço de uma bomba), Sala diz para O Fantasma que estava ali para espionar os Singh e que pertence aos Piratas do Céu. A seguir, desmaia e é levada para um hospital militar.
No final de “Os Piratas Singh”, uma série de perguntas fica sem resposta:
Quem é, na verdade, a misteriosa Sala?
Que ou quem são os Piratas do Céu?
Sala está realmente apaixonada pel’O Fantasma?
Conseguirá Sala sobreviver aos ferimentos? Que acontecerá com ela depois?
O Fantasma irá ver novamente Diana Palmer?
Essas e outras perguntas são respondidas quando se lê a segunda aventura do Espírito-Que-Anda, “Os Piratas do Céu” (“The Sky Band”, tiras diárias de 9 de novembro de 1936 a 10 de abril de 1937; roteiro de Lee Falk, desenhos de Ray Moore), cujo início mostra Sala (ela recuperou-se rapidamente de seus ferimentos) fugindo do hospital onde estava internada e reunindo-se aos Piratas do Céu, uma quadrilha ainda mais perigosa do que a chefiada por Kabai Singh.
“Os Piratas do Céu” é, possivelmente, a mais erótica das aventuras d’O Fantasma. E quase todo seu erotismo fica por conta da presença de duas mulheres atraentes, sensuais e peritas na arte da dissimulação.
Obviamente, uma dessas mulheres é Sala; e a outra, a líder dos Piratas do Céu, a Baronesa, que, por causa de sua atual “profissão” (mulher muito rica, ela começou a fazer pirataria sozinha, por pura diversão; depois, precisou de ajudantes e decidiu recrutar apenas mulheres para o bando), não faz uma permanente nem uma maquilagem há anos. E ambas sentem-se atraídas pelo mesmo homem, O Fantasma, que está preso no esconderijo da quadrilha (esse esconderijo é todo subterrâneo e localiza-se na Ilha das Garças, um local deserto e fora das rotas normais).
A Baronesa e Sala sabem que o Espírito-Que-Anda representa um grande perigo para elas. Têm plena consciência de que, se o deixarem vivo, estarão colocando em risco os Piratas do Céu (na tira de 19 de janeiro de 1937, a Baronesa fala para O Fantasma: “Creio que você é o homem mais perigoso do mundo... para nossa causa!” E, na tira de 28 de janeiro de 1937, é a vez de Sala falar para o herói: “Você é perigoso para os Piratas do Céu! Se o deixarmos vivo, nos destruirá!”). Mas a atração que sentem por ele é muito forte; e, valendo-se disso, o Homem-Que-Não-Pode-Morrer joga uma contra a outra. Então, a fim de vingar-se da rival, que a enviou para uma armadilha, Sala torna-se uma delatora e guia um esquadrão militar até a base da quadrilha. O esquadrão bombardeia o local, destruindo o esconderijo das mulheres-piratas. Depois, Sala sai de cena; e os aviões dos Piratas do Céu são, um a um, abatidos pelas aeronaves militares. Em seguida, vendo que sua quadrilha foi inteiramente destruída, a Baronesa culpa o Espírito-Que-Anda por isso e dispara duas vezes contra ele. Mesmo atingido pelos tiros, O Fantasma permanece de pé, pois tem uma poderosíssima força de vontade. Assustada, a Baronesa pensa que ele é realmente imortal e suicida-se, ingerindo uma dose de veneno. Chega, dessa maneira, ao fim o bando dos Piratas do Céu.
Durante cerca de quatro anos, os leitores d’O Fantasma pensaram que os Piratas do Céu estavam definitivamente liquidados. Então, no primeiro domingo de março de 1941, os jornais norte-americanos começaram a publicar a história “A Volta dos Piratas do Céu” (“The Return of the Sky Band!”, páginas dominicais de 2 de março de 1941 a 22 de fevereiro de 1942; roteiro de Lee Falk, desenhos de Ray Moore & Wilson McCoy), na qual a quadrilha de mulheres-piratas retorna às atividades, chefiada dessa vez por Sala.
Em “A Volta dos Piratas do Céu”, a exemplo do que ocorre em “Os Piratas do Céu”, duas mulheres dos Piratas do Céu – Sala e sua principal auxiliar, a loura Margo – estão apaixonadas pel’O Fantasma. E, no final da história, o Espírito-Que-Anda derrota novamente o bando de mulheres-piratas; mas ajuda Sala a fugir do navio que a está levando para a prisão. E, após despedir-se d’O Fantasma no último quadrinho de “A Volta dos Piratas do Céu”, Sala nunca mais irá aparecer em O Fantasma.



“Não há ninguém que se diga fã de quadrinhos que não conheça a segunda aventura em tiras diárias do Espírito-Que-Anda, a célebre ‘Os Piratas do Céu’, que termina com o suicídio da Baronesa, líder das mulheres-piratas, e a prisão de Sala, a segunda no comando da quadrilha.
Mas o que muitos desconhecem e poucos se recordam é que Sala reapareceu anos mais tarde, desta feita chefiando uma nova equipe de assaltantes aéreas. Assim, teve início outra sensacional aventura d’O Fantasma: ‘A Volta dos Piratas do Céu’, cuja estréia no Brasil se deu numa sexta-feira, 9 de maio de 1941, no número 321 da revista Gibi. A história continuou sendo publicada por mais 51 sextas-feiras, até o número 474, de 1º de maio de 1942.
As páginas dominicais d’O Fantasma estrearam nos jornais dos Estados Unidos em maio de 1939. Ray Moore entrava na fase da simplificação do desenho (seus desenhos perdiam, então, o estilo riscado e rico em atmosfera noir). Ao que tudo indica, Wilson McCoy se tornou seu assistente nessa época; e talvez a melhor forma encontrada de conciliar as funções de cada um na folha de arte deve ter sido essa economia de traços, que criava um visual mais lavado, porém, agradável. Em ‘A Volta dos Piratas do Céu’, da mesma maneira que acontece em ‘Os Piratas do Céu’, a cabeça do bando (Sala) e sua principal subordinada (Margo) disputam o amor do herói, que, felizmente, consegue manter-se mais uma vez fiel a Diana.
Repleto de lances dramáticos e suspense, o enredo de ‘A Volta dos Piratas do Céu’ é um dos maiores exemplos de erotismo nos quadrinhos.”
Fábio Santoro




Em março de 1972, o Club Anni Trenta, de Gênova, Itália, publicou um belíssimo álbum (atualmente, esse álbum é raríssimo) com a história “The Return of the Sky Band!”