Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

COMO O REI VIKRAM APRISIONOU UM VAMPIRO
Richard Francis Burton
(extraído de
Vikram e o Vampiro)
tradução e versão: Jaime Rodrigues, T. G. Novais & Marco Aurélio Lucchetti



A escuridão da noite era assustadora, as trevas tanto se adensavam que se tornou difícil caminhar. As nuvens abriram suas fontes, e chovia tanto que se diria que nunca mais choveria outra vez. Os relâmpagos iluminavam mais que a luz do dia, e o ribombar do trovão fazia a terra tremer. Maléficos clarões surgiam das extremidades das árvores negras e saltavam como vaga-lumes sobre o solo hostil. Lascivos duendes perseguiam os viajantes e atiravam-se ao chão à sua passagem, obstruindo-lhes o caminho de mil maneiras diferentes. Gigantescas serpentes, cujas bocas destilavam sangue e veneno negro, enroscavam-se em suas pernas no trecho mais acidentado da estrada, até que o grupo de viajantes se viu obrigado a se libertar do aperto com a ajuda da espada ou recitando uma fórmula mágica. Na verdade, havia tantos horrores e tal tumulto e barulho que mesmo um homem corajoso teria vacilado; entretanto, o rei prosseguiu.
Tendo, por fim, transposto de um modo ou de outro um caminho bastante difícil, o rajá chegou ao smashana ou crematório indicado pelo iogue. De repente avistou a árvore cujos ramos e folhas, da raiz à copa, ardiam em rubras labaredas. Decidido, avançou para ela. Nesse instante, ergueu-se um clamor; e vozes começaram a gritar:
– Matai-os! Matai-os! Agarrai-os! Agarrai-os! Não deixeis que fujam! Deixai que se reduzam a cinzas, que sofram as dores do patala (1).
Longe de se sentir terrificado com este estado de coisas, o valente rajá ficou ainda mais destemido, vendo uma perspectiva de fim para sua aventura. Aproximando-se da árvore, percebeu que o fogo não o queimava e sentou-se ali por um instante para observar o corpo que pendia, de cabeça para baixo, de um ramo um pouco acima de si.
Os olhos do estranho ser estavam arregalados, eram de um castanho esverdeado e nunca piscavam. Seus cabelos também eram castanhos (2), e castanho era seu rosto. Tinha o corpo magro e cheio de nervuras como um esqueleto ou um bambu; e, estando pendurado de um galho, como uma raposa voadora (3), pela ponta dos dedos, seus músculos contraídos ressaltavam como se fossem cordas de fibra de coco. Não parecia ter uma gota de sangue, ou o líquido escoara-se todo para a cabeça; e, ao tocar-lhe a pele, o rajá sentiu-a fria como o gelo e viscosa como a de uma serpente. O único sinal de vida era o furioso agitar de uma pequena cauda muito semelhante à de um bode.
A julgar por esses sinais, o bravo rei imediatamente deduziu que a criatura era um baital – um vampiro. E, agora, restava a tarefa de levá-lo a Shanta-Shil, o devoto.
Tomando da espada,o rajá intrepidamente subiu na árvore e, ordenando ao filho que saísse de baixo, agarrou a cabelo do vampiro com uma das mãos e com a outra desferiu um forte golpe de espada. O galho foi cortado, e a coisa caiu pesadamente no chão. Imediatamente, ela rangeu os dentes e começou a soltar um grito alto e queixoso como fazem as crianças quando se machucam. Vikram, ouvindo seus lamentos, ficou contente e pensou:
“Este demônio deve estar vivo.” Então, escorregando agilmente tronco abaixo, aprisionou a criatura e perguntou:
– Quem és tu?
Entretanto, mal haviam os lábios reais proferido essas palavras, o vampiro escapuliu-lhe por entre os dedos como um verme, ergueu-se no ar com as pernas para cima e, soltando uma gargalhada, pendurou-se pelos artelhos em outro ramo. E ali ficou, balançando de um lado para o outro, impulsionado pela violência de suas risadas de escárnio.
Durante um ou dois minutos, o rajá permaneceu boquiaberto, olhando para o alto e perguntando a si mesmo o que faria. Em seguida, ordenou ao filho que não perdesse um instante em pôr as mãos na coisa quando ela tornasse a bater no chão e trepou novamente na árvore. Depois, segurou uma vez mais o baital pelo cabelo e, com toda a força de seus braços – pois começava a ficar realmente furioso –, arrancou-o do ramo e atirou-o ao solo, dizendo:
– Ó desgraçado, dize-me quem és!
Como da vez anterior, o rajá deslizou habilmente tronco abaixo e apressou-se em auxiliar o filho, que, em obediência às suas ordens, agarrara o pescoço do vampiro. Mas, também como antes, o vampiro, rindo alto, escorregou-lhe por entre os dedos e voltou a pendurar-se na árvore.
Fracassar duas vezes era demais para o Rajá Vikram, que era destemido e um tanto violento. Então, mandou o filho golpear a cabeça do baital  com a espada. Em seguida, mais semelhante a um urso do Himalaia ferido do que a um príncipe que estabelecera uma era, subiu precipitadamente na árvore e desferiu furioso golpe de sabre às descarnadas pernas do vampiro. A violência da pancada fez com que os dedos deste soltassem o ramo. Quando o vampiro tocou o chão, a lâmina de Dharma Dhwaj caiu pesadamente sobre seu cabelo castanho-fosco. Mas pareceu ter batido em pau-ferro.
– Ó desgraçado, quem és? – Indagou novamente Vikram.
O baital, com grandes mostras de alegria e regozijo, voltou à sua antiga posição.
Cinco mortais vezes o Rajá Vikram repetiu essa infrutífera tarefa. Porém, longe de perder o ânimo, entrara no espírito da aventura. Na verdade, teria continuado a subir naquela árvore e a abater aquele corpo com a força de seu braço – descobriu que a espada de nada valia –, a fim de perguntar-lhe quem era, até o último dia da quarta e atual era (4), se assim fosse preciso.
Todavia, isso não foi necessário. Ao cair pela sétima vez, o baital, ao invés de se esquivar ao controle de seu captor, deixou-se dominar, simplesmente observando que “nem os deuses podem resistir a um homem extremamente obstinado”. E, vendo que o estranho, para melhor proteger sua presa, despira sua tanga e a transformava em um saco, o vampiro achou conveniente solicitar condições mais favoráveis para si próprio e perguntou a seu captor quem ele era e o que pretendia fazer.
– Patife ordinário! – Replicou o ofegante herói. – Conhecem-me como Vikram, O Grande. Sou o rajá de Ujjayani, e levo-te a um homem que se diverte batucando para os demônios em um crânio.
– Lembra-te do velho provérbio, poderoso Vikram! – Disse o baital, com um sorriso zombeteiro. – “Muitas línguas cortaram muitas gargantas.” Cedi a teu propósito e estou pronto a te acompanhar, amarrado às tuas costas como se fosse uma sacola de mendigo. Mas presta atenção às minhas palavras, enquanto percorremos o caminho. Sou de temperamento loquaz, e temos bem uma hora de marcha desta árvore até o lugar em que teu amigo está. Por isso, tentarei distrair meus pensamentos, contando-lhe narrativas alegres e fazendo comentários proveitosos. Os sábios e os homens de bom senso passam os dias nos prazeres da literatura profunda, ao passo que os parvos e os tolos desperdiçam seu tempo no sono e no ócio. Pretendo te fazer um certo número de perguntas, se te parecer conveniente este pacto: sempre que me responderes, seja compelido pelo Destino ou induzido pela minha astúcia, seja para satisfazer tua vaidade e presunção, deixo-te e volto a meu lugar e posição favoritos na acácia; no entanto, quando permaneceres calado, confuso e incapaz de replicar, por humildade ou confessando tua ignorância, impotência e falta de compreensão, então permitirei, por minha livre e espontânea vontade, que me leves à presença de teu mandante. Talvez eu não devesse falar isso. Pode parecer suborno, mas... aceita meu conselho e domina teu orgulho, tua soberba, tua arrogância e tua altivez o mais cedo possível. Assim, obterás um benefício que ninguém senão eu te pode proporcionar.
Ouvindo essas ríspidas palavras, tão estranhas a seus ouvidos reais, o Rajá Vikram estremeceu e alegrou-se de que seu herdeiro não estivesse por perto. Depois, pegou as pontas da tanga, amarrou-as de modo a que pudesse ser carregada, curvou-se, ergueu a carga com um safanão, jogou-a sobre o ombro e, pedindo ao filho que não ficasse para trás, rumou a passos vigorosos para o extremo oeste do cemitério.

 

NOTAS:

(1) A região ardente subterrânea.

(2) Os hindus só admiram os lustrosos cabelos negros; os “belos cabelos castanhos”, tão decantados em nossas baladas, são por eles atribuídos aos homens de casta inferior, às feiticeiras e aos demônios.

(3) Uma espécie de morcego grande. Nome popular anglo-indiano, aliás absurdo. Quase justifica o irado escocês que chama “prodigiosos finórios” àqueles que lhe contam que na Índia as raposas voavam.

(4) Os hindus, como os europeus clássicos e outros povos antigos, contam quatro eras: a Satya Yug, ou Idade de Ouro, com 1.728.000 anos; a Treta Yug, que abrange 1.296.000 anos; a Dwapar Yug, com 864.000 anos; e a atual, a Kali Yug, que data de 832.000 anos.