Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

ALGUMAS CURIOSIDADES SOBRE O FILME O NONO MANDAMENTO
Marco Aurélio Lucchetti



Envolvendo amor, sexo e traição, O Nono Mandamento (Strangers When We Meet,  1960) é a obra-prima do diretor Richard Quine (1920-1989) e conta a história do relacionamento adúltero de um arquiteto brilhante e idealista, Larry Coe (Kirk Douglas), com uma de suas vizinhas, a dona-de-casa Maggie Gault (Kim Novak).



Baseado num romance de Evan Hunter (ele também escreveu o roteiro do filme), O Nono Mandamento mostra muito bem o vazio intelectual existente nos subúrbios norte-americanos.



Certa vez, o diretor Joshua Logan (1908-1988), mais importante na Broadway do que no Cinema – seus filmes de maior sucesso foram Férias de Amor (Picnic, 1955) e Nunca Fui Santa (Bus Stop, 1956), ambos baseados em peças de William Inge (1913-1973) –, disse que, para Kim Novak, “a beleza era como uma coroa de espinhos”, ou seja, sua beleza era a causa de seus tormentos. Em O Nono Mandamento, a beleza de Maggie Gault é a causadora de todos os seus problemas, já que faz os homens (sejam eles um arquiteto ou um caminhoneiro) desejarem-na e, por conseguinte, possuírem-na, mesmo sabendo que ela é casada.



Em O Nono Mandamento, Richard Quine (além de diretor, ele também foi o produtor da fita) teve de enfrentar um estranho problema de produção: a construção de uma maravilhosa e funcional casa de dois andares precisava acompanhar o desenvolvimento do caso entre Kirk Douglas e Kim Novak. E a cena final do filme foi filmada na casa, no dia em que ela ficou pronta. Imediatamente após a cena, Quine tirou o talão de cheques do bolso e comprou a casa. Então, as revistas de fofocas perguntaram se seria ali que ele passaria a lua-de-mel com Kim Novak (na ocasião, diziam que o diretor estava enamorado da atriz e que iriam se casar em breve).



Na época, houve alguns boatos que nunca foram confirmados... nem desmentidos. Diziam esses boatos que Kirk Douglas reescrevera não somente algumas de suas falas em O Nono Mandamento como também outras tantas de Kim Novak, sem pedir permissão a ela ou ao roteirista.



Richard Quine aproveitou o famoso e caro restaurante Romanoff para uma cena de grande importância na fita: Kirk Douglas, Kim Novak  e mais 87 extras deviam fingir que estavam jantando principescamente iguarias deliciosas. Quando todos foram jantar de verdade, verificaram que a comida – o prato principal era picadinho – fora preparada numa cantina do estúdio e tiveram de se acomodar em mesas improvisadas no pátio do estacionamento do restaurante. Kirk Douglas não deixou passar a oportunidade e comentou, bem-humorado: “Em Os Vikings, apareço comendo, numa bandeja, leão assado. Em Spartacus, vocês me verão comendo um javali. Por isso, esse picadinho faz com que eu me sinta quase vegetariano.”



Por falar em cenas de comer, houve, em O Nono Mandamento, outra filmagem num restaurante, situado num penhasco sobre o Oceano Pacífico. Concentrado no diálogo íntimo e cheio de tensão, Richard Quine empolgou-se e acabou dizendo a seu assistente: “Há muito barulho aqui. Mande diminuí-lo.” O assistente replicou: “Lamento muito, mas não posso controlar o oceano.”



Certa noite, ao sair apresada do estúdio, Kim Novak violou o regulamento: não devolveu à encarregada do guarda-roupa o vestido e a bolsa que usara nas filmagens. Durante a noite, seu grande cão dinamarquês, chamado Warlock, comeu a bolsa, que ela usaria novamente na primeira cena do dia seguinte. Quando chegou ao estúdio, Kim estava frenética e só se acalmou ao ver que a encarregada do guarda-roupa arranjara outra bolsa exatamente igual àquela.



O roteiro enxuto de Evan Hunter (1926-2005), a direção segura de Richard Quine e a interpretação sem excessos de Kirk Douglas, Kim Novak, Barbara Rush, Ernie Kovacs (1919-1962) e Walter Matthau (1920-2000) tornaram O Nono Mandamento um dos melhores filmes sobre infidelidade já realizado em Hollywood.