Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

TRÊS EM UM SOFÁ
Ely Azeredo



Jerry Lewis nunca foi muito feliz em suas transições. O Delicado Delinqüente (The Delicate Delinquent, 1957), que marcou sua estréia como produtor e deu início à sua carreira solo (livre de Dean Martin), é uma prova disso. Três em um Sofá, seu primeiro passo fora da Paramount, também. Esta fita apresenta alguns erros semelhantes aos de O Delicado Delinqüente: ritmo e caracterização procuram vínculos com o bom senso (um realismo relativo e extemporâneo, como se lhe fosse preciso garantir, com seguro de compreensão, a receptividade de seu grande público) e o sentimentalismo, dessa vez em surradíssima fórmula de comédia romântica. A concepção escoteira das relações entre os sexos gera o que talvez seja a primeira comédia de motivação sexual “livre para menores”. Um filme anômalo, porque bom-moço demais; uma decepção terrível para os apreciadores do genial aloprado. O roteiro, paupérrimo em imaginação, malbarata completamente o fenônemo colecionador, que poderia proporcionar a Jerry Lewis (produtor e diretor) a grande oportunidade de desenvolvimento do lado grotesco e monstruoso do comportamento humano, base de todo o sistema cômico do Jerry Lewis-ator e motor dos principais sucessos do Jerry-diretor (O Terror das Mulheres/The Ladies Man e O Professor Aloprado/The Nutty Professor). Lewis só acerta quando libera seus fantasmas, quando exorciza em fantásticas charges e violentos gestos de destruição as suas obsessões pessoais. Em Três em um Sofá, o patético meninão (...) está condenado ao bom senso e à luta contra a misoginia. Seu personagem vê as mulheres sobretudo como insólitos e multicoloridos brinquedos (...) e está constrangido pelas duas faces da operação-sofá: sedução e cura. As três pacientes da psicanalista Liz são interpretadas por três atrizes inexpressivas (Mary Ann Mobley, uma ex-Miss Estados Unidos, é a menos inexpressiva delas), mecânicas e embonecadas demais para um trânsito razoável no universo de Jerry Lewis (...). Em raros momentos, Jerry Lewis nos dá amostras de sua multiplicidade de recursos como ator. Como diretor, ele se mostra de uma apatia desconcertante (...).

 

Três em um Sofá (Three on a Couch, 1966, 109')
Direção e Produção: Jerry Lewis
Roteiro: Bob Ross & Samuel A. Taylor, baseando-se numa história de Arne Sultan e Marvin Worth
Elenco: Jerry Lewis, Janet Leigh, James Best, Mary Ann Mobley, Gila Golan, Leslie Parrish, Kathleen Freeman, Buddy Lester
Sinopse: O pintor Christopher Pride (Jerry Lewis)  ganha um prêmio: uma viagem a Paris. Ele decide, então, aproveitar a oportunidade para se casar e viajar para Paris em lua-de-mel. Mas sua noiva, Liz (Janet Leigh), uma psicanalista, tem, no momento, três pacientes que não pode abandonar: Susan (Mary Ann Mobley), Anna (Gila Golan) e Mary Lou (Leslie Parrish), três moças traumatizadas com os homens. Christopher se desespera e, procurando devolver às moças a confiança nos homens, assume três personalidades diferentes.

 

Este texto foi transcrito do número 2 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, fevereiro de 1967, pp. 6-7)