Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

MEMÓRIAS DE UM CINÉFILO - PARTE 2
Rubens Francisco Lucchetti



Meu pai, Américo Lucchetti, teve diversos empregos. Entre outras coisas, foi delegado (na época, não precisava ser formado em Direito para exercer o cargo), professor de Inglês, coletor (fora nomeado pelo então governador de São Paulo, Washington Luís). Mas sua grande paixão – paixão essa despertada ainda na adolescência – era a fotografia, o que o levou a tornar-se fotógrafo profissional.
Abre um parêntese.
Dizem que “filho de peixe, peixinho é”. Entretanto, esse dito popular é desmentido por mim. Nunca me interessei por fotografia. Uma prova disso é que comprei minha primeira máquina fotográfica somente aos 61 anos de idade e só me aventuro a tirar fotos com ela porque é uma câmera inteiramente automática. Desde menino meus interesses sempre foram quatro: histórias de Detetive & Mistério, revistas pulp, histórias em quadrinhos e filmes.
Fecha o parêntese.
Em 1928, como presente de casamento, meu avô materno, o nonno Pasquale Baldassare, montou para meu pai um estúdio de luxo em sua cidade natal, a pequena Santa Rita do Passa Quatro, no interior do estado de São Paulo. Esse estúdio durou pouco tempo. Faliu, já que meu pai era um perfeccionista e nunca estava satisfeito com o resultado de seu trabalho, gastando muito material (chapas, papel fotográfico etc.) para tirar uma simples foto; além do mais, uma cidade tão pequena como Santa Rita não era adequada para abrigar um estúdio tão luxuoso (acho que, na época, não era adequada nem mesmo para ter um estúdio fotográfico). Então, por volta de 1933 (eu tinha uns três anos de idade), minha família se mudou para São Paulo, pois o nonno conseguira para meu pai um emprego de chefe de escritório na Casa Zuffo, uma loja de ferragens situada em frente ao prédio do DOPS, no Largo General Osório, no bairro de Santa Ifigênia. Meu pai ficou na Casa Zuffo pouco mais de onze anos. Certo dia, ele, que tinha um gênio muito difícil, discutiu, brigou com um dos donos; e, conseqüentemente, para desespero da minha mãe, Assumpta, perdeu o emprego.
Após sair da Casa Zuffo, meu pai passou a dedicar-se inteiramente à fotografia. Costumava tirar fotos de casamentos, usando uma grande câmera com tripé. No entanto, o que ele mais fazia era restaurar fotografias antigas. Nos fins de semana, viajava principalmente para a zona rural de Santa Rita. Visitava fazendas e sítios, onde sempre havia fotos para serem restauradas. Numa dessas viagens, eu o acompanhei. Foi a primeira e única vez que pisei o solo de uma fazenda, já que sou uma pessoa essencialmente urbana.
Meu pai fora até lá, para visitar um amigo, administrador da fazenda, e acabou conseguindo inúmeras fotografias (a maioria delas de familiares de imigrantes italianos, colonos da fazenda) para serem ampliadas e/ou restauradas.
Depois do jantar, participamos de um serão numa grande sala que tinha paredes caiadas, chão lavado, enormes janelas coloniais, lampiões pendentes dos travessões de madeira e telhado sem  forro. Estavam presentes, além de meu pai e eu, o administrador da fazenda, sua esposa, um veterinário (ele havia ido à fazenda para vacinar o gado) e mais umas três pessoas. Sobre a comprida mesa (sem verniz, essa mesa mais parecia uma extensão do próprio assoalho) havia uma bacia de pipoca e um grande bule de ágata cheio de café.
Durante umas cinco horas, comendo pipoca, tomando café e embalado pelo som de um carrilhão que, a cada quinze minutos, avisava que a noite avançava, ouvi todos contarem histórias fantásticas e estranhas. A que mais me impressionou foi a que tinha como protagonista um monstro que aterrorizava uma cidadezinha do interior. Não sei quem a contou; apenas sei que ela me marcou tanto que, alguns anos mais tarde, eu a transformaria no conto “O Monstro de Ouro Verde”.
Quando todos terminaram seus relatos, já passava de uma hora da manhã. Então, saímos para dar uma volta pelas imediações. Um luar maravilhoso iluminava, até onde a vista alcançava, os cafezais. Essa imagem, que eu jamais irei esquecer, ajudou a compor o cenário descrito em “O Monstro de Ouro Verde”. E devo confessar que, ao vê-la, tive consciência de que estava sendo tocado por algo imponderável, um estado de graça que, infelizmente, nunca mais iria se repetir. Foi um instante extraordinário aquele. Foi o instante em que consegui compreender que o maravilhoso existe!
No entanto, nem tudo foi maravilhoso nos seis meses que se seguiram à demissão do meu pai. Para minha família, foi, na verdade, um período de penúria, em que eu tinha de dar em casa (morávamos na Rua Catão, na Lapa) quase todo o meu salário de office-boy (eu tinha, então, quatorze anos de idade; e começara a trabalhar com treze anos).
Percebendo nossa dificuldade, o nonno, que estava numa situação financeira boa, uma vez que era viajante e possuía algumas propriedades em Ribeirão Preto, deu uma de suas casas para os meus pais morarem. E, na primeira metade de 1945, perto do término da Segunda Guerra Mundial, minha família se mudou para Ribeirão e foi morar no número 1400 da Rua São Sebastião.
Não me agradou nem um pouco sair de São Paulo. Tudo porque adorava a cidade, sobretudo o centro, cujas ruas percorria a pé todos os dias, fazendo cobranças e entregas para a loja de autopeças em que eu trabalhava.
Nessa época, o centro de São Paulo passava por uma completa transformação – novas avenidas, como a Duque de Caxias e a Rio Branco estavam sendo abertas; tubulações eram trocadas... E, devido ao meu trabalho, pude acompanhar parte dessa transformação. Gostava de observar os operários trabalharem, ver os prédios (alguns com pouco mais de dez anos de existência) sendo demolidos e as ruas sendo rasgadas por buracos enormes. Às vezes, dava uma escapada e ia até ao lado do Teatro Municipal, para dar uma olhada na estátua dos três cavalos soltando água pelas narinas e nas imagens dos personagens de ópera. Com freqüência, visitava a Galeria Prestes Maia, onde sempre havia exibições de cinejornais, curtas-metragens e desenhos animados. Nessas minhas andanças pelas ruas centrais de São Paulo, descobri bancas de jornal que vendiam apenas publicações usadas. Na verdade, não eram bancas  de jornal, mas sim vendedores ambulantes que expunham revistas usadas nas escadarias dos bancos, por volta das cinco horas da tarde, após o final do expediente. Eu ficava encantado com as capas de números antigos das revistas pulp Detective, Mistérios, Lupin... Costumava também parar diante dos cinemas e ficar olhando os cartazes das fitas que estavam sendo exibidas. Isso tudo foi formando meu universo. E, como sempre tive uma vida interior muito intensa, esse universo foi se agigantando em meu espírito. E, de repente, tudo isso foi arrancado de mim, com a mudança para Ribeirão Preto. Senti-me, então, como um passarinho que vive solto na floresta e repentinamente é preso numa gaiola.
Porém, não fui direto para Ribeirão. Fiquei um tempo, talvez uns seis meses, em Santa Rita, na casa de tio Caetano, que era cunhado de meu pai.
Num sábado à tarde – na semana seguinte, meus pais e minhas três irmãs, Célia (ela faleceria em 1945, com apenas treze anos de idade, vítima de um câncer no baço), Lélia e Daisy, se mudaram para Ribeirão –, um de meus primos, Renato, veio me buscar; e embarcamos num trem da Mogiana, na Estação da Luz. Em Porto Ferreira, saltamos e pegamos um trem de bitola estreita que ia até Santa Rita. A viagem toda durou umas oito horas.
Adorei os meses que passei em Santa Rita. Passava boa parte do tempo lendo e escrevendo. Às vezes, ia ao cinema.
Em Santa Rita, havia apenas um cinema. Ele não era muito grande (devia ter uns duzentos ou trezentos lugares) e ficava a poucos metros da casa dos meus tios, numa esquina. Nas sessões da tarde, cobrava ingressos baratos, já que exibia filmes e seriados americanos produzidos, em sua maioria, entre 1936 e 1941. Eram sessões duplas, ou seja, exibiam normalmente dois filmes e dois capítulos de dois seriados diferentes. Recordo-me de ter assistido ali a diversas fitas da série Os Anjos da Cara Suja (da Monogram Pictures), alguns filmes da atriz mirim Shirley Temple (Suzana, A Princesinha, O Pássaro Azul) e vários seriados (A Deusa de Joba, A Sombra do Escorpião, A Volta de Dick Tracy, O Misterioso Doutor Satan, Os Tambores de Fu Manchu, A Garra de Ferro, entre outros), muitos dos quais dirigidos pelo prolífico William Witney. Recordo também que vi uma infinidade de faroestes poeira e Patrulha da Madrugada, um filme cuja trama se passa durante a Primeira Guerra Mundial. Nas sessões da noite, eu ia raramente, porque o ingresso era mais caro, uma vez que eram exibidas fitas mais recentes. Lembro-me de que, numa dessas sessões, assisti, na companhia de uma das minhas primas, a Elina, ao noir Capitulou Sorrindo. Uma das poucas coisas – senão a única – que guardei desse filme, que, anos mais tarde, descobriria ser uma adaptação de um romance de Detetive & Mistério escrito por Dashiell Hammett, foi o nome da atriz: Bonita Granville. Não sei explicar a razão de minha memória haver guardado o nome de Bonita Granville, e não os nomes dos atores principais da fita, Brian Donlevy, Veronica Lake e Alan Ladd. Mais ou menos o mesmo aconteceu com um filme do qual não tenho lembrança sequer do título, mas me lembro de uma única cena, que nunca esqueci: a do ator Lew Ayres, num travelling de recuo, caminhando pela rua e fazendo movimentos com uma bengala tipo bastão, que segura, com ambas as mãos, pelas extremidades. São os mistérios insondáveis da mente humana.
Passei também muitas tardes observando o trabalho do pintor Biagini, que estava restaurando a igreja matriz, e até o ajudei a pintar alguns enfeites das paredes.
Gostei de Santa Rita e de conviver com meu tio, minhas tias (Adelina e Assumpta) e meus primos e primas. Gostei tanto que não queria ir embora dali. Por mim, teria ficado o resto da  minha existência naquela pequena e pacata cidade. Mas – sempre existe um mas –, certo dia, o nonno chegou e levou-me para Ribeirão Preto.



FILMES CITADOS – FILMOGRAFIA


Suzana (Susannah of the Mounties, 1939, 78')
Direção: William A. Seiter
Roteiro: Robert Ellis & Helen Logan
Argumento: Fidel La Barca & Walter Ferris, baseando-se num livro de Muriel Denison
Elenco: Shirley Temple, Randolph Scott, Margaret Lockwood, J. Farrell MacDonald, Moroni Olsen, Victor Jory


A Princesinha (The Little Princess, 1939, 91')
Direção: Walter Lang
Roteiro: Ethel Hill & Walter Ferris, baseando-se num romance de Frances Hodgson Burnett
Elenco: Shirley Temple, Richard Greene, Anita Louise, Ian Hunter, Cesar Romero, Arthur Treacher, Mary Nash, Sybil Jason, Miles Mander, Marcia Mae Jones, Beryl Mercer, Deidre Gale, Ira Stevens, E. E. Clive, Eily Malyon, Will Stanton, Harry Allen

 


O Pássaro Azul (The Blue Bird, 1940, 88')
Direção: Walter Lang
Roteiro: Ernest Pascal, baseando-se na peça O Pássaro Azul (L’Oiseau Bleu, 1909), do escritor belga de expressão francesa Maurice Maeterlinck
Diálogos adicionais: Walter Bullock
Música: Alfred Newman
Elenco: Shirley Temple, Spring Byington, Nigel Bruce, Gale Sondergaard, Eddie Collins, Sybil Jason, Jessie Ralph, Helen Ericson, Johnny Russell, Laura Hope Crews, Russell Hicks, Cecilia Loftus, Al Shean, Leona Roberts, Gene Reynolds, Stanley Andrews, Frank Dawson, Sterling Holloway, Thurston Hall, Edwin Maxwell, Herbert Evans, Brandon Hurst, Keith Hitchcock, Tommy Baker, Dorothy Joyce, Billy Cook, Scotty Beckett, Juanita Quigley, Payne Johnson, Ann Todd, Diane Fisher


Patrulha da Madrugada (The Dawn Patrol, 1938, 103')
Direção: Edmund Goulding
Roteiro: Seton I. Miller & Dan Totheroh, baseando-se numa história de John Monk Saunders
Música: Max Steiner
Elenco: Errol Flynn, Basil Rathbone, David Niven, Donald Crisp, Melville Cooper, Barry Fitzgerald, Carl Esmond, Peter Willes, Morton Lowry, Michael Brooke, James Burke, Stuart Hall, Herbet Evans, Sidney Bracy, Leo Norris

 


Capitulou Sorrindo (The Glass Key, 1942, 85')
Direção: Stuart Heisler
Roteiro: Jonathan Latimer, baseando-se no romance A Chave de Vidro (The Glass Key, 1931), de Dashiell Hammett
Música: Victor Young
Elenco: Brian Donlevy, Veronica Lake, Alan Ladd, Bonita Granville, Joseph Calleia, William Bendix, Richard Denning, Frances Gifford, Moroni Olsen, Margaret Hayes, George Meader, Eddie Marr
Disponível no Brasil em DVD, com o título de A Chave de Vidro
Distribuidora: Classicline

 


A Deusa de Joba (Darkest Africa, 1936, quinze capítulos, 269')
Produtora: Republic
Direção: B. Reeves Eason & Joseph Kane
Roteiro: John Rathemell, Barney Sarecky & Ted Parsons
Elenco: Clyde Beatty, Manuel King, Elaine Shepard, Lucien Prival, Wheeler Oakman, Edward McWade, Edmund Cobb, Ray Turner, Donald Reed
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Classicline

 


A Sombra do Escorpião (Blake of Scotland Yard, 1937, quinze capítulos, 300')
Produtora: Victory
Direção: Bob Hill
Roteiro: William Buchanan & Basil Dickey
Argumento: Rock Hawkey (pseudônimo de Bob Hill)
Elenco: Ralph Byrd, Joan Barclay, Dickie Jones, Herbert Rawlinson, Lloyd Hughes, Nick Stuart, Lucille Lund, Theodore Lorch, Jimmy Aubrey, Sam Flint, Dick Curtis, Gail Newbury, William Farrell, Bob Terry, George DeNormand, Frank Wayne

 


A Volta de Dick Tracy (Dick Tracy Returns, 1938, quinze capítulos, 254')
Produtora: Republic
Direção: William Witney & John English
Roteiro: Barry Shipman, Franklyn Andreon, Ronald Davidson, Rex Taylor & Sol Shor, baseando-se na história em quadrinhos Dick Tracy, de Chester Gould
Elenco: Ralph Byrd, Lynn Roberts, Charles Middleton, Jerry Tucker, David Sharpe, Lee Ford, Michael Kent, John Merton, Raphael Bennett, Jack Roberts, Ned Glass, Edward Foster, Alan Gregg, Reed Howes, Robert Terry, Tom Seidel, Jack Ingram

 


Misterioso Doutor Satan (Mysterious Doctor Satan, 1940, quinze capítulos, 267')
Produtora: Republic
Direção: William Witney & John English
Roteiro: Franklin Andreon, Ronald Davidson, Norman S. Hall, Joseph F. Poland, Barney A. Sarecky & Sol Shor
Elenco: Edward Ciannelli, Robert Wilcox, William Newell, C. Montague Shaw, Dorothy Herbert, Ella Neal, Charles Trowbridge, Jack Mulhall, Edwin Stanley, Walter McGrail, Joe McGuinn, Bud Geary, Paul Marion, Archie Twitchell, Lynton Brent, Ken Terrell, Al Taylor

 


Os Tambores de Fu Manchu (Drums of Fu Manchu, 1940, quinze capítulos, 269')
Produtora: Republic
Direção: William Witney & John English
Roteiro: Franklin Andreon, Morgan B. Cox, Ronald Davidson, Norman S. Hall, Barney A. Sarecky & Sol Shor, baseando-se no romance The Drums of Fu-Manchu (1939), de Sax Rohmer
Elenco: Henry Brandon, William Royle, Robert Kellard, Gloria Franklin, Olaf Hytten, Tom Chatterton, Luana Walters, Lal Chand Mehra, George Cleveland, John Dilson, John Merton, Dwight Frye, Wheaton Chambers

 


A Garra de Ferro (The Iron Claw, 1941, quinze capítulos, 289')
Produtora: Columbia
Direção: James W. Horne
Roteiro: Basil Dickey, George Plympton, Jesse A. Duffy, Charles R. Condon & Jack Stanley
Elenco: Charles Quigley, Joyce Bryant, Forrest Taylor, Walter Sande, Norman Willis, Alex Callam, James Metcalfe, Allen Doone, Edythe Elliott, John Beck, Charles King, James C. Morton, Hal Price