Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

FÉRIAS DE AMOR
Guido Aristarco



Entramos no cinema quando o filme Férias de Amor já havia começado. Entramos exatamente no momento em que Madge Owens (interpretada por Kim Novak) a protagonista, dizia: “Talvez eu esteja cansada de ser apenas olhada.” Diante dessa jovem cansada de ouvir repetir que era bela, lembramo-nos imediatamente das personagens interpretadas por Judy Holliday, sobretudo na Billie Dawn de Nascida Ontem (Born Yesterday, 1950). Pensamos que ela fizesse parte dessas mulheres muito mais numerosas do que o cinema hollywoodiano pretende admitir. Mulheres que não desenvolvem apenas uma função sexual ou são apenas um objeto decorativo, mas perceberam também que é preciso habituar-se a pensar, ao menos uma meia hora por dia. Depois, o interesse por Madge foi, pouco a pouco, apagando-se... até que restaram apenas o seu encanto e o seu sex appeal. Poderíamos dizer, como disse Lillian Ross acerca de Esther Williams na revista The New Yorker, que Kim Novak não é só bela mas também tem encanto, qualidade essa que pode ser vendida. A venda do encanto está, na verdade, na base de Férias de Amor. Encanto feminino e até masculino. Não se pode dizer que no decorrer da ação de um dia tão rico de acontecimentos para os Owens, a loira Madge, esse bombom cor-de-rosa que só estudou até o Segundo Grau, sofra uma evolução. Madge diz que está cansada de ouvir dizer que é bela, mas mostra um extremo cuidado com a sua beleza (basta lembrarmo-nos do vestido que põe para o piquenique); e, se recusa o noivo rico (homem que irá tirá-la da casinha pré-fabricada onde habita e levá-la para morar num palácio) para o qual a mãe a impele, isso acontece não tanto por “não se entender com aquela gente”, e sim pelo fato de ver em Hal Carter, que chegou inesperadamente àquela cidade do Kansas, o ideal de homem em que se reflete: belo, mas de pouca inteligência.
Hal Carter (interpretado por William Holden), como tantos personagens da literatura, do teatro e do cinema americano, tem “formigueiro nos pés” (recordemo-nos dos personagens de James M. Cain e tantos outros escritores). É um inquieto de origens confusas e presente incerto, preocupado, antes de tudo, em arrumar-se, em recuperar de qualquer maneira o tempo perdido. Mas não tem idéias claras, a não ser a de andar depressa e procurar não se cansar demais. E ele pede ao amigo, ao velho companheiro da universidade (Hal foi aceito na universidade porque sabia jogar rugby e foi chamado para trabalhar em Hollywood por causa de seu físico), que é o noivo de Madge, um lugar num escritório e uma secretária bonita. Não podemos dizer que Hal é um personagem simpático. Nem podemos dizer que é leal o seu comportamento para com o amigo. No entanto, ele é apresentado com simpatia, tornando-se quase um personagem positivo.
Tudo isso é muito sintomático. Hal, que denuncia a ideologia geral do filme, é a preponderância física, oferecendo-se como campeão, como ideal de homem em que não só Madge se vê a si própria, mas para o qual são atraídas também as outras mulheres da história: a irmã de Madge, a adolescente Millie, que não é bela mas ganhou uma bolsa de quatro anos na universidade; a professora solteirona. Millie e a professora representam, de certa maneira, uma classe cultural naquela cidadezinha do Meio-Oeste dos Estados Unidos. Até mesmo a vizinha, a sra. Helen Potts, que já tem cabelos brancos, e as moças presentes no piquenique ficam extasiadas diante de Hal, que, em determinada cena, fica apenas de calção de banho e mergulha na água. E é exatamente uma dessas moças que define Hal, dizendo: “É absolutamente a coisa mais decorativa que jamais vi.” Não decorativos como ele são os outros homens que vemos no filme: o noivo de Madge, o negociante maduro apaixonado pela professora.
Podemos dizer de Hal o que Bonicelli disse, com justiça, de Madge: que o seu verdadeiro drama é ser estúpido, duma forma tão penosa quanto consciente; é dar conta, da forma intuitiva e animal que lhe é própria, “de que a sua beleza não é um dom da natureza, é uma troça”. (...)
Férias de Amor introduz, antes de mais nada, no cinema americano, em nova medida, a preponderância  física (...).
Trata-se, repetimos, da venda do encanto masculino, além do feminino: e Kim Novak e William Holden têm o físico adequado aos seus papéis.
(...)
O sucesso que Férias de Amor obtém (eis outro exemplo a analisar no poliédrico, e não unilateral, problema das relações entre obras e público) é de procurar noutros pontos: por um lado, nos elementos de ordem fisiológica, como o encanto, o sex appeal (Novak e Holden); por outro lado, na construção narrativa do filme, de fato notável. Joshua Logan (...) conhece o ofício de diretor, tanto teatral como cinematográfico; vale-se também duma cultura literária: o seu modo de compor, por blocos, que não rompe a ação mas antes a enriquece, pode ser encontrada também nos textos de alguns dos melhores escritores.
Férias de Amor é um filme singular, insólito, no plano da técnica narrativa. Querer ver mais, neste filme, significa alterar as dimensões reais, quer do filme, quer do realizador.

 

Férias de Amor (Picnic, 1955, 115')
Direção: Joshua Logan
Roteiro: Daniel Taradash, baseando-se na peça Picnic, de William Inge
Direção de Fotografia: James Hong Howe
Elenco: William Holden (Hal Carter), Kim Novak (Madge Owens), Rosalind Russell (Rosemary), Betty Field (Flo Owens), Susan Strasberg (Millie Owens), Cliff Robertson (Alan Benson), Raymond Bailey (mr. Benson), Arthur O’Connell (Howard Bevans), Verna Felton (sra. Helen Potts), Nick Adams, Phyllis Newman, Elizabeth W. Wilson
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Columbia

 

Esta crítica foi transcrita do Programa 293 (de 12 de abril de 1959) do Cineclube do Porto