Jornal do Cinema - nº 5 - SINO DE NATAL
Ano 3 - nº 12 - janeiro/maio de 2012

UMA STRIP GIRL PROTAGONISTA DE UMA GIRL STRIP
Ronaldo Corrêa Haenel



É freqüente, principalmente nos países de língua latina, a confusão que se estabelece envolvendo as expressões inglesas girl strip e strip girl.
Segundo The Mirador Dictionary of the Portuguese and English Languages, o substantivo strip tem as seguintes acepções: “faixa”, “tira”, “fita”, “história em quadrinhos”, “pista”.
De acordo com o mesmo dicionário, o verbo intransitivo to strip é traduzido por “despir-se”, “desnudar-se”.
Assim sendo, girl strip designa histórias em quadrinhos que enfocam o universo das garotas, ou seja, o universo feminino.
Polly and Her Pals, Tillie the Toiler, Winnie Winkle, Dumb Dora, Etta Kett, Ella Cinders, Betty, Dixie Dugan, Fritzi Ritz, Long Sam, Mary Perkins on Stage, The Heart of Juliet Jones, Robin Malone, Apartment 3-G, Friday Foster e Tiffany Jones são alguns títulos significativos pertencentes a esse filão.
strip girl identifica a profissional que se despe artisticamente, sob fundo musical, para deleite das platéias dos teatros de vaudeville (1). Especializaram-se na arte do strip-tease (2) as strip girls ou strippers Gypsy Rose Lee, cuja vida virou livro, devidamente transportado para os palcos da Broadway e as telas cinematográficas; Lily St. Cyr (seu nome verdadeiro era Marie Van Schaak), que, aos 23 anos, já era conhecida como a “Rainha das Strippers); Ann Corio; Tempest Storm (na verdade, Anne Banks), celebrada como “o busto mais incrível da América”); Candy Barr; Dixie Evans, apresentada como a “Marilyn Monroe do burlesco”; e, entre inúmeras outras, a mais famosa strip-teaser do Sul dos Estados Unidos, Blaze Starr, que teve um caso amoroso com um político, o governador da Louisiana (3).
O Cinema também incursionou por esse tipo de divertimento. E Joanne Woodward, Ann-Margret, Jayne Mansfield, Ursula Andress, Natalie Wood (no filme Em Busca de um Sonho/Gypsy, a cinebiografia da acima citada Gypsy Rose Lee), Britt Ekland, Mamie Van Doren, Sophia Loren, Brigitte Bardot, Jane Fonda, Demi Moore, Diane Lane e Salma Hayek, entre outras exercitaram nas telas o desnudamento burlesco (4). Há, inclusive, um filme, Showgirls (idem, 1995), dirigido por Paul Verhoeven e estrelado por Elizabeth Berkley e Gina Gershon, que retrata o mundo das strippers. E merece também atenção a fita Strip-tease da Morte (Stripped to Kill, 1987), na qual uma policial de Los Angeles (interpretada por Kay Lenz) torna-se exotic dancer para investigar o assassinato de algumas strip-teasers.
Há, inclusive, na internet, um noticiário – para assisti-lo, a pessoa tem de fazer uma assinatura – em que belas e desinibidas apresentadoras (são oito no total) fazem strip-tease enquanto vão lendo no teleprompter as notícias do dia. Esse noticiário é o Naked News (5), assistido mensalmente por cerca de seis milhões de pessoas espalhadas em todo o mundo.



“O strip-tease é um dos meios empregados pela mulher para tomar o poder e reinar no universo.”
François de Aulnoyes




Entretanto, a diferenciação terminológica entre girl strip e strip girl torna-se de certa forma irrelevante, quando aparece sob os holofotes a figura de Jane, uma legítima strip girl e protagonista de uma girl strip girl strip essa que aqui no Brasil se intitulava Jane Pouca Roupa e que no original tinha o pomposo título de Jane’s Journal – Or the Diary of a Bright Young Thing (Diário de Jane – Ou o Dia-a-dia de uma Jovem Brilhante, numa tradução literal).
A sensual e loira Jane não nasceu sob o sol ardente dos trópicos ou mesmo na França, tão famosa por suas inclinações ao galanteio, à malícia, ao picante, e berço de uma das mais desinibidas personagens das histórias em quadrinhos, a também loira Barbarella (1962), uma criação do ilustrador e quadrinhista Jean-Claude Forest (1930-1998). Jane, na realidade, veio à luz em meio ao fog (6) da austera e cerimoniosa Inglaterra.
Foi seu pai o desenhista Norman Pett (1891-1960), que se inspirou, para criá-la, num fato acontecido com sua própria esposa.
Pett sempre dava um jeitinho, para gáudio dos leitores, de engendrar situações, a mais das vezes humorísticas, em que Jane ficava – no todo ou em parte – sem roupa.



A primeira daily strip (tira diária ou, no caso, despida diária) de Jane apareceu em 5 de dezembro de 1932, no jornal londrino Daily Mirror. E Norman Pett desenhou as tiras de Jane até 1948, quando passou o encargo para seu assistente, Michael (Mike) Hubbard (1902-1976).
Hubbard possuía traço elegante e elaborado, mas sem o mesmo viço e brejeirice inerentes a Pett; tanto é que, com o substituto, o humor das histórias foi substituído pelo romantismo. Assim, a série adquiriu características de soap opera (7).
Mike Hubbard desenhou as tiras de Jane até 10 de outubro de 1959, quando o “diário da jovem brilhante” chegou à sua página derradeira – no último quadrinho dessa tira, a heroína e seu amado Georgie-Porgie (8) estão numa canoa, cercados pela água e pela luz do crepúsculo.



Se os soldados norte-americanos em ação na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) tiveram a glamourosa Miss Lace, da tira Male Call (11 de outubro de 1942-3 de março de 1946), de Milton Caniff (1907-1988), como inspiradora pin-up girl (9), a atraente Jane Pouca Roupa foi escolhida pela soldadesca britânica como a insuperável e insubstituível – “the one and the only” (“a primeira e a única”) – pin-up.
Dúvidas não há de que Jane e Miss Lace levantaram o moral das tropas...
A desinibição e a vontade de Jane anteciparam em três décadas as sixties sexy girls das histórias em quadrinhos, como, por exemplo – apenas para citar uma –, Little Annie Fanny, publicada em full color na Playboy (em que outra revista poderia ser?) e criada por Harvey Kurtzman (1924-1993) e Will Elder (1921-2008).
Durante exatos dois anos e dois dias – de 28 de agosto de 1961 a 30 de agosto de 1963 –, houve uma retomada do mito Jane, por meio de sua filha, protagonista da tira Jane... Daughter of Jane, uma criação do quadrinhista Albert Mazure (1914-1974), que tinha o hábito de assinar seus trabalhos com as três primeiras letras de seu sobrenome, Maz.

 

NOTAS:

(1) Vaudeville: termo aplicado para “teatro de variedades”. Sua origem é francesa; e é provavelmente corruptela de Vau-de-Vire, vale francês que foi fonte de canções medievais no século 15, ou ainda de “Voix de Ville” (“Voz da Cidade”), em referência às antigas canções de rua dos trovadores.

(2) Strip-tease: desnudamento provocante e sensual. O essencial no strip-tease não é a nudez, e sim a maneira de desnudar-se ou, como falam popularmente, “o desfolhar da margarida”. A atração da strip-teaser (ou stripteuse, em Francês) nua está em tê-la visto anteriormente vestida.

(3) Esse caso está registrado no livro Blaze Starr – My Life as Told to Huey Perry, mais tarde transformado no filme Blaze, O Escândalo (Blaze, 1989; direção de Ron Shelton), no qual Lolita Davidovich interpretou o papel de Blaze e o veterano Paul Newman representou o governador.

(4) Burlesco (do italiano burlesco, do Francês burlesque): derivado de “burla”, “zombaria”, “escracho”. O teatro burlesco dos norte-americanos ficou conhecido no Brasil como “teatro de revista” ou “teatro rebolado”.

(5) Naked News (numa tradução literal: Notícias Nuas): o programa (ele é dividido em uma série de segmentos: “Entertainment”, “Sports”, “Life & Leisure”) que não tem nada a esconder não somente descobre os fatos, mas também despe as mulheres que noticiam, durante seis dias por semana (cada edição tem pouco mais de vinte minutos de duração), esses fatos. Estreou em dezembro de 1999 (de acordo com outra fonte, a estréia ocorreu em junho de 2000) e é produzido nos estúdios da Naked Broadcasting Network, em Toronto, no Canadá. No início, era apresentado integralmente pela simpática Victoria Sinclair. Depois, com o passar do tempo, outras apresentadoras (Katherine Curtis, Natasha Olenski, Rachel Simmons, Ariella Banks, Diane Foster, Lily Kwan, entre outras) foram acrescentadas ao programa; e Victoria Sinclair passou a apresentar apenas o noticiário geral.



(6) Fog: nevoeiro, bruma, cerração, neblina, névoa. Fenômeno climatológico comum e habitual nas Ilhas Britânicas.

(7) Soap opera (literalmente, “Ópera do sabão” ou “Ópera do sabonete”): tal denominação, um tanto irônica e depreciativa, refere-se às novelas radiofônicas estadunidenses produzidas nos anos 1930 e 1940. Destinadas basicamente às donas-de-casa, essas radionovelas tinham o patrocínio de fábricas de sabonetes ou de produtos de limpeza (daí a origem do termo soap opera); e suas histórias eram românticas, procurando retratar o american way of life.

(8) O nome do dono do coração de Jane chegou a ser substantivado pela juventude inglesa, servindo para designar afetuosamente os rapazes bem apessoados, de boa aparência.

(9) Pin-Up Girl: durante a Segunda Guerra Mundial, os soldados em campanha pregavam (pin-up) em seus alojamentos fotos ou gravuras de mulheres em poses lânguidas, insinuantes. Nessa época, as deusas do papel Miss Lace e Jane Pouca Roupa disputavam espaço nas barracas e nos corações dos soldados com Betty Grable (1916-1973), Rita Hayworth (1918-1987), Lana Turner (1921-1995) e outras atrizes hollywoodianas. Esse “exército” de beldades femininas ajudava a minorar a solidão e as saudades do lar sentidos pelos soldados mobilizados.

 

Já falecido, o comerciante Ronaldo Corrêa Haenel era um colecionador e grande conhecedor de histórias em quadrinhos