Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

THE SPIRIT - PARTE 2
Marco Aurélio Lucchetti



Ainda que seja o personagem que dá nome à série, nem sempre The Spirit é a figura central das histórias. Em incontáveis ocasiões, ele serve tão somente de fio condutor das histórias, a fim de que se tornem públicos os inúmeros dramas que ocorrem em Central City. Dramas esses vividos por pessoas comuns, figuras quase anônimas, como o desafortunado Gerhard Shnobble, que possui o dom de voar. Infelizmente, quando Gerhard resolve mostrar ao mundo que pode voar, saltando do terraço de um edifício, no centro da cidade, é atingido por uma bala destinada a The Spirit, durante uma luta entre o herói e alguns malfeitores. Então, Gerhard encontra a morte, estatelando-se no chão, sem que uma só pessoa, dentre a multidão que vê seu corpo despencar, saiba ou suspeite que ele havia voado (ver “A História de Gerhard Shnobble”, episódio publicado em 5 de setembro de 1948).
Mas as histórias de The Spirit não contam apenas os dramas de pessoas como Gerhard Shnobble. Narram também, e principalmente, os dramas vividos pelos criminosos – assassinos, ladrões, escroques e malandros – de Central City.



OS CRIMINOSOS DE THE SPIRIT

Os criminosos têm um papel importante em The Spirit. Na verdade, eles são uma das principais atrações da série. Todavia, é necessário ressaltar que quase não há a presença de supercriminosos nas histórias – dentre os poucos que merecem essa classificação, podem ser citados: o Dr. Cobra; Octopus, o maior criminoso que o mundo já viu (onde quer que haja um crime, em qualquer lugar onde o mercado negro empobreça uns e enriqueça outros, lá estará a mão do “Rei do Crime”, a mão de Octopus) e cujo rosto ninguém jamais viu; e Mister Carrion, que tem como mascote um abutre chamado Julia. Na maioria das vezes, o criminoso é o homem comum, capaz de assassinar a esposa e o cunhado, que são malfeitores, só para provar que possui coragem e não é um idiota (ver “O Assassino”, episódio publicado em 8 de dezembro de 1946). Em várias ocasiões, ele chega, inclusive, a despertar a piedade e a simpatia dos leitores, já que é uma vítima do Sistema: nasceu num bairro miserável, no meio de um lar infeliz; recebeu somente o desprezo da mãe dominadora; e cresceu num ambiente hostil e violento (ver “Lonesome Cool”, episódio publicado em 18 de dezembro de 1949). E, às vezes, por ser um sujeito marcado pela fatalidade, termina morrendo no final da história (ver, por exemplo: “A Voz Interior”, episódio publicado em 11 de agosto de 1946; “Crime Perfeito”, episódio publicado em 5 de janeiro de 1947; “Doppleganger”, episódio publicado em 19 de outubro de 1947; “A Última Cartada”, episódio publicado em 16 de maio de 1948; e “Dez Minutos”, episódio publicado em 11 de setembro de 1949).



AS MULHERES DE THE SPIRIT

Assim como os criminosos, as personagens femininas desempenham um papel fundamental em The Spirit, sendo o leitmotiv ou as figuras centrais de diversas histórias (ver, por exemplo: “O Caso da Marca de Batom”, episódio publicado em 7 de abril de 1946; “Olga Alvoroço”, episódio publicado em 1º de setembro de 1946; “Primeiro de Abril”, episódio publicado em 30 de março de 1947; “A Fortuna”, episódio publicado em 11 de maio de 1947; “Cinderella”, episódio publicado em 5 de outubro de 1947; e “O Estranho Caso da Sra. Paraffin”, episódio publicado em 7 de março de 1948).
Em sua maior parte, essas personagens são mulheres provocantes e charmosas. Possuem, quase sempre: sobrancelhas exóticas; olhos enormes, profundos e desafiadores; lábios polpudos, sensuais e pintados de cores vivas; mãos de dedos longos; seios grandes; cintura fina e quadris mais ou menos largos. Têm nomes como Autumn Mews, Castanet, Dulcet Tone, Flaxen Weaver, Lilly Lotus, Nylon Rose, Olga Bustle (Olga Alvoroço, no Brasil), P’Gell, Plaster de Paris, Rice Wilder, Sand Saref, Silken Flose, Silk Satin, Skinny Bones, Sparrow Fallon, Sylvie Vault e Thorne Strand. E, segundo suas características, podem ser classificadas em três tipos:
1 – as mocinhas – exemplificado por Ellen Dolan, Nylon Rose e a Dra. Silken Floss, esse grupo é o das mulheres que agem dentro da Lei. Entretanto, ao contrário do que ocorre em outras histórias em quadrinhos, essas mocinhas não são ingênuas, nem idiotas, e podem se livrar do perigo sem o auxilio do herói, ou seja, The Spirit;
2 – as aventureiras – exemplificado por Lilly Lótus, Plaster de Paris e Rice Wilder, esse grupo é o das mulheres, muitas das quais bem-nascidas, que, buscando aventura e uma fuga de suas vidas convencionais, se envolvem sentimentalmente com criminosos e se tornam delinqüentes. No final, quase sempre são assassinadas pelo amado;
3 – as damas fatais – exemplificado por Castanet, Dulcet Tone, Flaxen Weaver, P’Gell, Sand Saref, Skinny Bones e Sylvie Vault, esse grupo é o das representantes, em The Spirit, das femmes fatales do Hard-Boiled e do Filme Noir. São mulheres que, quando ameaçadas, não hesitam em trair e matar. Por outro lado, apesar de uma extensa lista de crimes cometidos, quase nunca são presas. Algumas poucas, como Flaxen Weaver, morrem tragicamente.

A exemplo de Skinny Bones, cujas feições são semelhantes às de Lauren Bacall, várias personagens femininas de The Spirit tiveram seus rostos inspirados nos de algumas atrizes – Audrey Totter, Ava Gardner (1922-1990), Claire Trevor (1910-2000), Joan Bennett (1910-1990), Joan Crawford (1905-1977), Lana Turner (1921-1995), Lizabeth Scott, Rita Hayworth (1918-1987) e, entre outras, Veronica Lake (1922-1973) – que trabalharam, nos anos 1940, em filmes Noir.

Algumas personagens femininas de The Spirit são apresentadas aos leitores na página de abertura do episódio em que aparecem pela primeira e, não raro única vez na série. E essa apresentação ocorre de quatro modos diferentes:
1 – as personagens apresentam-se por si mesmas, ocupando a maior parte da página de abertura do episódio. Exemplo: P’Gell (ver “Conheça P’Gell”, episódio publicado em 6 de outubro de 1946);
2 – as personagens são apresentadas por outro participante da história. Exemplo: Dulcet Tone (ver “Dulcet Tone”, episódio publicado em 7 de julho de 1946);
3 – as personagens são apresentadas por meio de recordatórios. Exemplo: Rice Wilder (ver “Esta É a Selvagem Rice”, episódio publicado em 4 de abril de 1948);
4 – as personagens apenas ocupam a maior parte da página de abertura do episódio, constituída de um único e grande quadrinho sem palavras. Exemplo: Nylon Rose (ver “Nylon Rose”, episódio publicado em 17 de março de 1946).