Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

MINHA VIDA EM HOLLYWOOD
Kim Novak



Alguém já disse que Hollywood é um fábrica onde se produzem e se vendem sonhos. E eu acompanho os que pensam assim, depois do que aconteceu comigo nos últimos três anos. Tudo começou quando eu participava como extra num filme estrelado por Jane Russell (...).
Foi aí que o sonho começou para mim. Logo depois, a Columbia contratou-me. No meu primeiro filme, A Morte Espera no 322, figurei ao lado de Fred MacMurray. Dois filmes tendo-me como estrela seguiram-se ao meu début. Entre um e outro, estudei com o brilhante professor de Arte Dramática da Columbia, Benno Schneider.
Por esse tempo, apontavam-me como uma “fluorescente bomba” ou a “nova Marilyn Monroe”, termos que não foram particularmente do meu agrado. Desde que você tenha cabelos louros, em Hollywood, é tratada como outra Marilyn Monroe. Admiro muito miss Monroe; porém, afora o fato de ambas no chamarmos Marilyn e sermos todas duas do sexo feminino, penso que somos dois tipos completamente diferentes.
Fiquei muito emocionada quando Joshua Logan aceitou-me para o papel de Madge, em Férias de Amor. A transição – não somente em aparência (de uma loira de cabelos curtos para uma ruiva de cabelos longos) – ocorreu em toda a natureza do desempenho. Foi uma mudança radical.
Se eu falasse que estava calma e serena, ao aceitar o papel de Madge, seria mentira. Estava ultra-receosa. Então, eu não era Kim Novak, a estrela de Cinema, e sim Marilyn Novak, de Chicago, com todos os meus complexos em torno de mim. (...)
Não se tratava de um grupo teatral amadorista. Eu tinha de estar no mesmo plano de William Holden, Rosalind Russell e Betty Field. Não me constranjo em admitir: rezei até pouco antes de o filme começar (...). Porém, você precisa muito mais do que orações, numa situação assim. E eu tinha Josh Logan, um dos mais talentosos cineastas.
Quando o filme estava terminando, Josh emocionou-me, ao dizer: “Da noite para o dia, você amadureceu como atriz.”
Desejava isso. Se consegui ou não, só o tempo dirá.
O meu próximo papel foi  o de uma esposa da sociedade, em Melodia Imortal, com Tyrone Power. Se desempenhei bem o papel de uma mulher fatal em Abaixo o Divórcio ou se representei bem os dramáticos personagens dos meus dois últimos filmes, não cabe a mim dizer. A decisão final está entregue aos críticos e ao público que compra os ingressos.
De qualquer modo, esse tem sido o lado profissional de minha vida. No que diz respeito à minha vida pessoal, esforço-me para manter os pés no chão.
Ainda resido no Hollywood Studio Club, muito embora a Columbia, recentemente, tenha assinado um novo contrato de sete anos comigo, com um aumento de salário tão substancial que excedeu minha expectativa. Poderia transferir-me para um moderno apartamento, com uma piscina em forma de rim e comprar um conversível especial. Mas para quê? Seria cair no mesmo sorvedouro em que tantos mergulharam antes de mim.
Continuo passeando com o mesmo homem com quem saía antes de começar o meu “sonho”. (...) Ele não é artista; e posso esquecer-me das coisas do Cinema, quando estou em sua companhia, e falar sobre outros assuntos. Você não pode fazer assim com um ator.
Entretanto, ainda não estou pensando em casamento. Cada coisa a seu tempo. Suponho que algum dia casarei com ele. Mas ainda não tenho planos feitos. Não acredito que possa seguir uma carreira de “estrela de Cinema” e ser uma boa esposa.
Se casar, quero ser uma esposa como a minha mãe e ter filhos. Nos últimos três anos, não tive muito tempo para romance fora das telas. Os meus romances foram “amar” os atores com os quais trabalhava.
Exatamente agora, preciso tornar-me uma boa atriz. Não uma estrela de Cinema. Apenas uma boa atriz.
Havia estudado Arte Dramática na escola secundária, mesmo sem julgar essa matéria importante. Tudo que desejava, naquela época, era um baile com os rapazes.
Recentemente, um amigo meu perguntou-me: “Kim, sem pestanejar, você pode afirmar-me que só tem vinte e três anos?” “Posso”, respondi. Nasci em 13 de fevereiro de 1933, às 3 horas e 13 minutos, no quarto 313, do St. Anthony Hospital, em Chicago.
(...)
Certo dia, o pessoal do estúdio chamou-me para dizer que eu estava usando vestidos decotados demais. Deveria preferir roupas conservadoras. Concordei.
Como não possuo pernas bonitas, quase não vou à praia. Conheço tão bem os meus pontos fracos como os fortes. Recordo-me de que o assessor de imprensa da Columbia escreveu coisas sobre mim, fazendo-me melhor do que realmente sou.
É razoável que um extra promissor possa se transformar num artista. Mas parecer bonita na tela não significa que você se torne uma beldade, na vida real.
(...)
Muitas pessoas me ajudaram e me deram coragem. A minha avó deu-me fé religiosa. Norma Kassell deu-me confiança na minha aparência. As moças do Hollywood Studio Club deram-me crédito aos meus julgamentos, elegendo-me para o conselho da casa. Meu namorado fez com que eu acreditasse em mim, como mulher. E tenho as minhas mascotes, que me acompanham desde a minha estréia como modelo.
Sempre tive de trabalhar duro, para alcançar as recompensas de Hollywood. Não foi fácil me ajustar. (...). No entanto, não há alternativa, em Hollywood. Você tem de seguir os caminhos traçados. E, assim, adotei os meus estranhos hábitos de trabalho.
(...)
Hollywood me ensinou muitas coisas, inclusive que se apaixonar pelo seu partenaire é uma falha. Nunca tinha visto Frank Sinatra, até a assinatura do contrato para O Homem do Braço de Ouro. Tenho muito respeito por Frank Sinatra. Ele é real. Envolve-se em complicações porque é honesto demais. Tyrone Power, com quem contracenei em Melodia Imortal, é fascinante; mas as nossas relações foram estritamente profissionais.
(...)
Não fumo, nem bebo. Não é uma questão de moral, apenas não gosto dessas coisas. É certo que bebo um pouco de champagne em algumas ocasiões, mas sem fazer disto um hábito.
Será que mudei?
Não. Somente cresci, desenvolvi-me e amadureci. Não fico deprimida por ter as minhas cicatrizes íntimas.
Há alguns anos, vivia imaginando o que iria fazer no mundo. Era inclinada à introspecção. As dúvidas cercavam-me. Então, vim para Hollywood e encontrei trabalho.
A princípio, era apenas um rosto frente à câmera e um corpo que vestia roupas. De alguma maneira, o rosto era fotogênico.
O meu futuro? Tenho planos de viajar pela Europa. Farei muitos outros filmes. Essa nova pessoa que descobri dentro de mim é tão excitante que tudo farei para viver como agora.
Também gosto de poesia. Tenho paixão por Rimbaud e Baudelaire.
Está fazendo três anos que entrei na “fábrica de sonhos” de Hollywood. Com a experimentada orientação dos homens que fazem os filmes (...), ao lado de um bom trabalho consciente, coloquei todas as minhas emoções no bom desempenho dos meu papéis. Farei tudo para permanecer em Hollywood por muito tempo.

 

Este texto foi transcrito da edição de 9 de fevereiro de 1957 da revista O Cruzeiro