Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

CHEGOU... VIU... VENCEU...
Louis Serrano



Conhecendo Hollywood como eu conheço, depois de aqui viver quase doze anos, posso afirmar que, “chegar, ver e vencer”, parodiando a famosa frase do imperador romano Júlio César, é coisa quase impossível na cidade do Cinema. Seria mais próprio dizer, e quantos e quantas não o murmuraram: “chegar, ver e... voltar!”
Mas a nova descoberta da Columbia, a loura Kim Novak, chegou, viu e venceu... Kim Novak, cujo verdadeiro nome é Marilyn, nasceu muito longe de Hollywood (para ser exato, em Chicago), no dia 13 de fevereiro de 1933, às 3 horas e 13 minutos. Por estar tão longe da Meca do Cinema, a garota sempre viveu sonhando com o instante em que talvez pudesse chegar a Hollywood e admirar pessoalmente tudo quanto via no cinema sobre a cidade dos seus sonhos... Com a irmã, ficava até altas horas da noite “sonhando” com aventuras em algum estúdio, quando fosse uma estrela da tela...
Seu pai costumava muitas vezes interromper esses sonhos com ordens severas de “ir para cama” e conselhos para que ela procurasse ser alguém e esquecesse aquela besteira de querer tornar-se ser atriz... É que a famosa estrela de hoje era então menina anêmica e magra, que sofria de terrível complexo de inferioridade...
– Talvez você não acredite, – foi contando Kim, – mas eu tinha medo de tudo e de todos... apesar de sonhar de olhos abertos em me tornar uma artista. Eu seria capaz de morrer de medo, se tivesse que pronunciar uma só frase em público... Minha mãe, Blanche Novak, transformou o meu físico e o meu íntimo à custa de muito leite e de muitos conselhos, que até hoje sigo. A prática do esporte de equitação, além da desenvoltura que me possibilitou, desenvolveu rapidamente o meu físico; e aos dez anos eu já podia enfrentar um pequeno público, cantando e tocando piano nas festinhas escolares.
– Quando teve você o seu primeiro contato com um palco, ou com uma “verdadeira” platéia? – Perguntei-lhe.
– Quando tinha onze anos, Serrano, no show Calling All Girls. Foi no mesmo ano em que venci um concurso de beleza, sendo apelidada “Miss Rhapsody in Blue”.
– Aposto que depois disso você não sofria mais de complexo de inferioridade...
– Bem... creio que não – disse Kim bem-humorada. – E fui trabalhar num bazar... depois fui ascensorista, enfermeira em consultório de dentista e... balconista durante o Natal.
– Como você se tornou modelo profissional, Kim?
– Por acaso, Serrano. Foram algumas amigas minhas que me falaram para tentar esta profissão, que diziam pagar mais do que a de balconista... Uma firma comercial contratou-me para aparecer em anúncios com os produtos que estavam vendendo... e foi assim que vim até Hollywood.
– E que aconteceu aqui?
– Gostei tanto da cidade que resolvi passar mais tempo do que aquele que era concedido aos modelos da firma em que eu trabalhava. Com mais uma amiga e sua mãe, aluguei um pequeno apartamento e comecei a conhecer a cidade passeando de bicicleta...
– De bicicleta?
– Sim; e, aliás, o ciclismo é o meu esporte favorito... faz com que as pernas fiquem sempre em forma...
Não pude deixar de olhar para as pernas da minha interlocutora e constatei que o exercício ciclístico realmente funcionava para manter belas pernas.
– Certo dia, – continuou Kim, – fui apresentada a Louis Shurr, um caçador de talentos... Então, tudo começou a ficar confuso pra mim, devido à velocidade com que os acontecimentos se desencadearam... e Maxwell Arnow, da Columbia, arranjou-me um teste num filme dirigido por Richard Quine... Até hoje sinto calafrios, ao lembrar o momento em que ouvi a voz do diretor gritar: “Ação”... Eu tremia como uma criança, mas o resultado foi um contrato...
– Qual foi a cena que você teve de representar?
– A de uma mulher que deseja apenas uma coisa da vida: amor. Mas o que me deu sorte, creio eu, foi o vestido preto apertado de Rita Hayworth, aquele usado por ela em Uma Viúva em Trinidad (Affair in Trinidad, l952)... Ao me ver no espelho, metida naquele vestido, tive a impressão de ser realmente “uma estrela de Cinema”...
E Kim ria feliz... Realmente deve estar muito feliz a nova descoberta da Columbia. Após o teste, que resultou emum completo sucesso, ela foi logo escolhida para ser a figura feminina principal em um filme com Fred MacMurray: A Morte Espera no 322.

 

Este texto foi transcrito do número 41 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 2ª quinzena de julho de 1954, pp. 35 e 61)