Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

SUSAN E O VAMPIRO
Frank Martin
tradução e versão: Marco Aurélio Lucchetti



Susan estava ansiosa para chegar ao “seu refúgio”. Desceu a ladeira quase correndo. Quando chegou lá embaixo, estava suada e ofegante. Seu refúgio! Era esse o nome que dava àquela parte do parque, onde podia permanecer horas e horas sem ser vista ou perturbada, pois as árvores e os arbustos a ocultavam dos casais de namorados que iam ali para trocar beijos e juras de amor.
Sempre considerou aquele recanto um perfeito esconderijo. Sempre que estava ali, sentia-se segura, inatingível!
Já fazia uma semana que seus colegas de escola mostravam-se mais atenciosos que de costume. E até o tenente Saunders a chamara de bonita.
Mas seria mesmo bonita? Gostava de pensar que sim, ainda que no fundo se sentisse a mesma Susan de sempre... tímida, insegura e com aquelas horríveis sardas no rosto. Achava que tinha apenas uma coisa realmente bonita: os cabelos. Eles eram vermelhos, muito vermelhos. Certa vez, lera que as bruxas, as verdadeiras bruxas, aquelas que dominam os segredos de feitiçarias antiqüíssimas, têm cabelos vermelhos.
Pensou, então, em John. Se ele a tivesse preferido... Mas não! Interessara-se por Polly, a maldita Polly! Polly era linda, extremamente linda. Polly tinha toda a beleza que ela queria ter. Maldita! Mil vezes maldita!
Seu pensamento voltou a concentrar-se em John. Como gostaria que ele a convidasse para sair, ir a um cinema, tomar um sorvete... Na verdade, ninguém nunca a convidara para nada. Ninguém nunca se interessara por ela. Até parecia que não existia.
Isso até uma semana atrás. Então, tudo se transformara. E fora uma transformação tão radical que essa era a primeira ocasião que tinha tempo de vir até o parque – até “seu refúgio” – e ficar a sós.
Fazia uma semana que não tinha um único momento para gozar a sua solidão. A razão disso? Bem, na última sexta-feira entrara em casa gritando que um vampiro a tinha atacado no velho casarão atrás da estação.
A mãe, o pai e, depois, a polícia, na figura do louro e másculo tenente Saunders, trataram-na com grande consideração, fazendo muitas perguntas.
Em seguida, o dr. Wilder fizera-lhe um exame minucioso. Um exame nada agradável para Susan. Pois, ainda que ela tivesse afirmado que o tal vampiro não lhe havia feito mal algum, o médico examinara-lhe todo o corpo, inclusive as partes íntimas.
Com exceção desse fato vexatório, tudo correra bem: o modo como fora interrogada pelo tenente, as entrevistas para os jornais e as fotografias tiradas para a edição de domingo do The Sun.
Na segunda-feira, as coisas ficaram ainda melhores. Todos os colegas, principalmente as garotas, entre as quais a convencida da Polly, mostraram-se mais cordiais. Tudo porque queriam conhecer os mínimos detalhes da aventura que ela vivera.
As famílias da vizinhança, os parentes, os conhecidos... todos, enfim, passaram a telefonar, pedindo maiores detalhes do ocorrido. E a srta. Stanford, a professora de Matemática, dispensara-a por toda a semana. Que alegria não precisar assistir às aulas chatas da srta. Stanford! O diretor da escola, extremamente cortês, mandara-lhe um buquê de rosas. Seus pais também trataram-na de um modo especial.
O tenente Saunders ia vê-la quase todas as noites, a fim de informá-la de que nada fora descoberto ainda. Nessas ocasiões, ele também falava que toda a polícia estava trabalhando no caso. Em seguida, fazia as mesmas perguntas tolas, enquanto ela se limitava a repetir as mesmas respostas.
Sim, Susan sentia-se importante. Sentia-se importante naquela cidade insignificante!
Na quarta-feira... Ela nunca mais esqueceria aquela quarta-feira, quando, acompanhada pela mãe, fora levada ao distrito policial, no centro da cidade, para identificar o criminoso.
Vira, então, um desfile de malfeitores de aspecto sinistro. Todos temendo que ela os apontasse como o provável criminoso. Alguns eram verdadeiros débeis mentais e bem podiam ser confundidos com qualquer tarado – ou vampiro – que procurasse lugares ermos para atacar mocinhas indefesas.
Diante daquele desfile de malfeitores, seria fácil, extremamente fácil apontar um deles! Todos tinham sido detidos, e nenhum deles apresentava o álibi salvador.
Sim, nada mais fácil. Seria a palavra dela contra a de um vagabundo. E tinha a polícia a seu favor.
Talvez conseguissem fazê-lo confessar que a havia atacado.
A seguir, o acusado seria conduzido ao tal casarão abandonado, até o local indicado por ela, ao redor do qual encontrariam a grama pisoteada. Depois, obrigariam-no a reconstituir todos os seus passos. Seria facílimo! Mas muito pouco inteligente.
Ela já afirmara que um vampiro a atacara. Um vampiro com seus caninos pontiagudos e os olhos injetados de sangue. Portanto, teria de manter esta versão, ainda que o tenente Saunders não acreditasse em vampiros.
Por outro lado, pensara no processo que certamente abririam. Ela teria de depor, e alguns advogados de defesa eram muito espertos... e Susan não queria correr riscos. Nada ganharia com isso.
Não identificando ninguém... manteria o suspense por mais algum tempo.
Assim, Susan mantivera a boca fechada. E a polícia dispensara os suspeitos.
Estava impaciente por saber o que diriam os jornais de quinta-feira. Estava certa de que lhe dedicariam grandes manchetes. O The Sun, de Londres, dedicara-lhe uma página da edição de domingo!
Entretanto, não podia imaginar que outros fatos pudessem fornecer material de interesse para o grande público. Como ela poderia imaginar que iria ocorrer um desastre ferroviário em que morreriam quase duzentas pessoas?
A notícia desse acidente ganhara a primeira página de todos os jornais. E a sua ida ao distrito policial não merecera nem mesmo uma linha...
Para cúmulo do azar, em um dos vagões do trem acidentado, viajavam dois alunos da escola. Eram Mark, que saíra ileso, e sua irmã Dorothy, que morrera no acidente.
A atenção de todos se voltara para Mark. Susan, por sua vez, fora esquecida.
De qualquer modo, o tenente Saunders prometera prosseguir as investigações. Talvez tivessem sorte da próxima vez, era o que ele dizia.
Por instantes, ela desligou-se de suas reflexões e contemplou-se nas águas cristalinas de um riacho que corria nos fundos do parque.
Ela nunca gostara de olhar a si mesma naquele espelho de águas mansas. Detestava seu rosto redondo, cheio de sardas. Mas, agora, não pensava em desviar o olhar de sua figura refletida na água.
Que havia mudado? Nada, em absoluto. Ela continuava a mesma garota sem graça de antes. Porém, queria ficar observando seu reflexo na superfície do riacho, enquanto pensava.
A investigação seria abandonada. Seus colegas de escola teriam a atenção desviada para outros assuntos. Seus pais esqueceriam por completo aquele caso do vampiro e voltariam a criticá-la... Seus pais só sabiam criticá-la...
Susan balançou a cabeça, com um olhar melancólico.
Um dos principais motivos... Ou melhor, o principal motivo que a induzira a inventar a história do vampiro fora o desejo de chamar a atenção de John, a fim de que ele a notasse e a convidasse para sair. Queria que ele esquecesse a maldita Polly. Mas John continuava não a notando.
Só faltavam três semanas para o baile de formatura; e Susan ouvira Polly comentar com uma colega sobre o seu vestido novo.
Polly era alta. Tinha o corpo escultural, cabelos sedosos e uma pele alva e fina. Sua pele era alva e fina principalmente nos ombros e no pescoço... Por que pensava tanto nos ombros e no pescoço de Polly?
Foi nesse instante que se lembrou da história que inventara a respeito do vampiro que a atacara. E se ela...?! Não, era monstruoso demais!
Tentou expulsar da mente a idéia maluca que acabara de ter; entretanto, sua imaginação era mais forte do que ela. Quando fechava os olhos, parecia ver todos os detalhes da cena criada por sua mente...



Susan teve de esperar uma semana inteira, até que, por fim, algo ocorreu, abalando toda a cidade novamente.
Como calculara, foi chamada para falar com o tenente Saunders, no distrito policial.
Ela sabia que esse seria o momento mais difícil, e a única coisa a fazer seria chorar na hora certa. Em tais circunstâncias, o pranto é encarado como uma reação perfeitamente normal.
E o tenente Saunders não faria muitas perguntas, se ela chorasse e ficasse histérica.
Desse modo, só foi preciso negar que vira Polly após a saída da escola. Acrescentou ainda que não sabia onde Polly pensava ir na sexta-feira à noite e que nunca a vira na companhia de estranhos. Além disso, repetiu o que sua mãe lhe recomendara: na sexta-feira à noite, na hora em que o crime fora cometido, ela se achava em seu quarto, estudando.
O tenente Saunders dispensou-a logo. Qualquer um poderia notar o quanto ele também estava nervoso. Mas, antes que Susan saísse do distrito, ele falou:
– Quero pedir-lhe desculpas, Susan.
Pedir-me desculpas? Por quê?
– Por haver duvidado de você. Serei sincero: já começava a duvidar da veracidade de sua história.
– Entendo...
– Bem, deve compreender que aquela história de vampiro era um tanto fantástica...
– Achou que era tudo invenção minha, não é mesmo?
– Não é bem assim. Mas seguimos tantas pistas falsas, e sua declaração era tão vaga... Pensei que estivesse exagerando um pouco. Já tivemos alguns casos de jovenzinhas que falaram ter sido molestadas por desocupados. Porém, às vezes, o que ocorreu de verdade foi o seguinte: algum rapaz tentou conquistar a jovem; ela perdeu a cabeça e promoveu o maior escândalo, transformando o incidente numa verdadeira tragédia.
– Eu não exagerei nada... nem inventei coisa alguma!
– Mas não é comum um malfeitor qualquer disfarçar-se de vampiro.
– Não era nenhum disfarce! Polly estava com o pescoço perfurado. Não viram os dois orifícios?
– Nego-me a acreditar em vampiros, muito embora o crime apresente todas as características de ter sido cometido por um desses malditos seres criados pela imaginação de escritores que gostam de aterrorizar as pessoas.
– Eu fui atacada por um vampiro!
– Pode ser... pode ser... Lembra-se do dia em que veio aqui para a identificação do criminoso?
– Claro! – E Susan fez um ar tristonho.
– Naquele dia, reunimos vários tipos bastante perigosos. Nenhum foi apontado por você como o criminoso; mas eram todos assassinos em potencial, de acordo com seus antecedentes criminais. Nem sei a razão de não estarem presos ou confinados num manicômio. E sabemos, por experiência, que, às vezes, um assassinato como o de Polly excita sujeitos assim para a prática do crime.
– Compreendo.
– Espero que os jornais não façam um circo em torno desse homicídio. De qualquer modo, Susan, quero que me prometa uma coisa: fale com os jornalistas somente o necessário e não diga nada a respeito de vampiros. Combinado?
– Combinado!
– Boa garota. Assim é que se fala.
– Tenente Saunders... o senhor tem idéia de quem pode ser o assassino?
– Qualquer um, menos um vampiro. Agora, pode ir para casa. Continuarei em contato com você; e, em breve, desvendaremos este caso.
Isso ocorreu no sábado. Até terça-feira, Susan não conseguiu livrar-se do assédio de admiradores, curiosos e jornalistas.
O natural seria que dedicassem mais atenção a Polly. Mas Polly estava morta, e ela estava viva. Aí se encontrava a grande diferença! Até o próprio John acabaria percebendo isso.
Sim, John teria de notar que ela existia. Naturalmente, tudo era uma questão de tempo.
No momento, o que mais desejava era ficar sozinha. Mas nem mesmo em seu quarto os pais a deixavam sossegada. Assim, na tarde de terça-feira, ao deixar o colégio, foi até “seu refúgio”. Queria ficar sozinha e pensar. Ao chegar àquele recanto do parque, estirou-se na relva e recapitulou seus últimos passos. Precisava ter a certeza de que não cometera o menor deslize.
Primeiro, o telefonema para Polly. Susan soubera que a colega estaria sozinha em casa, pois os pais tinham ido ao enterro de um parente numa cidade próxima.
Uma chamada telefônica de uma cabina pública não poderia ser localizada, e ninguém a tinha visto telefonando. Outra boa idéia fora dizer a seus pais que iria trancar-se no quarto para estudar. Sabia que, dizendo isso, eles não iriam incomodá-la. O resto fora fácil. Pulara a janela do quarto, sem ser vista.
Agora... Bem, agora, nada iriam fazer contra ela, pois nada fora descoberto.
Não sabia dizer como suas mãos se fecharam em torno do fino e alvo pescoço de Polly, quando as duas entraram num beco. Apenas sabia que Polly não soltara um gemido. Lembrava-se também de que, após estrangulá-la, apanhara uma agulha grossa que levava no bolso da calça comprida e fizera-lhe as marcas de vampiro no pescoço.
Polly transformara-se em segundos num corpo sem vida, e John não poderia desejá-la nunca mais. Susan se regozijava com sua obra. E, por alguns segundos, algo deixou-a perplexa: o fato de não sentir remorso pelo crime cometido.
Não estava arrependida ou assustada. Talvez estivesse orgulhosa de sua própria força. Estaria, por acaso, mudada? Sentiu vontade de contemplar-se nas águas do riacho. Talvez a sua imagem lhe dissesse algo de novo.
Levantou-se. A luz do entardecer a fez piscar. Escurecia rapidamente, e as sombras agigantavam-se ao seu redor. Olhou-se nas águas do riacho. Seu rosto era o mesmo de sempre: sem graça, cheio de sardas...
Susan sorriu, virando-se. Mas logo estremeceu, assustada, ao ver um homem a poucos metros de distância. Assustou-se ainda mais, quando reparou nos olhos do homem... eles estavam injetados de sangue. Ela sentia-se atraída, hipnotizada, por aqueles olhos. O homem abriu a boca, mostrando dois caninos pontiagudos.
Susan teve tempo de compreender que estava diante de um vampiro, um autêntico nosferatu recém-saído de uma tumba. Viu-o aproximar-se. Não teve, porém, tempo de gritar. Os braços fortes daquela criatura demoníaca a envolveram rapidamente, e os caninos cravaram-se em seu pescoço.
Susan sentiu uma dor muito forte e quase perdeu os sentidos. Depois, as forças a abandonaram. Seu sangue jovem e quente foi deixando seu corpo lentamente. O vampiro tinha fome, muita fome...