Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

CUIDADO COM OS DON JUANS!
Kim Novak



Quando acompanhada de uma amiga, saí de Chicago para passar umas férias na Califórnia, assegurei à minha mãe que a minha intenção era apenas descansar ao sol californiano e que jamais me passaria pela cabeça tentar ser atriz de Cinema. Mamãe disse que acreditava, mas que, mesmo assim, não me fazia mal algum ouvir alguns conselhos.
– Há muitos Don Juans lá em Hollywood – disse ela. – Homens que prometem carreiras milionárias e mundos e fundos, mesmo sabendo que não podem cumprir essas promessas, que são feitas exclusivamente com más intenções. – Voltou-se para a minha avó e perguntou: – Não é verdade, mamãe?
Vovó confirmou. Falou que era verdade e que também tinha um conselho para me dar:
– Minha filha, a responsabilidade é da moça. A moça deve sempre comportar-se como uma dama. Do contrário, qualquer homem pode tornar-se um Don Juan.
Como vêem, parti para a Califórnia muito bem munida de conselhos. E foi ótimo, porque o Don Juan número um não tardou a aparecer: telefonou-me logo no segundo dia.
Eu estava tomando sol à beira da piscina do Beverly Hills Hotel, em Hollywood, quando um empregado veio me dizer que um certo mr. Hooper estava ao telefone. Como eu não conhecia ninguém na Califórnia – muito menos qualquer mr. Hooper –, vi logo que o homem só podia ser um Casanova. Mas deixei-me vencer pela curiosidade e resolvi ver o que ele queria.
O tal mr. Hooper apresentou-se como sendo pessoa muito relacionada na indústria cinematográfica.
– Eu a vi, por acaso, esta tarde, na beira da piscina; e a senhorita chamou-me a atenção – informou ele. – A senhorita é exatamente o tipo de jovem que os estúdios procuram.
Se não fossem os conselhos da mamãe e da vovó, talvez eu tivesse acreditado em tão belas palavras.
– Mas eu nunca representei na vida – disse-lhe eu.
– Ora, isso não tem importância! – Retrucou mr. Hooper.
– Não tem?!
– Não... Sabe que mais? Estou bem perto aí do hotel. Espere por mim, que já vou explicar-lhe tudo pessoalmente.
Nunca cheguei a ouvir a explicação de mr. Hooper, pois resolvi cortar a conversa, dizendo-lhe que não se incomodasse de vir ao hotel. Agradeci seu interesse e expliquei que não estava interessada em ser atriz.
O Don Juan número dois, conheci-o na piscina do Beverly Hills Hotel. Mas este novo Don Juan não se fez passar por membro da indústria cinematográfica. Nada disso! Ele podia ajudar-me porque, como repetia constantemente, conhecia “todas as pessoas verdadeiramente importantes em Hollywood”.
– Ótimo! – Falei-lhe. – E quem é que você conhece?
– Quem eu conheço? – Repetiu ele, meio sem jeito. – Escute, por que não vamos até a praia e, depois a um restaurante, jantar? Assim, eu terei tempo de indicar todas as pessoas importantes que conheço.
– Obrigada, mas não quero misturar vida social com assuntos profissionais – respondi.
– É, acho que tem razão! – O rapaz era bem esperto. – Esqueçamos as pessoas importantes e pensemos somente em nos divertir!
Eu dei qualquer desculpa, e as coisas ficaram por aí.
Já estou em Hollywood há quase dois anos e, durante esse tempo, conheci muitos Don Juans – não sei bem se oitenta e quatro ou oitenta e cinco, já que em Hollywood é difícil para qualquer moça manter um registro exato de tipo tão comum de homem. Embora as táticas sejam sempre as mesmas, devo confessar, que nesses últimos dois anos, os Don Juans fizeram algum progresso: agora, também fazem promessas no campo da TV!
Como eu já disse, mamãe e vovó tinham toda a razão. Os homens que prometem muito, em Hollywood, são precisamente os que não têm poder algum. A única coisa que têm são más intenções. Talvez vocês me achem demasiado precavida. Entretanto, não foram apenas os conselhos da mamãe e da vovó que me alertaram, e sim, mais do que tudo, as minhas próprias experiências.
Para começar, as primeiras experiências que tive com rapazes não foram nada encorajadoras: ou eles eram demasiado brutos, ou demasiado tímidos; ou combinavam sair comigo e “me davam o bolo”, ou, pior do que isso, nem reparavam em mim. Esta última atitude só fazia despertar o meu instinto de “caçadora”, e confesso que algumas vezes me deixei vencer por ele!
Quando eu tinha apenas onze anos, minha família mandou-me passar as férias num acampamento de crianças, perto de Chicago, onde imediatamente me apaixonei por um menino de doze anos, que tinha à sua disposição o coração de todas as meninas. Lembro-me de que consegui sentar ao lado dele diversas vezes, à hora das refeições. Lembro-me de que um dia o tal menino foi passear sozinho por uma estrada; eu tomei um atalho e fui recostar-me romanticamente contra uma árvore, à espera de que ele passasse. Recordo-me também de que telefonei para casa, pedindo à mamãe que me mandasse um maiô novo – mas não disse a razão de querer o tal maiô. E ainda me lembro de que, terminado o acampamento, tratei de descobrir onde o menino morava e procurei passar todos os dias em frente à sua casa. Porém, nunca consegui dele um único olhar!
Creiam-me que até hoje sinto no coração a marca deixada por esse meu primeiro amor infeliz! Foi preciso passar mais de um ano para que eu pudesse, finalmente, pensar em outros rapazes. Quando conheci o Bill, tinha quase treze anos e trabalhava como modelo juvenil de um grande magazine de Chicago. Bill não só me dirigiu o olhar, como também conversou e dançou comigo, durante um baile. Findo o baile, marcou encontro para sairmos no dia seguinte.
Acho que Bill é o responsável pelo meu hábito de chegar sempre atrasada a qualquer compromisso ou encontro. Naquele dia, eu esperei, esperei, esperei pacientemente por ele, horas a fio, inventando até desculpas para o atraso. E ele não apareceu! Até hoje, quando me lembro disso, fico furiosa...
Muitas pessoas devem pensar que eu chego sempre atrasada porque quero, porque desejo fazer-me importante aos olhos dos outros. Mas não. Mesmo esforçando-me para ser pontual, chego sempre tarde e acho que o motivo é psicológico: desde o dia em que Bill “me deu o bolo”, tenho verdadeiro horror a chegar antes dos outros e a ter de esperar.
No entanto, as minhas desventuras amorosas não pararam por aí. Aos quatorze anos, fui eleita “Rainha da Neve de Chicago”; e convidaram-me a fazer parte de um show numa base de treinamento da Marinha, em Fort Sheridan. Lá, um jovem marinheiro me convidou a sair com ele assim que tivesse uma licença.
O rapaz era bonitão e devia ter uns dezoito anos; e eu, entusiasmada, aceitei logo o convite. Quando ele telefonou, dizendo que estaria de licença no dia seguinte e que viria buscar-me em casa, comecei febrilmente a fazer planos. Resolvi pintar-me pela primeira vez e, também pela primeira vez, usar sapatos de salto alto. Minha irmã Arlene, que é três anos mais velha do que eu, concordou em emprestar-me seus sapatos; mas mamãe, assim que me viu com aqueles sapatos de salto alto, mandou-me tirá-los.
– Você ainda não sabe andar com sapatos de salto alto – disse ela. – Fica horrível, parece até que vai cair!
A seguir, ela disse não ao batom e mandou-me tirar o vestido sofisticado que uma amiga me emprestara (eu achava meus vestidos demasiado juvenis).
Gritei e fiz um berreiro, durante horas! E o meu simpático marinheiro não apareceu! Acho que ele me ouviu gritar e fugiu assustado. Que mais podia fazer o coitado? Eu, uma menina de quatorze anos, gritando histericamente como se fosse uma velha de sessenta!
Com essa terceira experiência, minha fé nos homens ficou muito abalada; e levei bastante tempo para reconquistá-la. Eis a razão de eu desconfiar tanto dos Don Juans, de Hollywood.
Também nunca esquecerei um fotógrafo que, a toda a força, queria que eu posasse para ele. Jurava que poderia transformar-me, do dia para a noite, numa estrela, desde que eu lhe permitisse conhecer-me melhor – dizia ele que era para compreender a minha personalidade. Depois, iria fotografar-me de jeito a que todos os produtores de filmes corressem para mim com ofertas de trabalho. Felizmente, eu soube, por intermédio de um amigo, que o tal fotógrafo e fazedor de estrelas nem podia tirar fotografias: tinha empenhado as lentes de sua máquina fotográfica! Imaginem como ele não iria rir de mim, se eu tivesse aceitado sua proposta...
Mas os Don Juans nem sempre são fanfarrões: há alguns que são humildes. Ainda outro dia, para desanimar um Don Juan que tentou puxar conversa no ponto do ônibus, eu lhe disse que lavava pratos num restaurante.
Pois bem, ele não ficou nada desanimado. Pelo contrário. Quis logo saber em que restaurante eu trabalhava e a que horas acabava o serviço.
Na hora, só me ocorreu o nome de um restaurante que costumo freqüentar e disse-lhe que só acabava o trabalho por volta das duas horas da madrugada. Por azar, naquela mesma noite – ou melhor, às primeiras horas da madrugada do dia seguinte –, depois de uma première de gala, um amigo meu resolveu levar-me ao tal restaurante, para tomarmos algo. Ele já estava procurando lugar para estacionar, quando tive de pedir que não parasse. Na esquina, esperando a hora de eu sair, estava o Don Juan do ponto de ônibus!
Pensando bem, talvez eu tenha cometido um erro quanto a esse rapaz. Se ele não se importa de esperar por uma moça que lava pratos, talvez seja um bom sujeito. Quem sabe?
Mas nenhuma moça deve preocupar-se por não sair com todos os rapazes que fica conhecendo. Sair com muitos rapazes, segundo minha avó, “não é, absolutamente, prova de popularidade; é apenas prova de que a moça tem muito pouca coisa dentro da cabeça”. Também, de acordo com minha sábia avó, “se uma moça não se sente bem sozinha, nenhum homem se sentirá muito tempo contente com ela”.

 

Este texto foi transcrito do número 68 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1ª quinzena de setembro de 1955, pp. 28-29 e 66)