Ano 4 - nº 13 - junho/setembro de 2012

ACONTECEU NUM APARTAMENTO
Ernesto de Assis



Não se pode classificar Aconteceu num Apartamento como obra genial; no entanto, possui qualidades relevantes, devido ao talento do diretor Richard Quine, um ex-ator.
A princípio se considera o filme um thriller, cuja ação se passa na Londres do fog, ambiente ideal para imbróglios criminais e sherlockianos; mas, depois, se tempera com um humor, senão negro, pelo menos com raízes no de Hitchcock, em razão de seu parentesco com O Terceiro Tiro (The Trouble with Harry, 1956). Um diplomata adido à embaixada americana, recém-chegado, procura ansiosamente um local onde possa morar decentemente. Por meio de um anúncio de jornal, descobre esse local, um apartamento, que pertence a uma mulher, não só bonita e jovem, mas sozinha e suspeita de haver matado o marido. A partir daí, a trama se tece em torno da simplicidade e ingenuidade do inquilino, metido em variadas peripécias imprevistas e pouco dignas para a sua carreira. Tudo para provar a inocência da senhoria – inocência essa em que o diplomata acredita desde que conheceu a mulher.
Jack Lemmon interpreta o diplomata; e Kim Novak, a senhoria. Fred Astaire é o chefe de gabinete da embaixada e tudo faz para encobrir as iniciativas pouco diplomáticas de seu subordinado. E Lionel Jeffries é um inspetor da Scotland Yard – ele persegue por toda parte o par inquilino-senhoria. Destacaram-se as atuações de duas veteranas atrizes: Estelle Winwood e Philippa Bevans.
O filme tem algo de Hitchcock, como já apontei, e de Billy Wilder (o mesmo sentido jocoso de Quanto Mais Quente Melhor/Some Like It Hot); e, se não possui um toque geral de ineditismo, marca em freqüentes passagens um estilo pessoal que torna Richard Quine notado pelos estudiosos de Cinema. Diretor de segundo plano, que despertou minha atenção a partir do saboroso musical Três Marujos em Paris (So This Is Paris, 1954), ele vem demonstrando seu talento, sabendo compor e ligar os vários ingredientes cinematográficos (...).
Mas, como todos os criadores, Richard Quine tem um pequenino senão: revela demasiada atenção e idolatria pelo seu modelo, personificado na loura atriz Kim Novak, uma jovem bonita e não muito talentosa (o gênero a que ela melhor se presta é a Comédia). E Aconteceu num Apartamento se salvou de cair no insosso e convencionalmente ilógico pelo não embevecimento total do diretor pelo personagem feminino principal, ao contrário do que aconteceu em O Nono Mandamento(Strangers When We Meet, 1960), no qual a câmara perscruta, ininterruptamente, o corpo e a face da intérprete (...).

 

Aconteceu num Apartamento (The Notorious Landlady, 1962, 123')
Direção: Richard Quine
Roteiro: Larry Gelbart & Blake Edwards, baseando-se na história “The Notorious Tenant”, de Margery Sharp
Elenco: Kim Novak, Jack Lemmon, Fred Astaire, Lionel Jeffries, Estelle Winwood, Philippa Bevans, Maxwell Reed, Henry Daniell, Richard Peel

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações, do número 55 da revista Celulóide (Rio Maior, Fernando Duarte Editor, julho de 1962, pp. 15-16)