Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

KIM NOVAK NÃO É APENAS UMA BONECA SEM VIDA
Paul Wasserman



No camarim, a jovem derramava lágrimas sentidas. À porta, o guarda do estúdio mostrava-se inquieto e preocupado com os soluços que ouvia lá dentro, enquanto balançava desconsolado a cabeça embranquecida.
– Tive muita pena dela – contou-me o guarda, mais tarde. – Ficou chorando sozinha, durante umas três horas, e recusou-se a receber quem quer que fosse. Por fim, acalmou-se, enxugou as lágrimas e saiu para trabalhar.
Isso aconteceu num dia de trabalho da linda Kim Novak. O que lhe causara todas aquelas lágrimas, perturbando a produção de Strangers When We Meet, fora um desentendimento com o astro Kirk Douglas. Parece que Kirk tratou-a um pouco mal. Homem de forte personalidade, no auge de uma carreira de sucesso, ele gosta de impor sua vontade, dizendo aos diretores como dirigir e falando aos companheiros de trabalho como comportar-se numa cena.
Hollywood acredita no ditado que diz: “É proibido discutir com o sucesso.” O diretor Richard Quine pode achar que Kirk Douglas se exceda às vezes; porém, não tem coragem de dizer tal coisa a um homem cujo nome na porta de um cinema, hoje em dia, garante êxito de bilheteria. Kim, que jamais trabalhara com Kirk, viu-se, de repente, diante de alguém com um ego difícil de suportar. Evidentemente, ela não conseguiu tolerar tal coisa. E, então, vieram as lágrimas.
– Eu quero gostar dele – confessou-me ela, naquele mesmo dia. – Tenho de gostar dele. Kirk é um sucesso. Ele deve estar certo.
Por estranho que pareça, quando falamos de Kim Novak, os assuntos abordados são geralmente trivialidades, envolvendo quase sempre seu namorado do dia. A comunidade cinematográfica hollywoodiana e as pessoas que freqüentam os cinemas não têm levado a sério essa mulher de olhos grandes e rosto pálido. Todos a acham apenas “a mais encantadora boneca do mundo”. Ela sabe muito bem de tudo isso. A verdade, entretanto, é que provavelmente nenhuma outra atriz de Cinema tem desejado tanto dominar a arte de representar quanto essa “boneca sem vida”.
E a “boneca” está prestes a acordar, quase tão grotescamente quanto a dos Contos de Hoffmann. Aconteceu algo que abriu a porta que, antes, estava firmemente fechada, deixando-a entrar no santuário onde habitam os artistas.
– Ela é surpreendentemente boa – disse Richard Quine. E não devia estar falando isso apenas da boca para fora, pois Strangers When We Meet é o terceiro filme em que Kim trabalha sob suas ordens.
O próprio Kirk Douglas também está pronto a reconhecer que a srta. Novak está fazendo um excelente trabalho. No entanto, no entender de Kim não há milagre algum nisso. Acha que simplesmente se livrou de um complexo de inferioridade que poderia liquidar sua carreira.
– Eu começava a pensar que era burrinha e que não tinha talento para ser atriz – recordou Kim Novak. – Cheguei a tal ponto que tinha vergonha de pegar o script e ficar lendo-o antes da filmagem. Tinha medo de que isso revelasse o quanto eu me sentia insegura. Eu sempre precisei decorar minhas falas dia e noite, sem parar! E não via nenhum outro ator ou atriz fazer isso. Portanto, eu devia ser  muito burra... e eles muito inteligentes. Então, aconteceu... Foi quando viajei a Nova York, para participar, ao lado de Fredric March, da fita Crepúsculo de uma Paixão. No primeiro dia das filmagens, fui apresentada ao ator. Ele mostrou-se muito cortês e educado, mas percebi que seus pensamentos estavam longe. Ao fim de algum tempo, desculpou-se e retirou-se. Fiquei imaginando aonde teria ido. Fui para o meu camarim e, depois de ler e reler o script, saí para tomar um café e encontrei Fredric March novamente. Ele estava sentado, num canto do cenário. Tinha o roteiro sobre os joelhos e repetia suas falas em voz baixa. Fiquei abismada. Afastei-me na ponta dos pés e fiquei observando-o de longe. Continuava lendo o script e repetindo suas falas. Uma das garotas que participavam da produção aproximou-se de mim e comentou: “Está assim há mais de uma hora. É um homem impressionante, que leva o negócio a sério mesmo.”
Nesse dia, Kim Novak descobriu a verdade sobre a arte cinematográfica e a arte de representar. Tudo o que vira até então em Hollywood era tão-somente a parte errada. Fredric March lhe mostrou que fazer filmes e representar é trabalho, trabalho, trabalho constante e sem constrangimento ou acanhamento. É trabalho que requer também grande dose de concentração.
– Foi aí que – continuou Kim – eu falei para mim mesma: “Se um homem como Fredric March, um dos melhores atores que temos... Se um homem com sua idade e experiência não tem acanhamento de ler e reler suas falas, você não precisa se envergonhar de fazer o mesmo.” Eu sabia, agora, exatamente como deveria proceder.
O árduo trabalho a que Kim Novak se lançou depois de seu encontro com Fredric March deu excelentes resultados. Pela primeira vez em sua carreira, os críticos, comentando Crepúsculo de uma Paixão (Middle of the Night, 1959), impressionaram-se com o seu desempenho e mostraram-se surpresos, ao constatar que “a garota de olhar inexpressivo” tinha realmente algum talento escondido sob sua fisionomia de esfinge.
Crepúsculo de uma Paixão desenrola-se numa fábrica de confecções de Nova York. Seus protagonistas são Kim Novak e Fredric March. Ela é uma recepcionista introvertida; e ele, seu chefe, um viúvo cinqüentão. Ambos são solitários e pertencem a mundos diferentes; e, unidos pelos acaso, têm de enfrentar as hostilidades de uma sociedade cínica.
Strangers When We Meet, baseado no romance homônimo de Evan Hunter (ele também escreveu o roteiro do filme), trata da vida e dos amores dos subúrbios norte-americanos, seguindo mais ou menos a mesma linha de A Caldeira do Diabo (Peyton Place). Kirk Douglas é Larry, um jovem arquiteto. Apesar de ter uma boa esposa e filhos, ele inicia um relacionamento amoroso com uma mulher casada, Maggie, sua vizinha, interpretada por Kim Novak. O caso de Larry e Maggie é excitante no começo; depois, pouco a pouco, torna-se decepcionante, demonstrando o vazio de suas existências.
Kim reconhece que seu papel em Strangers When We Meet é o mais exigente e difícil de todos que interpretou até o presente momento, o que explica sua tensão e nervosismo, que resultaram em seu choro no camarim. Todavia, acha que seu desempenho será bom, principalmente devido à excelente direção de Richard Quine.
– Devo muito a ele – admitiu Kim. – Dirigiu-me em meu primeiro filme, A Morte Espero no 322... e sempre me estimulou muito. Tem jeito especial com artistas inexperientes, e estou certa de que virá a ser um dos mais famosos diretores cinematográficos .
A atriz sente também grande ternura pelo diretor Otto Preminger, com o qual fez O Homem do Braço de Ouro (The Man with the Golden Arm, 1955).
– Otto é um homem para quem qualquer atriz ou ator tem prazer de trabalhar. Agora que sou um pouco mais experiente, reconheço que devo muito a ele. Ajudou-me a aprender a projetar minhas emoções para a platéia.
Mas há um diretor para o qual ela diz que não gostaria de voltar a trabalhar: Joshua Logan, que a dirigiu em Férias de Amor (Picnic, 1955).
Férias de Amor é meu filme favorito – informou Kim. – Nele, desempenhei o papel de uma moça confusa do Meio-Oeste. Porém, Josh Logan não me ajudou em quase nada. Ele não é um diretor de atores. Estava sempre preocupado em verificar se as luzes estavam corretas... ou se o cenário estava em perfeitas condições. Assim, se interpretei bem a minha personagem é porque eu sou do Meio-Oeste.
Algo que deve ter contribuído para a atriz ter ficado ressentida com Joshua Logan foi o fato de o diretor ter sido obrigado a beliscá-la para que fizesse corretamente a famosa cena do choro no filme.
E, antes de nos despedirmos, Kim Novak anunciou entusiasticamente:
– Só existe uma coisa em que penso atualmente: representar bem nos filmes. Nisso está toda a minha vida, e é o que mais desejo no mundo.

 

Este texto foi transcrito do número 174 da revista Cinelândia  (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1ª quinzena de fevereiro de 1960, pp. 5 e 82)