Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

EU SOU ASSIM
Kim Novak



Uma atriz de Cinema tem sua vida sempre repleta de problemas. O primeiro nasce no instante em que ela resolve se tornar atriz. Daí até atingir o estrelato, eles se multiplicam como coelhos. Os responsáveis diretos – e até mesmo os indiretos – pela produção de um filme sabem bem que existem dois tipos de atrizes: as que possuem talento dramático verdadeiro e as que têm talento físico (nem sempre verdadeiro). Saber qual das duas usar é uma arte, dizem os entendidos.
Uma das perguntas que mais tenho ouvido desde que meus filmes começaram a fazer boas bilheterias é: “Você se considera uma boa atriz, ou apenas uma mulher com um lindo palminho de rosto?”
Todos vocês sabem bem como é duro conseguir encontrar o sucesso. Durante toda a minha vida de artista de Cinema, tento sempre fazer o melhor. Dou o máximo de meus esforços para conseguir a interpretação mais sincera. Quanto ao fato de uma artista ser ou não ser boa (no sentido puramente de talento artístico), creio que a opinião depende exclusivamente do gosto de cada um.
Alguns críticos acreditam que a prova final na carreira de uma artista americana é trabalhar num filme europeu. Acham que só cola grau em Arte Dramática quem enfrenta uma banca examinadora formada por diretores como Rossellini, Ingmar Bergam, Louis Malle, René Clair, Fellini e outros.
Pessoalmente, admiro profundamente a obra desses grandes cineastas. Se gostaria de fazer um filme com alguns deles? O termo certo seria “adoraria”. Gostaria muito de fazer um filme fora dos Estados Unidos, já que até hoje não tive uma oportunidade assim.
Durante uma première, há alguns meses, uma famosa colunista perguntou-me:
– Kim, eu acho que você atingiu o ponto mais elevado de sua carreira artística, no filme Um Corpo Que Cai, de Alfred Hitchcock.
Sorri agradecida, mas ela voltou ao ataque:
– Você não acha que Hitchcock foi para você o que Elia Kazan significou para, por exemplo, James Dean?
Respondi-lhe na ocasião com um simples não. Agora, gostaria de dar minha opinião sincera a respeito de Alfred Hitchcock. Admiro-o profundamente. Mas ele não é o tipo de diretor que devota parte de seu tempo em ajudar ao ator. Nisso, ele não é mestre. Ele está sempre mais interessado nos problemas técnicos dos seus filmes.



O AMOR E EU

Existe tanta gente se preocupando com a possibilidade de eu acabar “ficando para titia”, que tenho até receio de entrar sincera e profundamente por este caminho lindo – mas misterioso – do amor. Nos meus tempos de menina pobre já escutava as mais velhas suspirarem, dizendo: “O coração é uma terra (terreno) onde ninguém pisa.”
Quando abro as cartas enviadas pelos fãs, já não mais me surpreendo ao ler, várias vezes por dia a pergunta clássica: “Por que você ainda não se casou?” E também: “Quem é o dono de seu coração, neste exato momento?”
Não pensem que vou gastar folhas e folhas de papel para explicar o que penso realmente a respeito de tudo isso. Pois gastar muita palavra explicando qualquer coisa significa não ter certeza do que se vai responder. Só lhes afirmo que:
1 – Até agora, ainda não me apaixonei uma única vez, a ponto de não poder viver sem a companhia de um homem.
2 – Quando esta necessidade se tornar realmente imperiosa, não tenham dúvida: subirei ao altar.
Talvez pelo fato de eu ser solteira, basta algum amigo sair comigo duas noites seguidas, para logo as colunas especializadas aventarem a possibilidade de um novo romance.



TUDO MENTIRA

Tenho muitos amigos que vivem de seus trabalhos no mundo do show-business. Admiro-os como “entertainers”. Gosto de vê-los transmitir suas emoções num palco. Sammy Davis Jr. é um desses amigos. Ele, com aquele seu gênio alegre, consegue facilmente fazer amizades. Eu sou uma de suas amigas. E os boatos começaram a fervilhar: muita gente passou a achar que éramos mais do que “apenas dois grandes amigos”, e o assunto se tornou bastante controvertido.



SÓ FAÇO AS COISAS CERTAS

Acho que é chegado o momento de falar a respeito do meu íntimo. Já aconteceu a vocês acordar um dia e achar que o melhor é desaparecer, sumir? Já aconteceu, por outro lado, iniciar o dia e querer fazer tudo de uma vez só, tendo vontade de abraçar o mundo como se ele fosse um travesseiro? Um dia assim leva você a uma profunda meditação, pouco antes de dormir. Você tem a sensação de estar em frente a um espelho. Espelho mágico que faz você enxergar lá dentro da alma. Se me perguntassem o que vejo então numa ocasião dessas, diria que sempre encontro uma menina. Eu sempre procuro melhorar, mas sou sincera comigo mesma, e só faço as coisas que considero certas. Por isso mesmo, aceito-me tal qual realmente sou.
Esse fato – o de fazer apenas o que considero certo – não permite que eu use uma falsa publicidade em torno de meu nome. Nada de “tentativa de suicídio”, fugas “para esquecer” e outras saídas que certos agentes de publicidade encontram para “vender” suas contratadas ao público.



MEU SONHO DOURADO

Não sei se estou me alongando demais; mas, se o leitor me permite, tenho de contar mais uma coisinha, fazer uma confissão em absoluta primeira mão.
Não é sobre amor, não vou dar o nome de um possível novo romance, nem anunciarei o abandono da carreira artística.
Revelarei apenas um sonho. Um sonho dourado. Que ainda não consegui tornar realidade. Seria a maior felicidade da minha vida escolher meu papel. Não iria procurar um antigo clássico russo, francês, ou inglês. Queria apenas interpretar um papel em que eu não precisasse ser atriz, no sentido usual da palavra. Seria um papel em que eu fosse apenas eu mesma. Um papel totalmente desprovido de sofisticação...

 

Este texto foi transcrito do número 228 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1ª quinzena de maio de 1962, pp. 4 e 61)

 

Uma pergunta: Será que, ao longo destes mais de cinqüenta anos, Kim Novak conseguiu tornar realidade seu “sonho dourado”? Se conseguiu, não sabemos.