Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

MOLL FLANDERS



Escrito por Daniel Defoe, o romance Robinson Crusoe (1719) foi inspirado na história real de Alexander Selkirk, marinheiro escocês que, durante quatro anos, viveu sozinho numa ilha deserta, experimentando toda sorte de aventuras e conseguindo sobreviver graças à sua inteligência e capacidade de adaptação. (...)
A crítica recebeu a obra com certa ironia. (...)
Mas, se os intelectuais da época não deram importância ao livro, o sucesso de público foi extraordinário. O povo, especialmente a classe média, identificou-se com o herói, que, saído do mesmo nível social, soube vencer pelo próprio esforço as dificuldades e impor-se num mundo hostil.
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E o grande sucesso de público de Robinson Crusoe seria igualado por Moll Flanders (1722), cujo título completo é: “Venturas e Desventuras da Famosa Moll Flanders & Cia., que viu a luz nas prisões de Newgate e que, ao longo de uma vida rica em vicissitudes, a qual durou três vezes vinte anos, sem levar em conta sua infância, foi durante doze anos prostituta, durante doze anos ladra, casou-se cinco vezes (uma das quais com seu próprio irmão), ficou exilada durante oito anos na Virgínia e que, enfim, fez fortuna, viveu muito honestamente e morreu arrependida; vida contada segundo seus próprias memórias.”
Segundo alguns críticos, para escrever Moll Flanders, Defoe inspirou-se na vida de uma certa Mary Frith (1584-1659), conhecida em seu tempo como “Moll, a ladra esperta” – suas aventuras, publicadas, em 1662, haviam tido grande repercussão. Mas, embora Moll Flanders seja escrito na primeira pessoa e Defoe afirme estar transcrevendo memórias autênticas, das quais apenas omitiu certas passagens escabrosas, a pretensa veracidade da história constitui, possivelmente, um artifício, não só para torná-la mais atraente aos leitores, como também para eximir o escritor de qualquer responsabilidade pelo escândalo que poderia provocar a vida licenciosa da personagem.
Nesse sentido, Defoe se protege previamente, advertindo ser o objetivo da obra “alertar as pessoas honestas, indicando-lhes os processos pelos quais gente inocente é atraída, espoliada e roubada, e mostrando, por conseguinte, o meio de evitá-lo”... Não lhe interessavam tanto o roubo, o adultério ou a prostituição em si mesmos, mas as razões econômicas que levam a estas práticas e a comercialização que em seguida as envolve. “O vício entra sempre pela porta da necessidade, não pela porta da inclinação”, diz Moll Flanders. Premido por imperiosas razões materiais, um ser humano pode ser levado aos piores extremos: esta parece ser sua principal lição.
Para alguns críticos impiedosos, Moll Flanders seria uma caricatura do próprio escritor. Tal como ela, Defoe esteve encarcerado em Newgate; e, da mesma forma como a “heroína”, abandonada por um marido, precisou recomeçar a vida aos 43 anos, Defoe, ao sair da prisão com a mesma idade, teve de construir toda uma carreira literária a partir do zero.
Para o público, Moll Flanders constituiu uma deliciosa aventura. O tema atraente, a linguagem direta e vivaz, a crueza com que são abordados os temas mais delicados garantem ao livro uma extraordinária vitalidade.

 

Este texto foi transcrito de Os Imortais da Literatura Universal volume II (São Paulo, Abril Cultural, 1972, pp. 16-18)