Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

O NONO MANDAMENTO
(versão romanceada do filme)
por Rubens Francisco Lucchetti



Todos a chamavam Margaret, ele a tratava por Maggie. Desde o primeiro encontro, aconteceu algo de magnético entre os dois. Fosse o que fosse, não tiveram força suficiente para combater. Sentiram-se inexplicavelmente atraídos um pelo outro, não levando em conta a infelicidade do casamento dela ou a felicidade do casamento dele.
Conheceram-se, inocentemente, no supermercado, onde seus carrinhos se confundiram.
– Acho que está com meu carrinho – disse ele.
– Creio que estava sonhando – desculpou-se ela, ruborizando-se.
– A senhora é a mãe de Patrick, não? Vejo-a sempre no ponto do ônibus. Sou o pai do David.
Com isso, ela ficou sabendo que ele era Larry Coe.
Quando terminaram de transferir as compras, a mulher viu um livro no fundo do carrinho dele. Fitou-o com estranheza, ao reparar no título e no nome do autor – Alcançando as Estrelas, de Roger Altar –, e perguntou:
– Gostou desse livro?
– Ainda não comecei a lê-lo – respondeu Larry, encolhendo os ombros.
– Eu comecei; mas achei-o tão superficial, que nem tive o interesse de terminar.
– Roger ficará deliciado ao saber disso...
– Conhece-o?
– Estou construindo uma casa para ele.
– Ah, sim... Betty Anders esteve falando a seu respeito. Disse que é arquiteto e que ganhou um prêmio.
– Isto foi há algum tempo – informou Larry.
– Bem... Peço desculpas de haver confundido seu carrinho com o meu.
– Não tem importância.
De repente, Larry sentiu vontade de falar que gostara dela por causa da maneira como se ruborizava e da maneira como sorria. Quis dizer que eram essas coisas que a tornavam bonita e não suas feições de boneca ou seus cabelos dourados. Mas, como um idiota, o que disse foi:
– A senhora não é tão bonita.
Estranhamente, ela pareceu compreender o que ele queria dizer, porque o olhar que lhe lançou era de gratidão. Depois, a percepção dessa gratidão, deixou-a perturbada. Então, baixou os olhos e falou:
– Preciso ir.
Larry não voltou a pensar em Margaret até o momento em que sua esposa, Eve, separou as compras e encontrou um pacote a mais de flocos de milho.
– Houve uma troca no supermercado – explicou Larry. – Entre mim e uma loura sensacional – e piscou um olho. – A mãe de Patrick.
– Oh! – Fez Eve, aliviada. – O nome dela é Margaret Gault...



Na manhã seguinte, como sempre fazia, Larry acompanhou seu filho David até o ponto do ônibus escolar. Quando o ônibus partiu com as crianças e os pais começaram a dispersar-se, ele chamou:
– Maggie!
Surpreendida, ela virou a cabeça. Debruçando-se na janela do carro, ele disse:
– Ficamos com um pacote de flocos de milho que pertence a você.
Ela nada falou, e seu sorriso era um pouco triste.
– Comecei a ler o livro ontem mesmo – prosseguiu Larry. – Compreendi o que você quis dizer. Roger não encara o mundo muito de perto, não é isso? Bem, acho que o que precisa é de uma boa casa para morar. – Fez uma pausa e, em seguida, sob um impulso, acrescentou: – Vou inspecionar o terreno. Quer vir comigo?
Instantaneamente, ela disse que não. Depois, gaguejou:
– É isso que você sempre faz? Convidar uma desconhecida para...?
– Estou simplesmente convidando uma vizinha para ver o local onde será construída uma casa. Há algum mal nisso? – Retrucou Larry.
– Suponha que alguém nos veja...
– Nesse caso, acho que teríamos de confessar a verdade: que estávamos fugindo para o México.
Os dois riram. Maggie entrou no carro e sentou-se ao lado dele. E Larry sentiu-se capaz de jurar que, por uma fração de segundo, ela acreditara em suas palavras ou desejara que fossem verdadeiras.
Meia hora depois, contemplavam o panorama do alto do morro que Roger Altar comprara. Incrédula, Maggie quis saber:
– Se você construir uma casa aqui, ela não vai rolar até a rua lá embaixo?
Piscando um olho, Larry respondeu:
– São esses problemas que tornam a coisa interessante – e, tirando uma trena metálica do bolso, determinou: – Tome! Pegue essa ponta e leve-a até aquela pedra.
Maggie obedeceu. Sentia-se satisfeita em cumprir uma ordem. Em toda a sua vida de casada, Ken, seu marido, jamais lhe pedira qualquer tipo de ajuda.
Quanto a Larry, absorveu-se completamente no trabalho, tomando medidas, verificando anotações e cálculos no caderninho. Por muito tempo, ela permaneceu observando-o, fascinada e em silêncio. Quase podia ver uma casa tomando forma, crescendo, como uma coisa misteriosa, da terra úmida. Subitamente, falou:
– Alegro-me de ter vindo.
Larry fechou o caderninho e disse:
– Eu também...
Ele foi até onde Maggie estava e pegou-lhe a mão. Os dois começaram a descer o morro; e Larry sentiu que há muitos anos não era tomado por aquele sentimento de alegria.



Passou-se uma semana. E, durante esse tempo, Larry não tornou a ver Maggie. Ou melhor, nem sequer pensou nela. Nem viu Eve e as crianças, pois quase não saiu de seu estúdio. Passou os dias e grande parte das noites diante da prancheta, desenhando a planta da casa de Roger Altar. Construiu e destruiu a casa um milhão de vezes, na imaginação. E, quando finalmente, colocou no correio a planta final, sentiu-se aliviado e exultante. Mas ficou um pouco aborrecido, ao saber que Eve marcara um jantar para eles naquela noite. E o aborrecimento transformou-se em desgosto, quando soube que o jantar era com seu antigo patrão, Stanley Baxter.



– Será diferente de tudo o que você tem feito, Larry – propôs finalmente Stanley, após a segunda xícara de café. – Só que queremos um plano geral da fábrica e a planta de um dos edifícios.
– Estou trabalhando na construção de uma casa e não poderei viajar até o Havaí – replicou Larry.
– Mas é necessário que Larry vá até o Havaí, sr. Baxter? – Perguntou Eve, ansiosa. – Não há fotografias do local?
Larry lançou um olhar indignado para a esposa.
– Sempre gostei de ver os terrenos. Você bem sabe disso, Stanley – disse Larry.
– O terreno não será problema. Ele é plano... Bem, achamos que seu serviço vale uns três mil dólares. Que me diz, rapaz?
– Ele vale muito mais do que isso!
Eve ficou boquiaberta.
– O que Larry quer dizer, sr. Baxter é...
– O que quero dizer – atalhou Larry – é que estaria trabalhando simultaneamente em dois projetos e tentando dar o máximo em ambos. E não posso fazer isso por três mil dólares.
– Quanto você quer?
– Pelo menos, cinco mil.
Perplexa, Eve fitou o marido como se ele fosse um estranho.
– Não acha que está cobrando muito, querido?
Stanley Baxter deu de ombros e disse:
– Ofereço-lhe quatro mil.
– Não sei...
– Quatro mil e quinhentos – ofereceu Baxter, estendendo a mão. – Negócio fechado?
Ao fim de alguns segundos, Larry sorriu e assentiu com a cabeça.



– Você sabe que eu não estava interessado no serviço – reclamou Larry, quando se viu a sós com Eve no carro.
– Eu não sabia de coisa alguma! – Retrucou ela, irritada.
– Por que pensa que deixei Baxter e comecei a trabalhar por conta própria? Começava a sentir-me como uma máquina produzindo brinquedos em série. E, esta noite, você me obrigou a aceitar um projeto que não me entusiasma nem um pouco.
– Não o obriguei a coisa alguma!
– Você não tem a menor idéia do que estou tentando fazer, não é mesmo?
– Creio que não. Afinal de contas, não passo de uma dona-de-casa, uma empregada sua!
Larry apertou o volante com os dedos.
– Eve, pensa que me sinto satisfeito em ter ganho um prêmio em 1952, isto é, há oito anos, e em considerar que esse prêmio foi o ponto mais alto da minha carreira?
– Fala como se estivesse envergonhado de haver ganho o prêmio...
– Você não entende mesmo, Eve! – Exclamou Larry, desesperado. – Não sou mais criança! O tempo não pára. Preciso mudar! Do contrário, irei me fossilizar...
– E você pode me dizer como é que esse trabalho que o sr. Baxter lhe ofereceu pode fossilizá-lo?  Bem sabe que sou um pouco burra, mas...
– Não tenho tempo a perder, Eve! – Disse Larry, com voz trêmula. – Como arquiteto, preciso criar coisas. Do contrário, ficarei sufocado. Entende o que estou dizendo?
– Compreendo, querido. Mas o que virá depois da casa do Roger Altar? Devíamos até agradecer ao sr. Baxter pela sua oferta...
No escuro, Eve não viu o desespero que se apossou da fisionomia de Larry.



Na manhã seguinte, no ponto de ônibus escolar, Larry marcou um encontro com Margaret Gault. E, à noite, disse a Eve que tinha de falar com Roger. Não sabia que desculpa Margaret daria ao marido. Nem mesmo tinha certeza de que ela iria ao encontro. Mas Maggie foi.
Ela disse ao marido que ia à festa de uma amiga. Então, querendo evitar a todo custo o que ia acontecer, pediu-lhe que a levasse a um cinema. Porém, Ken estava muito ocupado. Ele beijou-a no rosto e falou:
– Divirta-se, querida. Se eu não estiver acordado, quando voltar, até amanhã...
Maggie permaneceu um longo tempo fitando o marido, antes de sair.



Larry havia terminado o primeiro drinque, quando viu Maggie entrar no bar.
– Pensei que não viesse – ele disse. – Teve alguma dificuldade?
– Não – respondeu Maggie, com certo constrangimento, sentando-se ao lado dele. Por favor, vamos para outro lugar – e olhou em volta. – Aqui está muito cheio.
– Sim... Mas estamos bem longe de casa...
Larry pediu mais bebidas; e ficaram em silêncio, durante algum tempo.
– Você não se sente culpado? – Perguntou Maggie, alisando a aliança. – Eu me sinto muito culpada.
– Quer ir embora?
– Não!
– Ótimo! Nesse caso, por que está olhando desconfiada para todos?
– Quero certificar-me de não haver nenhum conhecido. E, além do mais, estão olhando para nós.
– Estão olhando para você!
– Por que estão olhando para mim?
– Porque é muito bonita.
– Sou?!
Larry quase riu da inocência de Maggie. Depois, suspeitou que não fosse inocência.
– Você sabe que é – respondeu.
– Brindaremos a quê? – Quis saber ela, levantando o copo.
– A tudo – sugeriu Larry. – Viver, fazer coisas, sermos o que desejamos ser. É isso que todos querem.
– E você? Que quer?
– Quero amá-la... – Foi a resposta de Larry.



Maggie e Larry começaram a série habitual de encontros furtivos... no bar favorito, num hotel distante, em praias desertas. Certo dia, ela perguntou subitamente:
– Como é que você conheceu Eve?
Surpreso, Larry olhou-a atentamente, mas sua fisionomia era imperscrutável.
– Num baile...
– Simpatizou-se logo com ela?
– Ora, Maggie...
– Não gosta de falar sobre ela?
– Não é isso...
– Você a acha atraente, Larry?
– Qual será a próxima pergunta? Ela é melhor do que eu? Vamos, pergunte!
– Eu nunca perguntaria isso.
– Por que não?
– Tenho medo da resposta.
Larry fechou os olhos, sentindo um aperto no coração.
– Não precisa ter medo de nada, Maggie – a voz de Larry soou carinhosa.
– Por favor, não diga mais nada. E, agora, beije-me. Beije-me.



Nas semanas seguintes, a casa de Roger Altar começou a tomar forma. Audaciosamente, parecia desafiar até mesmo a força da gravidade. Havia algo de excitante e extraordinário nela. Poderia ser uma casa boa, poderia ser uma casa ruim; jamais, porém, seria uma casa comum. Isto porque era um homem chamado Larry Coe que a estava construindo.
O terceiro livro de Roger Altar, que deveria pagar a casa, começava a formar-se também. Consciente ou inconscientemente, ele era diferente dos outros livros escritos por Altar. Da mesma forma que a casa, era audacioso, desafiador, um verdadeiro jogo. E ele era assim principalmente por causa de Larry e da casa.
E o que começara entre Larry e Maggie crescia também. Crescia quase visivelmente, como a casa. E, como a casa, tinha vida própria.
Entretanto, uma casa, uma vez iniciada, mais cedo ou mais tarde tem de terminar. Mas o que se iniciara entre Maggie e Larry não parecia ter fim possível ou aceitável, nem mesmo depois que ele descobriu a verdade sobre Margaret Gault.
E a verdade veio à tona num dia em que os dois haviam se encontrado num bar chamado “Albatroz”. Maggie foi telefonar, e Larry notou que um homem a seguira até a cabina telefônica. Ao aproximar-se deles, ouviu o homem dizer:
– Quero falar com você, Margaret.
– Ela está comigo – disse Larry grosseiramente, puxando o homem para o lado.
Voltando-se, o estranho desferiu um murro que acertou o rosto de Larry. Instintivamente, este reagiu atirando o homem ao chão.
– Muito bem – disse o homem, respirando com dificuldade e olhando para Maggie. – Está tudo terminado! – Levantou-se e foi embora.
– Que queria ele? – Perguntou Larry, intrigado.
– O que todos querem – respondeu Maggie, caminhando para a saída.
Larry deixou o bar e seguiu-a até o estacionamento.
– Que quer dizer com isso? – Insistiu Larry. – Isso ocorre com freqüência?
– Freqüentemente.
– Como é que ele sabia seu nome?
Maggie nada respondeu.
– A verdade será assim tão terrível? – Perguntou Larry, em tom exigente.
– A verdade sempre termina em adeus – disse tristemente Maggie.
– Quero sabê-la!
Após alguns instantes de silêncio, ela falou:
– No último verão, Ken esteve ausente... Viajou a negócios... Patrick foi com ele.
E Maggie contou que, durante a ausência do marido e do filho, um motorista de caminhão sorrira para ela e pedira um copo d’água. Contou também que os dois começaram a conversar e, depois, beijaram-se ardorosamente.
Enquanto Larry ouvia, chocado e em silêncio, Maggie continuou sua história. Relatou que, naquela noite, trancara as portas da casa, tomara pílulas para dormir e, assim que se deitara, ouvira, semiconsciente, a porta da cozinha sendo aberta.
– Era um ladrão? – Quis saber Larry.
– Não... Era o caminhoneiro. Eu não queria... Mandei-o embora, mas...
– Por que tomou as pílulas?
– Queria dormir. Queria esquecer o que acontecera...
– E por que deixou a porta aberta?
– Eu não deixei. Juro que não deixei, Larry!
– Uma porta está trancada ou não está – sentenciou Larry. – Fale a verdade, Maggie! Você queria que ele entrasse na casa. Queria que a encontrasse na cama. Tomou as pílulas para facilitar as coisas para ele.
– Muito bem! – Gritou Maggie. – Deixei a porta aberta. Eu o queria. Eu gostei. É isso o que desejava ouvir? Está satisfeito, agora?
Larry esbofeteou-lhe o rosto, exclamando:
– Ordinária!
Após isso, Larry suplicou-lhe perdão. E foi como se a verdade jamais tivesse existido.



Na noite em que a casa de Roger Altar ficou pronta, Eve deu uma festa. Foi a melhor festa que deram desde a mudança para Brentwood. Eve convidou todo mundo que conhecia e metade das pessoas que não conhecia.
Stanley Baxter e a esposa apareceram para felicitar Larry pela planta da fábrica, que ele entregara uma semana antes. Felix e Betty Anders também compareceram, e Felix cuidou da churrasqueira. Compareceram igualmente os Ramseys, os Garandis, os Williams, os Mitchells. Eve não se esqueceu de ninguém, nem mesmo dos Gaults: Ken Gault e sua bela esposa, Margaret.
Larry estava preparando bebidas na cozinha, quando Stanley Baxter apareceu na porta, cheio de álcool e alegria.
– Você produziu exatamente a espécie de projeto que eu esperava de você – declarou.
– Alegro-me que tenha ficado satisfeito, Stan – disse Larry.
Ainda exultante, Baxter debruçou-se no balcão.
– Larry, surgiu uma coisa nova no nosso caminho...
Mas Larry abanou negativamente a cabeça.
– Não posso aceitar nada agora, Stan.
– Nem mesmo uma cidade? – Perguntou Baxter.  – Uma cidade, no Havaí, começando do nada. Casas residenciais, estradas, jardins, ruas, tudo. Que tal?
– O sonho de todo arquiteto – suspirou Larry.
– Queremos que você dirija o projeto para nós. Serão três anos de intenso planejamento... Talvez cinco... no Havaí, naturalmente.
– É muito tempo para estar longe – comentou Larry.
– Longe de quê? Pode levar Eve e as crianças com você. Essas coisas não acontecem todos os dias. Escute: não decida agora. Converse primeiro com Eve.
– Faça-me um favor – pediu Larry. – Não diga nada a Eve. Quero contar-lhe eu mesmo.
Afastou-se de Stan, como se fosse dar a notícia a Eve. Mas não procurou a esposa. Procurou Maggie e foi encontrá-la – sozinha – no estúdio.
– Por que está aqui, Maggie? – Perguntou Larry.
– Queria vê-lo – respondeu ela.
– Maggie... Maggie, quero abraçá-la, quero dizer...
– Não, Larry! Tenha cuidado! – Recomendou Maggie, dando um passo para trás.
Nesse instante, Felix Anders surgiu, como se viesse do nada.
– Olá – saudou ele, olhando atentamente o casal. Então, olhou para Maggie e disse: – Estava à sua procura. Ken quer ir embora.
– Obrigada, Felix – agradeceu Maggie. Em seguida, estendeu a mão para Larry e despediu-se: – Boa-noite.
– Boa-noite, Margaret.
Felix afastou-se para o lado, a fim de deixá-la passar; e comentou, enquanto ela saía:
– Muito bonita...
Depois que Maggie e o marido foram embora, Felix seguiu Larry de um lugar para o outro.
– Você e eu somos peças de mobiliário em nossas casas – dizia. – Mas se vamos ao vizinho... Ah! Tornamo-nos heróis. E eu sinto inveja de você... Sabia disso?
– Não, não sabia. Mas porque sente inveja de mim?
– Porque você trabalha em casa e sempre tem oportunidade de ir à casa do vizinho.
– Aí ao lado mora uma encantadora senhora de sessenta anos – falou Larry, aborrecido.
– Ora, vamos, amigão... Em todos os lugares em que há uma dona-de-casa, existe uma amante em potencial. E um sujeito como você deve atrair louras aos montes. Pode confessar para o velho Felix.
Larry nada disse, e Felix continuou:
– Agora, tome cuidado com uma coisa: é importante não permitir que elas deixem grampos com cabelos louros em seu carro. Lembre-se de que Eve tem cabelos escuros.
Larry cerrou os dentes.
– Acho que você errou o alvo, Felix. Sou um homem muito bem casado... e tenho dois filhos maravilhosos.
– Claro, claro... Sua loira também é bem casada e tem apenas um filho.
– Você está passando dos limites! – Avisou Larry. – Posso dar-lhe um murro na cara!
– É mesmo?! Depois, teria de explicar a Eve que estávamos discutindo sobre a sua loura. E Eve tem um faro muito apurado.  – Felix fez uma pausa e, em seguida, continuou: – Siga meu conselho, Larry: mostre-se carinhoso com Eve.
– Por que diz isso?
– Apenas siga meu conselho. Outra coisa: por que pensa que ela construiu este ninho?
– Responda você mesmo!
– Responderei: para atrair o marido, ou seja, você, à fidelidade. Bem, boa-noite. Foi uma festa ótima.
Felix saiu. E, quando a festa terminou e todos foram embora, Eve anunciou:
– Larry, meus pais vão passar o fim de semana em Palm Springs. Eu... Eu... acho que vou com eles...
– Sozinha?
– Vou levar os garotos. E, durante esses dois dias, quero meditar sobre certas coisas. – Esperou que ele dissesse algo. Por fim, perguntou: – Você se incomoda que eu vá?
– Não. Se você realmente quer ir...
– Mas você quer que eu vá?
Larry, em pé junto à pia do banheiro, ficou olhando a água correr.
– Quero descer pelo esgoto – murmurou, sem que Eve pudesse ouvi-lo. Depois, fechou os olhos encostou a testa no espelho frio e disse: – Faça o que quiser, Eve. Pode ir. Não me incomodo.



Quando Larry encontrou Maggie na rua, no dia seguinte, ela perguntou:
– Por que Eve viajou? Aconteceu alguma coisa?
– Não – mentiu Larry. – Desejava apenas repousar alguns dias.
Maggie franziu a testa e indagou:
– Você acha que ela poderia deixar você ausentar-se por alguns dias? Posso deixar Ken durante um fim de semana.
– Suponhamos que eu lhe pedisse para deixá-lo definitivamente...
– Não – respondeu ela prontamente. – Quero que as coisas continuem como estão.
Larry fitou-a por algum tempo e disse decidido:
– Nada fica como está. Tudo muda. Você mudou, eu mudei, a situação mudou. Preciso saber aonde isso vai chegar. É preciso haver mais para nós, ou então menos. Não pode ficar como está.
– Mas tem de ser assim, Larry. É a única maneira pela qual posso tê-lo. E preciso de você.
– De quem você precisa?! Do amante de fim de semana? Um sujeito amedrontado e confuso? Não quero ser isso, Maggie.
– As coisas têm de continuar como estão...
– Eu não quero isso! – Sentenciou Larry, afastando-se.



Na segunda-feira, quando voltou para casa, à tarde, Larry encontrou Eve na sala. A casa estava estranhamente silenciosa.
– Onde estão as crianças? – Ele perguntou.
– Foram visitar um amigo... Stanley Baxter ligou ainda há pouco...
– E o que ele queria?
– Por que não me contou, Larry? Por que não me falou sobre a proposta dele?
– Eu queria um tempo para pensar...
– Sempre pensei que analisávamos as coisas juntos, Larry!
– Pois estava errada.
– Você é que está errado!
– Não vamos discutir isso, agora.
– Por que não?
– Porque preciso ver Roger Altar. Falaremos depois, quando eu voltar.
– Não saia desta casa, Larry! Se o fizer, não precisa mais voltar.
– Vou sair e voltarei. Então, conversaremos.



O apartamento de solteiro de Roger Altar estava cheio de caixotes, embrulhos e pacotes.
– Olá, Larry, velho patife – trovejou o escritor, visivelmente embriagado. – Vamos entrando.
Larry rodeou os caixotes e viu vários jornais do dia. Eles estavam juntos a um livro novo e de capa brilhante.
– Você leu os comentários? Leu? – Roger sacudiu um monte de recortes, e Larry ficou furioso consigo mesmo por haver esquecido que dia era aquele. – Estou nas nuvens... Estou nas nuvens. Finalmente consegui! Finalmente escrevi uma obra madura que... – Calou-se subitamente. Depois, mais calmo, disse: – Pela primeira vez na vida, escrevi um livro sem dar a mínima importância ao que poderiam dizer dele, e os críticos acharam-no ótimo. Mas há um porém...
Larry folheou os recortes e, olhando surpreso para Roger, retrucou:
– Não há nenhum porém! Só escreveram críticas favoráveis ao seu livro!
– Não é ao livro que me refiro...
– Então...?
– Escrevi realmente um livro magnífico. E fiquei aqui sozinho, comemorando as críticas favoráveis a ele. Ouviu o que eu disse: comemorado SOZINHO! Eu o invejo, Larry. Você é casado, tem uma família. Sabe o que vou fazer? Vou sair à rua e apaixonar-me pela primeira mulher que encontrar.
– E depois...?!
– Irei direto para a minha casa, a casa que você construiu.
– E levará consigo a tal mulher.
– Claro! E ela cozinhará para mim e irá me amar, mesmo que eu não escreva outra porcaria de livro em todo o resto de minha vida.
– Devo entregar-lhe as chaves da casa amanhã.
– Perfeito... Quanto a você, Larry, não jogue fora nunca o que tem. – Roger Altar fez uma pausa, para prosseguir em tom solene:
– Encontramo-nos, como desconhecidos. E, na maioria das vezes, despedimo-nos assim. E, quando chegamos realmente a conhecer um ser humano, é um milagre. Tenha cuidado, rapaz.
– Eu terei – falou Larry, sorrindo.
Ao sair do apartamento de Roger Altar, Larry ficou pensando no que o escritor lhe falara. Lembrou-se, então, de que tinha de cuidar de muitas pessoas: em primeiro lugar, de Eve e os meninos, o robusto David e o vulnerável Peter; em segundo lugar, do pequeno e louro Patrick e sua mãe, a exuberante Maggie... E também havia o pai de Patrick, Ken Gault. Precisava cuidar de todos eles, mas não sabia como...



Quando Larry colocava o carro na garagem, viu a porta da frente aberta e percebeu Felix Anders atravessando o gramado do jardim. Intrigado, correu para dentro da casa. Eve estava na sala, chorando e segurando o robe por cima do corpo.
– Que aconteceu, Eve? – Perguntou Larry.
– Pergunte a seu amigo Felix – soluçou ela.
A princípio, ele não compreendeu. Depois, voltou-se e correu para o gramado, atrás de Felix. Alcançando-o no meio do quarteirão, agarrou-o pelo ombro, virou-o, e sem o largar, esmurrou-o no queixo.
Felix cambaleou. Larry deixou-o cair e afastou-se. A seguir, Felix levou a mão à boca e retirou-a. Seus dedos estavam sujos de sangue, e ele gritou:
– Quero que me diga apenas uma coisa, arquiteto: em que eu sou diferente de você?



Trêmulo, Larry entrou em casa. Eve estava no sofá.
– Alcançou-o? – Perguntou ela.
– Sim... Alcancei-o
– Gostaria de saber o que deu a Felix a idéia esquisita de que eu seria um alvo fácil. – Você sabe, Larry?
– Não. Não sei.
– Talvez a resposta seja simples – continuou Eve. – E explica também a razão de você não ter me falado a respeito da proposta que o sr. Baxter lhe fez.
– Eve...
– Larry, – cortou Eve, olhando-o de frente, – por que não me confessa que está apaixonado por outra mulher?
Como Larry não disse nada, ela acrescentou:
– Vá embora, Larry! Não quero olhar para você. Não o quero aqui. Quero esquecer que o conheci e que o amei. Vá embora! – Gritou, chorando. – Vá com ela para o Havaí ou para o inferno! Mas desapareça de minha vida!
Em seguida, Eve correu para o quarto e trancou a porta. O som de seus soluços seguiu Larry, que foi para o estúdio.
Horas depois, Eve abriu a porta do estúdio. Não entrou. Ficou na porta, parecendo pequena e perdida.
– Larry, sou eu? – Perguntou ela, tentando não chorar. – Eu o estou fazendo infeliz? Se sou eu...
– Por favor, Eve...
– Se sou eu, – prosseguiu Eve, – pode dizer. Quero que você seja feliz. Quero que tudo seja como antes, Larry... – Começou a chorar de novo e agarrou-se a ele. – Por favor, Larry, não me abandone... Não me abandone!
Larry desejou passar os braços em torno da esposa, a fim de fazê-la sentir-se segura, protegida. Mas não podia. Não podia confortá-la.



Na manhã seguinte, após uma longa noite de insônia, Larry fez, em companhia de Maggie, a última visita à casa que construíra para Roger Altar.
– Maggie, vou-me embora – anunciou ele.
– Para onde? – Indagou ela, sem compreender.
– Vou trabalhar no Havaí. Partirei dentro de duas semanas. Vou levar Eve e as crianças.
– Quando voltará? – Quis saber ela, atrevendo-se ainda a ter esperanças.
– Vai demorar muito. No mínimo, uns cinco anos.
Maggie virou-se. Não se atrevia a deixá-lo ver seu rosto.
– Eu não podia ficar aqui, Maggie. Não podia ficar perto de você. Não teria como resistir a seus encantos. Partir é a única solução. Porque não podemos matar pessoas que nem sequer podem ser feridas. Eve e eu estamos juntos há muito tempo. Não posso fingir que jamais a tenha amado. Ela é parte de mim. Não posso tirá-la de minha vida.
– Entendo...
– E é o mesmo com você e Ken...
Então, ali, no mesmo lugar onde tudo havia começado, tudo terminou. E Larry e Margaret, como quando se conheceram, partiram, como dois desconhecidos.

 

 

Titulo original: Strangers When We Meet
Ano de produção: 1960
Tempo de projeção: 117'
Direção e Produção: Richard Quine
Roteiro: Evan Hunter, baseando-se no romance (homônimo) de sua autoria
Elenco:
Kirk Douglas (Larry Coe)
Kim Novak (Margaret Gault)
Ernie Kovacs (Roger Altar)
Barbara Rush (Eve Coe)
Walter Matthau (Felix Anders)
Virginia Bruce (sra. Wagner)
Kent Smith (Stanley Baxter)
Helen Gallagher (Betty Anders)
John Bryant (Ken Gault)
Roberta Shore (Marcia)
Nancy Kovack (Marcia)
Paul Picerni (Arthur Gerandi)
Harry Jackson (Bud Ramsey)
Ray Ferrell (David Coe)
Douglas Holmes (Peter Coe)
Timmy Molina (Patrick Gault)
Distribuição: Columbia