Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

A SEGUNDA MORTE DE LUCY
(extraído do romance Drácula)
Bram Stoker
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



DIÁRIO DO DR. SEWARD

Faltava um quarto para a meia-noite, quando entramos no cemitério, pulando o muro baixo. A noite estava escura, com raios ocasionais do luar brilhando entre as brechas das pesadas nuvens que se moviam rapidamente através do céu. Todos nos mantínhamos juntos; e Van Helsing ia ligeiramente à frente, indicando o caminho. Quando estávamos próximos do túmulo, olhei fixo para Arthur, temendo que a proximidade de um lugar carregado de tão tristes recordações pudesse perturbá-lo; mas ele se portou bem. Creio que o próprio mistério do procedimento era de algum modo neutralizador de sua mágoa. O Professor abriu a porta e, percebendo a natural hesitação que por diferentes razões se manifestou entre nós, acabou com o embaraço, entrando primeiro. Nós o seguimos, e ele fechou a porta. Em seguida, acendeu uma lanterna de cor escura e apontou seu foco de luz para o caixão. Hesitante, Arthur parou à frente. Van Helsing disse para mim:
– Você e eu estivemos aqui recentemente. O corpo da srta. Lucy estava no caixão?
– Sim, estava.
O Professor virou-se para os demais, dizendo:

– Vocês ouviram...
Ele apanhou a chave de fenda e mais uma vez removeu a tampa do caixão.
Bastante pálido e em silêncio, Arthur observava tudo e, quando a tampa foi removida, deu um passo à frente. Evidentemente, não sabia que havia um ataúde feito de chumbo ou, pelo menos, não se lembrava disso. Assim que ele viu o rasgo no chumbo, o sangue lhe inundou o rosto por um instante; entretanto, logo em seguida, o rapaz tornou-se mais uma vez pálido como um cadáver. Continuou em silêncio.
Van Helsing tirou a tampa de chumbo. Todos nós olhamos e retrocedemos.
O caixão estava vazio!
Durante vários minutos, ninguém disse uma palavra. O silêncio foi quebrado por Quincey Morris:

– Professor, eu me responsabilizei por você. Sua palavra é tudo o que quero. Normalmente, não lhe faria tal pergunta, pois não gostaria de desonrá-lo com uma dúvida; mas este é um mistério que supera qualquer honra ou desonra. É responsável por isso?
– Juro-lhe por tudo que é sagrado que não toquei nem removi o cadáver. O que aconteceu foi o seguinte: três noites atrás, meu amigo Seward e eu viemos aqui, com bons propósitos... creiam-me. Abri o caixão, que estava trancado; e, como agora, nós o encontramos vazio. Esperamos e, então, vimos um vulto branco andar entre as árvores. No dia seguinte, viemos aqui, à luz do dia; e o cadáver de Lucy estava no devido lugar. Não estava, amigo John?
– Sim.
– Nessa noite, chegamos na hora. Mais uma criancinha desaparecera; e, graças a Deus, nós a encontramos, ilesa, entre os túmulos. Ontem, vim aqui antes do pôr-do-sol, porque é após o crepúsculo que os não-mortos podem movimentar-se. Esperei aqui durante toda a noite, até a aurora; mas nada vi. Provavelmente isso ocorreu porque coloquei sobre os trincos dessas portas flores de alho e outros objetos que os não-mortos evitam ou não toleram. Na noite passada não houve evasão; então, esta noite, antes do pôr-do-sol, retirei as flores de alho e os outros objetos. É por esse motivo que achamos o caixão vazio. Até agora, há muitas coisas estranhas. Mas permaneçam comigo lá fora, escondidos e em silêncio, e terão oportunidade de verem coisas ainda mais estranhas. Portanto, – e, assim dizendo, apagou a lanterna – todos para fora.
Van Helsing abriu a porta, e saímos em fila. Ele saiu por último e fechou a porta atrás de si.
Oh! Como parecia fresco e puro o ar noturno, após o terror experimentado no jazigo. Como era agradável contemplar as nuvens correndo e os raios do luar que passavam entre as nuvens velozes – semelhantes à alegria e à tristeza que passam na vida de um homem. Como era agradável respirar o ar fresco, totalmente livre da morte e da destruição. Quão tranqüilizador era ver a claridade rubra do céu além da montanha e ouvir o ruído distante e abafado que marca a vida de uma grande cidade. Arthur continuava silencioso, e creio que tentava decifrar o mistério. Eu aceitava tudo com resignação e estava um tanto inclinado a desfazer-me das dúvidas e dar crédito às conclusões de Van Helsing. Quincey Morris mostrava-se impassível, à moda do homem que aceita todas as coisas com bravura e que sabe tudo o que arrisca. Não sendo possível fumar, cortou um bom pedaço de fumo e começou a mascar. Quanto a Van Helsing, tinha sua própria ocupação. Primeiro, retirou de sua maleta uma massa fina como biscoito e enrolou-a cuidadosamente num guardanapo branco; em seguida, apanhou dois punhados de uma substância branca semelhante à farinha ou à massa de vidraceiro. Depois, esmigalhou bem a massa fina e misturou-a à substância branca. Obteve assim uma pasta que enrolou em tiras finas e principiou a vedar com essas tiras as fendas entre a porta e a soleira do jazigo. Intrigado com aquilo, aproximei-me e perguntei-lhe por que estava fazendo tal coisa. Arthur e Quincey também se aproximaram, impelidos pela curiosidade. O Professor respondeu:
– Fecho o jazigo para que a Não-Morta não possa entrar.
– E esta substância que você pôs aí será o suficiente? – Perguntou Quincey.
– Sim, será.
– Que está usando? – A pergunta agora fora de Arthur.
Van Helsing levantou reverentemente o chapéu, respondendo:
– Hóstia. Trouxe-a de Amsterdã.
Foi uma resposta que assustou o mais cético de nós; e sentimos individualmente que, diante de tão sincero propósito por parte do Professor, um propósito que lhe permitia utilizar o mais sagrado dos objetos, era impossível duvidar. Em respeitoso silêncio, ocupamos nossos lugares ao redor do jazigo, ficando ocultos de quem quer que se aproximasse. Tive pena dos demais, especialmente de Arthur. Já me habituara, devido às minhas visitas anteriores, a esta vigília de horror; mas, mesmo assim, sentia um aperto no coração. Nunca os túmulos pareceram tão horrivelmente brancos; nunca os ciprestes, teixos e zimbros tinham corporificado tanto a morbidez funérea; nunca o uivo distante dos cães cortara tão aflitivamente a noite.
Houve um longo período de silêncio, um imenso e angustiante vazio. Depois, ouvi um “psiu”. Era o Professor, e ele apontava em direção à aléia dos teixos. Vimos uma figura branca avançando, uma figura tênue que segurava algo escuro no colo. O vulto parou; e, então, um raio de luar atravessou a massa de nuvens e iluminou-o. Era uma mulher que usava uma mortalha. Não pudemos ver seu rosto, pois ela se inclinava sobre o que identificamos ser uma criança de cabelos louros. Após uma pausa, ouviu-se um grito agudo, como aquele que uma criança emite dormindo ou semelhante ao ruído que faz um cachorro, ao sonhar diante das chamas da lareira. Fizemos menção de avançar; porém, o Professor fez um gesto com a mão, impedindo-nos. O vulto branco voltou a caminhar. Estava agora bem próximo; e, como ainda era iluminado pelo luar, pudemos vê-lo claramente. Meu coração gelou, e ouvi o penoso ofegar de Arthur. Ambos havíamos reconhecido as feições de Lucy Westenra. Sim, Lucy Westenra! Mas ela estava mudada. A ternura de seu rosto se transformara em crueldade; a pureza, em voluptuosa devassidão. Van Helsing deixou seu posto; e, obedecendo a um gesto seu, avançamos também. Nós quatro nos dispusemos em fila, diante da porta do jazigo. Van Helsing ergueu a lanterna e apertou o botão. Quando o facho de luz incidiu sobre o rosto de Lucy, vimos que seus lábios estavam com sangue fresco, que lhe escorria queixo abaixo e manchava o branco de sua mortalha.
Estremecemos de horror. Percebi que até os nervos de aço de Van Helsing começavam a fraquejar. Arthur estava junto de mim e, se eu não estendesse o braço para segurá-lo, teria caído.
Quando Lucy – chamo de Lucy aquilo que estava diante de nós porque tinha a forma da moça – nos viu, recuou e, tal qual um gato apanhado de surpresa, soltou um rosnado furioso. Em seguida, seu olhar cravou-se em nós. Na forma e na cor eram os olhos de Lucy; porém, em vez da pureza e da meiguice que anteriormente apresentavam, estavam impregnados de pecado e de um fogo demoníaco. Naquele momento, o que restava de meu amor se transformou em ódio; e, se ela tivesse de ser morta naquele instante, eu a teria matado com selvagem prazer. Enquanto Lucy nos encarava, seus olhos tinham um brilho voluptuoso e seus lábios abriam-se num sorriso lascivo. Oh, Deus! Como estremeci com aquilo!
Pérfida como o diabo, com um gesto displicente, Lucy jogou ao chão a criança que até então apertara contra o seio. A seguir, rosnou sobre ela, como um cão que ladra diante de um osso. A criança soltou um grito lancinante e ficou lá estendida, choramingando. Ao ver a frieza com que o ato fora cometido, Arthur gritou. Lucy avançou em sua direção com os braços estendidos e um sorriso libertino. Ele recuou e cobriu o rosto com as mãos. Ela continuou a avançar e, com um encanto sensual e lânguido, falou:
– Venha comigo, Arthur. Deixe esses outros aí e venha comigo. Meus braços anseiam por você. Venha, e repousaremos juntos. Venha, meu querido, venha!
Seu tom de voz tinha algo de diabolicamente doce – algo semelhante ao som de copos de cristal que se chocam – e que ecoava em nossos cérebros, apesar de as palavras serem dirigidas a outro. Quanto a Arthur, parecia em transe: afastando as mãos do rosto, abriu bem os braços. A mulher já se dispunha a atirar-se para eles, quando Van Helsing saltou e colocou entre os dois seu pequeno crucifixo dourado. Ela retrocedeu e, com o rosto contorcido, cheio de raiva, correu, como se quisesse entrar no jazigo. Entretanto, a apenas um ou dois passos da entrada, estacou, como se uma força irresistível a impedisse de continuar avançando. Devido ao luar claro e à luz da lanterna, seu rosto foi revelado plenamente. Nunca tinha visto tão atrevida malíicia numa face humana, e creio que jamais algum mortal tornará a ver. A linda cor tornara-se lívida; os olhos pareciam emitir faíscas de pecado; na testa formaram-se rugas semelhantes às cobras da Medusa; e seus lábios, ainda tintos de sangue, transformaram-se num quadrado aberto como nas máscaras teatrais dos gregos e japoneses. Vimos um rosto que espelhava a morte e que parecia matar com um olhar.
Durante meio minuto, que pareceu uma eternidade, Lucy permaneceu entre o crucifixo e a massa sagrada que impedia sua entrada. Van Helsing quebrou o silêncio, perguntando a Arthur:
– Responda-me, meu amigo! Devo continuar meu trabalho?
Arthur caiu de joelhos e, escondendo o rosto com as mãos, respondeu:
– Faça como quiser, amigo, faça como quiser.
Disse isso e soltou um gemido. Quincey e eu nos aproximamos ao mesmo tempo dele, para ampará-lo. Van Helsing desligou a lanterna, aproximou-se do jazigo e começou a remover das fendas parte da massa sagrada que lá colocara. Perplexos e horrorizados, vimos a mulher, que parecia possuir um corpo tão real quanto o nosso, passar através de uma minúscula abertura, onde nem sequer a lâmina de uma faca caberia. Depois, ficamos aliviados, ao ver Van Helsing recolocar calmamente as tiras de massa nas aberturas. Concluída essa tarefa, ele recolheu a criancinha e disse:
– Agora venham, meus amigos. Nada poderemos fazer por enquanto. Ao meio-dia, haverá um enterro. Logo após essa hora, viremos todos para cá. Por volta das duas horas da tarde, os amigos do morto já deverão ter ido embora; e, quando o sacristão fechar o portão do cemitério, permaneceremos dentro. Teremos mais trabalho para realizar. Quanto à criança, não está muito ferida e em breve estará boa. Como já fizemos com a da outra noite, nós a deixaremos onde a polícia possa encontrá-la. – Aproximando-se de Arthur, continuou: – Passou por momentos difíceis, meu amigo Arthur; mas, no futuro, quando olhar para trás, verá que tudo foi necessário. Atravessa agora águas amargas, meu jovem. Porém, amanhã a esta hora, já as terá atravessado e estará bebendo águas doces. Até então, não lhe pedirei que me perdoe.
Arthur e Quincey regressaram à casa comigo, e cada um de nós tentou alegrar os outros no caminho. Estávamos cansados e fomos diretos para a cama, a fim de aproveitar da melhor maneira nosso sono.

29 de setembro, à noite
Um pouco antes do meio-dia, Arthur, Quincey Morris e eu fomos buscar o Professor. Era estranho, mas nós estávamos trajados de preto. É claro que Arthur estava de preto devido ao luto; mas nós, os outros, o usávamos por instinto. Chegamos ao cemitério à uma e meia e por lá vagamos, conservando-nos fora das vistas das pessoas, para podermos agir livremente quando os coveiros finalizassem seu serviço e o sacristão (achando que todos haviam partido) fechasse o portão. Dessa vez, Van Helsing levava uma longa maleta de couro, semelhante a uma sacola de críquete; percebia-se que era pesada.
Quando ficamos sozinhos e ouvimos os últimos passos morrerem na estrada, seguimos silenciosamente o Professor até o jazigo. Ele abriu a porta e, assim que entramos, tornou a fechá-la. Em seguida, retirou a lanterna de dentro da maleta e acendeu-a. Acendeu também duas velas, que colocou em cima de dois caixões, a fim de que houvesse luz suficiente. Depois, levantou a tampa do caixão de Lucy. Nós todos olhamos e vimos o cadáver. Não havia amor em meu coração, mas apenas ódio por aquela coisa impura que se apossara do corpo de Lucy. Vi que até o rosto de Arthur enrijecia, enquanto a contemplava.
– Isto é realmente o corpo de Lucy ou apenas um demônio que adquiriu sua forma? – Perguntou ele ao Professor.
– É e não é. Mas espere um pouco e verá como ela era...
O que estava ali deitado parecia uma versão maléfica de Lucy. Os dentes pontiagudos, a boca voluptuosa e manchada de sangue – uma visão que nos fazia estremecer –, toda aquela aparência carnal e materialista constituía um ultraje à doce pureza de Lucy. Metódico como sempre, Van Helsing começou a retirar vários objetos de sua maleta e deixou-os à mão. Primeiro, apanhou um soldador e um pouco de solda. Em seguida, um pequeno lampião que, quando aceso num dos cantos do jazigo, produziu uma chama azul e quente. Depois, apanhou dois bisturis. E, por fim, uma estaca redonda de madeira com uma espessura de sete a oito centímetros e cerca de um metro de comprimento. Uma das extremidades tinha ponta dura e aguçada. Junto com a estaca, retirou um pesado martelo, semelhante aos que são usados para quebrar carvão de consumo caseiro. Para mim, é sempre estimulante ver um médico preparar-se para um trabalho de qualquer espécie; mas Arthur e Quincey sentiam-se um tanto consternados com aquilo. Ambos, entretanto, conservaram a coragem e mantiveram-se calmos e em silêncio.
Quando tudo estava preparado, Van Helsing explicou:
– Antes de fazermos alguma coisa, preciso dizer-lhes isto, que é fruto do saber e experiência dos antigos e de todos aqueles que estudaram os poderes dos Não-Mortos. A maldição da imortalidade cai sobre todos que se transformam em um deles; não podem morrer e ficam condenados a prosseguir, através dos séculos, adicionando novas vítimas e multiplicando os males do mundo. Todos aqueles que morrem como presas de um Não-Morto tornam-se também Não-Mortos e, por sua vez, procuram novas vítimas. Assim, como as ondas que se formam ao atirarmos uma pedra na água, o círculo se estende cada vez mais. Amigo Arthur, se tivesse beijado a pobre Lucy antes de ela falecer ou na noite passada quando estava prestes a abraçá-la, depois de morrer também se transformaria num nosferatu... Nosferatu é como eles são chamados na Europa Oriental... e prosseguiria produzindo mais desses Não-Mortos, que nos enchem de horror. A carreira dessa desafortunada jovem está apenas começando. Aquelas crianças cujo sangue ela sugou anda não estão em estado grave. Mas, se Lucy continuar a viver como Não-Morta, suas vítimas, sob a influência de seus poderes, voltarão a encontrá-la e perderão cada vez mais sangue... E isso prosseguirá até que ela lhes seque totalmente as veias com sua boca maldita. Porém, se ela morrer de verdade, tudo cessará: os pequenos ferimentos nos pescoços das crianças desaparecerão; e elas voltarão a brincar, desconhecendo o que aconteceu. O mais importante de tudo é que, no momento em que esta Não-Morta morrer verdadeiramente, a alma da pobre moça que nós amamos ficará novamente livre. Em vez de praticar perversidades durante a noite e rebaixar-se cada vez mais, ela encontrará seu lugar com outros anjos. Portanto, será bendita a mão que desferir o golpe libertador. Ofereço-me para isso, mas não há entre nós alguém com mais direito? Digam-me: há entre nós esse alguém, que, no futuro, nas noites de insônia, pensará, com alegria: “Foi minha mão que a enviou às estrelas; foi a mão daquele que mais a amou; foi a mão daquele que ela mesma escolheria para fazer o serviço, se pudesse escolher”?
Todos nos voltamos para Arthur. Como nós, ele também sentiu a infinita bondade contida nessas palavras que sugeriam que deveria ser dele a mão encarregada de tornar a memória de Lucy novamente sagrada para nós. Deu um passo à frente e, embora sua mão tremesse e seu rosto estivesse tão branco quanto a neve, disse corajosamente:
– Meu verdadeiro amigo, agradeço-lhe do fundo do meu coração partido. Diga-me o que fazer, e eu farei!
Van Helsing colocou uma mão sobre seu ombro e falou:
– Bravo rapaz! Um minuto de coragem, e tudo estará consumado. Esta estaca deve atravessá-la. Pode estar certo de que será uma provação terrível, não se iluda a esse respeito... Durará, entretanto, muito pouco tempo; e, então, seu júbilo será maior que a dor. Sairá deste túmulo como se caminhasse nas nuvens. Mas peço-lhe que não hesite depois de haver começado. Pense apenas que nós, seus sinceros amigos, estamos todos ao seu redor, orando por você todo o tempo.
– Prossiga – falou Arthur, e sua voz soou rouca. – Diga-me o que devo fazer. – Segure esta estaca com a mão esquerda, pronto para enfiá-la no coração de Lucy. Com a mão direita, pegue este martelo. Então, quando iniciarmos uma oração aos mortos... Eu lerei a oração, e os outros me acompanharão... Depois que iniciarmos a oração, você deve desferir o golpe em nome de Deus, a fim de que a morta que amamos encontre a felicidade e a Não-Morta desapareça.
Arthur empunhou a estaca e o martelo; e, logo que sua mente se concentrou para desferir o golpe fatal, suas mãos não apresentaram o mínimo tremor. Van Helsing abriu o missal e começou a ler; Quincey e eu o acompanhamos da melhor forma possível. Arthur colocou a ponta da estaca sobre o alvo peito do cadáver e martelou com toda a força.
A coisa que estava no caixão contorceu-se, e um grito terrível saiu de seus lábios vermelhos. O corpo debateu-se em horríveis convulsões, os dentes rangeram até cortar os lábios, uma espuma avermelhada inundou-lhe a boca. Arthur, entretanto, não hesitou. Parecia Thor, o deus do trovão da mitologia escandinava, enquanto seu braço abaixava e levantava, afundando cada vez mais a estaca. O sangue que havia no peito da coisa jorrou em grande quantidade, espalhando-se dentro do esquife. O rosto de Arthur se mantinha firme. Aquilo nos animou, e nossas vozes ressoaram através do pequeno jazigo.
A seguir, as contorções do corpo diminuíram, os dentes deixaram de ranger, o rosto parou de tremer. Finalmente, tudo serenou. A terrificante tarefa terminara.
Arthur deixou o martelo cair e teria caído também, se não o amparássemos. Grandes gotas de suor inundaram-lhe a testa, sua respiração tornou-se ofegante. O que acabara de fazer exigira dele realmente um esforço sobre-humano. Durante alguns minutos, ficamos tão preocupados com ele que nem sequer olhamos para o caixão. Quando o fizemos, emitimos um murmúrio de surpresa. Nossa alegria foi tanta que Arthur, que havia se sentado no chão, levantou-se e veio ver também. Sua fisionomia expressou grande satisfação.
Ali, no caixão, não mais se encontrava a coisa impura que temíamos e principiáramos a odiar de tal modo que considerávamos um privilégio poder destruí-la. Ali, agora, estava Lucy. A Lucy que conhecêramos em vida... E seu rosto apresentava incomparável ternura e pureza. É verdade que havia também traços de dor e abatimento; mas estes nos eram caros, pois revelavam a honestidade de sua alma que tão bem conhecíamos. Todos sentíamos que a santa tranqüilidade que se espalhava como um raio de sol sobre seu rosto e corpo era uma dádiva divina e um símbolo da paz que reinaria para sempre.
Van Helsing aproximou-se de Arthur, colocou uma mão em seu ombro e perguntou:
– Arthur, meu amigo, responda-me: estou perdoado?
Arthur segurou as mãos do Professor e, após beijá-las, disse:
– Perdoá-lo?! Que Deus o abençoe por haver restituído a alma à minha amada e por haver me dado a paz.
Em seguida, colocou a mão sobre o ombro do Professor, deitou a cabeça em seu peito e chorou, enquanto permanecíamos em silêncio. Quando ergueu a cabeça, Van Helsing lhe falou:
– Agora, meu filho, pode beijá-la. Beije seus lábios mortos, se quiser. Ela não é mais um demônio malicioso.... Já não é mais uma Não-Morta pertencente ao diabo. Ela agora repousa na paz de Deus, e sua alma já está com Ele!
Arthur curvou-se e beijou-a. Então, nós o fizemos sair do jazigo em companhia de Quincey. Em seguida, Van Helsing e eu serramos a estaca, deixando a ponta enfiada no cadáver. Depois, decepamos a cabeça e enchemos a boca com flores de alho. Soldamos o caixão de chumbo, parafusamos a tampa e, reunindo nossos pertences, saímos. Após o Professor fechar a porta do jazigo, entregou a chave a Arthur.
Lá fora, o ar era agradável, o sol brilhava, os pássaros cantavam e toda a natureza parecia diferente. Havia alegria, felicidade e paz por todos os lados, pois estávamos em paz e, embora moderadamente, a alegria reinava em nós.