Jornal do Cinema - nº 5 - SINO DE NATAL
Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

RECRUTA ZERO
Marco Aurélio Lucchetti



“Nunca deixe para amanhã o que você pode fazer depois de amanhã.”
Recruta Zero




Recruta Zero é um dos maiores sucessos da história em quadrinhos norte-americana contemporânea.”
Pierre Couperie




Certa feita, um oficial do alto escalão do Exército dos Estados Unidos declarou: “A Marinha tem Buz Sawyer, a Aeronáutica tem Steve Canyon; e nós, do Exército, o que temos...? Beetle Bailey!”
Ele disse isso em tom de lamentação, uma vez que, em sua opinião, enquanto Buz Sawyer (no Brasil, conhecido como Jim Gordon) glorifica a Marinha e Steve Canyon enaltece a Aeronáutica, o desengonçado, desastrado (é um desastre ambulante), lento (uma lesma consegue ser mais rápida do que ele), atrapalhado, aloprado, desleixado, folgado, preguiçoso – na tira datada de 29 de julho de 1963, ele, sentado despreocupadamente junto a uma árvore, faz a seguinte pergunta para si mesmo: “Por que estou sempre tão cansado?” Em seguida, dá a resposta: “Mamãe fala que é porque estou crescendo. O sargento diz que é porque sou um relaxado e preguiçoso que não serve para nada. Estou inclinado a concordar com mamãe.” Já na tira datada de 10 de fevereiro de 1969, ele se pergunta, descansando tranqüilamente embaixo de uma árvore (seria a mesma árvore mostrada na tira de 29 de julho de 1963?): “Será que eu me sentiria mais disposto, se trabalhasse mais e ativasse a circulação do sangue... Ou o descanso preserva minhas energias para enfrentar qualquer crise que surja?” E, certa vez, durante um banho, falou para um de seus colegas, o recruta Platão: “Viu o que acabei de fazer? Qual axila eu lavei? Não quero lavar a mesma duas vezes.” –, simpático e nada romântico (é tão pouco romântico que não vacila em usar um lenço fino, que uma garota acabou de deixar cair na calçada, para dar lustro nos sapatos) Beetle Bailey (1), que os leitores brasileiros conhecem com o nome de Recruta Zero...
Abre um parêntese.
Foram Djalma Sampaio e Wilson Drummond (2) que deram a Beetle Bailey o nome de Recruta Zero. Fizeram isso por volta de 1961, quando a Rio Gráfica e Editora, do Rio de Janeiro, lançou uma revista com histórias do personagem (3); e certamente inspiraram-se no nome do protagonista de um esquete de um programa transmitido na década de 1950 pela Rádio Mayrink Veiga (4), do Rio de Janeiro. Nesse esquete, o pianista, compositor, humorista e radialista Aloysio Silva Araújo (1909 ou 1910-?), que se tornara famoso nos anos 1940 com o programa satírico Cadeira de Barbeiro, interpretava um soldado trapalhão chamado Recruta Zero (5).
Fecha o parêntese.
Abre um segundo parêntese.
Em nosso país, Beetle Bailey ficou também conhecido com o nome de Zé o Soldado Raso, devido a uma série de livros (6) lançados entre 1970 e 1975 por uma editora paulistana, a Saber S/A – Expansão Industrial e Comercial da Cultura, cujo diretor responsável era Savério Fittipaldi, e ao tablóide semanal (saía às quintas-feiras) Super Plá (7), que publicou algumas páginas dominicais do personagem. E, no tablóide Gibi Semanal (8), da Rio Gráfica e Editora, apareceu com o nome de Zero (9).
Fecha esse segundo parêntese.
Como eu estava dizendo, na opinião do oficial do alto escalão do Exército dos Estados Unidos, enquanto Buz Sawyer glorifica a Marinha e Steve Canyon enaltece a Aeronáutica, o desajeitado, confiado, dorminhoco (ele tem a capacidade de dormir em qualquer situação, a qualquer hora, em qualquer lugar e nas posições mais esdrúxulas; e acha que dorme demais “talvez para fugir de algo desagradável ou maçante”) e um tanto azarado (é o “único cara que consegue passar por maus bocados sem ir a lugar nenhum”) Recruta Zero, uma criação daquele que é indiscutivelmente o decano dos quadrinhistas estadunidenses ainda em atividade, Mort Walker (10), só denigre o Exército. E essa opinião era – e, sem dúvida alguma, ainda deve ser – também a de muitos outros oficiais do Exército norte-americano e do Pentágono, que baniram, em janeiro de 1954, o personagem da edição japonesa de Stars and Stripes, a publicação oficial das Forças Armadas norte-americanas (os soldados estadunidenses que serviam em território asiático ficaram, assim, proibidos de ler as histórias do Recruta Zero).



Recruta Zero passou por momentos difíceis. (...) Foi uma tempestade em copo d’água e acabou revelando que os manda-chuvas militares não tinham senso de humor. (...) A cassação do Stars and Stripes durou mais de dez anos, mas não impediu que os soldados rasos lessem Recruta Zero. Nós continuamos sugerindo e encorajando os leitores com publicidade para que eles enviassem – por correspondência – as tiras (publicadas nos jornais de todo o país) para os soldados (11). Funcionou e colocou minha história numa curva ascendente que nunca mais desceu.”
Mort Walker




Recruta Zero era a primeira coisa que eu procurava em Stars and Stripes. Uma porção de gente vai sentir sua falta, lá na Coréia. As histórias do recruta faziam muito bem para o moral.”
Sargento Roland Grief, numa carta (escrita em 1954, essa carta foi enviada de Tóquio, no Japão, e publicada numa propaganda da King Features Syndicate)




Deve ser destacado que Buz Sawyer e Steve Canyon, criados respectivamente por Roy Crane (1901-1977) e Milton Caniff (1907-1988), há muito tempo deixaram de ser realizadas e aparecer nos jornais; porém, as tiras diárias e páginas dominicais (12) do Recruta Zero continuam a ser produzidas e são estampadas nos jornais dos Estados Unidos e de diversos outros países. No Brasil, as tiras do recruta divertem, por exemplo, os leitores do sisudo O Estado de S. Paulo (13), aparecendo todos os dias no Caderno 2, na mesma página em que são publicadas as tiras de Frank & Ernest, Minduim/Peanuts (14), O Melhor de Calvin/Calvin and Hobbes e Turma da Mônica.



Distribuídas por uma das maiores agências distribuidoras de material de imprensa, a King Features Syndicate, as histórias do Recruta Zero – histórias essas que, na maioria das vezes, apresentam situações que beiram o nonsense, o absurdo – satirizam a vida militar, mostrando o dia-a-dia de Camp Swampy, um quartel onde estão reunidos os oficiais mais ineptos e os soldados mais indisciplinados e insolentes, um quartel que parece ter sido esquecido, abandonado num mundo próprio e condenado a uma eterna imanência. Na realidade, Camp Swampy, [ele está localizado no Sul dos Estados Unidos; e a cidade mais próxima é a fictícia Hurleyburg (às vezes, nas histórias, está grafado Hurlyburg), que fica distante cinco milhas] é um microcosmo; e Recruta Zero faz uma sátira não só aos militares, mas à sociedade em geral (inclusive, a Arnoldo Mondadori Editore, de Milão, publicou um livro com histórias do Recruta Zero intitulado Il Mondo È una Caserma, ou seja, O Mundo É uma Caserna). Assim, Camp Swampy (Quartel Pantanoso, numa tradução literal) representa empresas e organizações cujos patrões, chefes e diretores incompetentes e imbecis (o grau de incompetência e imbecilidade do indivíduo é proporcional ao status do cargo que ele ocupa) impõem ordens ridículas a seus subordinados, pobres diabos que estão na base da pirâmide social e que têm de fazer de tudo para escapar ao jugo tirânico de seus superiores.



Não pode deixar de ser dito que Recruta Zero (ela foi a última história em quadrinhos aprovada pessoalmente pelo proprietário da King Features, o todo-poderoso William Randolph Hearst, o magnata da imprensa norte-americana) não começou como uma sátira à vida militar, e sim como uma história em quadrinhos que satirizava o cotidiano universitário (15). Zero, que costumava fumar cachimbo (16), era um aluno da Universidade de Rockview e namorava uma colega, Buzz (em nosso país, ela ficou conhecida também com os seguintes nomes: Galena, Buba e Rita), uma lourinha sardenta, de cabelos curtos e pezuda (uma das características dos personagens criados/desenhados por Mort Walker é possuírem pés exageradamente grandes; outra característica desses personagens é que suas mãos têm normalmente apenas três ou quatro dedos, parecendo defeituosas).



“Ao contrário do que a King Features alardeava na época do lançamento da história, Recruta Zero não causou grande impacto logo de saída. Tudo começou (...) em apenas doze jornais (...). Em seis meses, somente vinte e cinco clientes apareceram. As tiras não são consideradas vencedoras antes de aparecerem em pelo menos cem jornais. (...) A King Features já pensava em ‘arquivar’ meu trabalho depois do primeiro ano de contrato. (...) Parecia que pouquíssimos leitores se interessavam pela temática universitária. Afinal de contas, apenas 5% dos habitantes do país haviam passado pela faculdade. (...) Assim que começou a Guerra da Coréia, (...) achei que Zero deveria se alistar (17). (...) Por sorte eu havia servido no Exército durante quatro anos e possuía inúmeros rascunhos e um diário para fazer as pesquisas necessárias. (...) A sorte de Zero estava lançada. Um argumento militar era o que a tira precisava. E as histórias de Zero rapidamente passaram a aparecer em cem jornais (18). Para minha surpresa, meu editor na King Features disse: ‘Se você tivesse trazido uma história de humor militar da primeira vez, eu nunca teria comprado.’
Mort Walker



“Zero representa o típico Zé S. R. (Soldado Raso, que é o grau mais próximo do anonimato que cada S. R. sente ser). Eles são arrebanhados como gado, tratados como lixo e endeusados por serem os guardiães da liberdade... à qual dizem adeus no momento em que se alistam no Exército. Seu compromisso é o de trabalhar o mais arduamente possível para manter-se afastado do trabalho... depois de ficar a noite inteira acordado, divertindo-se.”
Mort Walker




Foi em março de 1951 que Recruta Zero passou a satirizar o dia-a-dia dos militares. Nessa época, os Estados Unidos estavam envolvidos na Guerra da Coréia (1950-1953). Então, muitos adolescentes norte-americanos foram recrutados, a fim de participarem da guerra; e, como Zero era “a imagem perfeita” dos universitários estadunidenses, nada mais lógico que seguisse seus pares e entrasse para o Exército (alguns de seus colegas da universidade já haviam sido recrutados). Entretanto, ao contrário de ser convocado para o serviço militar, ele, “incentivado” por seus amigos Amargoso (Bitter Bill) e Canastra Suja (Diamond Jim), alistou-se por espontânea vontade; e foi visto de uniforme pela primeira vez na tira publicada nos jornais dos Estados Unidos em 21 de março de 1951 (19). A partir daí, ao invés de colegas universitários (20), passaria a ter companheiros de alojamento; ao invés de ser aborrecido por professores chatos, seria espezinhado por um sargento rabugento; e, ao invés da comida do bandejão da faculdade, teria o grude servido no quartel. E, pouco a pouco, foram aparecendo nas histórias os personagens – para criar muitos desses personagens (21), Mort Walker inspiraria-se principalmente em pessoas que conhecera na universidade ou quando servira o Exército, durante a Segunda Guerra Mundial –, um bando de fracassados, que, em companhia de Zero, são responsáveis pelo sucesso da tira:

QUINDIM (KILLER DILLER) – Melhor amigo de Zero, é o típico conquistador barato e imagina-se um verdadeiro presente de Deus às mulheres (certa ocasião, ao dizer para a Dona Tetê que as garotas costumam chamá-lo de “presente de Deus para as mulheres”, ela perguntou: “E Deus tem um balcão de trocas?”). Usa um bigodinho de galã. Seu único desejo é conquistar as mulheres bonitas e exuberantes, mas raramente suas cantadas dão resultado. Costuma sonhar, todos os invernos, com uma praia repleta de lindas garotas. Jamais esquece o rosto de uma moça bonita. É capaz de beber e comer no pior café da cidade, desde que a garçonete seja uma bela jovem. Todas as vezes que vê uma mulher atraente, as pontas de seu quepe balançam. Coleciona pôsteres e calendários com imagens de garotas. Surgiu na tira datada de 5 de maio de 1951, mas ganharia um nome somente na tira de 6 de outubro de 1951;

SARGENTO TAINHA (SERGEANT ORVILLE SNORKEL) – É gordo (no princípio, não era tão obeso), irascível, rude, solitário, falador e de boca suja (na tira datada de 29 de outubro de 1968, uma militar está esperando ser atendida pelo médico, porque ficou em estado de choque após ter ouvido a descompostura que ele deu num pelotão; e, na tira datada de 6 de fevereiro de 1973, Dona Tetê fica estatelada e com o cabelo todo desalinhado, ao ouvi-lo reepreendendo Zero por não haver se levantado quando ela entrou no escritório). Nunca esteve em combate. Não entende nada da vida civil (na verdade, perdeu todo o contato com o mundo exterior e não tem noção do que seja o mundo fora de Camp Swampy, pensando que os civis são soldados à paisana; e alguns dos poucos contatos que tem com a vida civil, depois que se engajou no Exército, são as visitas que faz, durante os feriados do Dia de Ação de Graças ou a época do Natal e Ano-Novo, à casa dos pais do Zero). Coleciona menus. Adora hambúrgueres, come-os desde que era um bebê; aliás, hambúrguer foi a primeira palavra que disse. Possui a sutileza de um paquiderme, gosta de pizza e de rosquinhas, come qualquer coisa (até mesmo ração para cachorros ou lixo), sonha habitualmente com comida e passa a maior parte do tempo batendo no Zero ou repreendendo o recruta. Sofre de alergia ao Zero e julga-o “um boa-vida profissional que devia ser devolvido “à fábrica por defeito de fabricação”. Acha também que o recruta é, “sem dúvida, o cara mais preguiçoso de toda a Terra”, não percebendo “quão pouco esforço é preciso para alcançar esse status. Exibe eternamente uma expressão de idiota no rosto e tem um dente saliente (no início, tinha dois dentes salientes). É um grande conhecedor de cerveja, tendo latas de cerveja de 741 marcas e 62 países. Detesta café fraco. Nunca sabe quando acaba uma refeição e começa a outra; por isso, não escova os dentes após as refeições. Quando criança, queria ser um cowboy; quando ficou mais velho, queria ser um jogador profissional de futebol americano; depois, queria ser um lutador; e, por fim, queria ser um sargento; e, agora, tudo o que deseja é ser obedecido. Os soldados acham que é “severo demais e que tem obsessão pelos regulamentos do Exército” (na tira datada de 30 de março de 1951, numa de suas primeiras aparições na série, tudo o que sabe fazer é dar ordens aos recrutas, gritando: “Mantenham-se em linha! Formem uma linha aí atrás! Todos em linha!). Em sua opinião, seu trabalho consiste em “ser mesquinho, durão, exigente nos treinamentos... até que os soldados estejam prontos pra vida”; também em sua opinião, é ele que “tem de colocar os soldados na linha, e dizer não quando querem um passe ou pedem pra ir ao cinema”. Costuma usar apenas os dedos mínimos para datilografar, já que os outros dedos são tão gordos que batem ao mesmo tempo várias teclas da máquina de escrever. Consegue rosnar mais alto do que o Oto. Gostaria de se casar; porém, as mulheres o enchem de medo. O Exército é sua família. Ler as cartas de sua mãe sempre o deixa com sono. Não resiste a um desafio, seja ele qual for. É um dos personagens favoritos de Mort Walker, não “apenas por parecer engraçado, visto de qualquer ângulo, mas por ocupar um monte de espaço, eliminando a necessidade de encher o cenário”;

“Adoro ficar na cama ouvindo os sons do quartel acordando. A porta da cozinha rangendo, quando o Cuca vai pôr o lixo lá fora... Os cacos de vidro sendo varridos no Clube dos Soldados... Os sargentos trilando os apitos... Não passo de um tolo sentimental!”
Sargento Tainha


“Eu amo extrema e particularmente o Sargento Tainha. É meu preferido. Porque é – de todos os personagens – aquele que possui as mais profundas raízes humanas. É o mais violentamente sincero, o mais comilão. Tudo aquilo que faz ultrapassa os limites da norma. Em minha opinião, é um excelente personagem. Às vezes, pode ser verdadeiramente meigo; e, às vezes, verdadeiramente rude. Pode, com outro tanto de sinceridade, sobrecarregar Zero de trabalhos penosos. Há algo de incongruente nele. Por outro lado, para criá-lo, baseei-me em alguém que conheci na vida real.”
Mort Walker


OTO (OTTO) – É o cachorro de estimação e único amigo do Sargento Tainha, que o utiliza para vigiar os recrutas. Sua primeira aparição na série ocorreu na tira datada de 17 de julho de 1956. No início, como todo cão, andava nas quatro patas, latia e rosnava; depois, foi adquirindo trejeitos humanos e tornou-se bípede (de vez em quando, volta ao seu estado animal e corre nas quatro patas atrás dos gatos, late para os carros e fuça nas latas de lixo); e, desde que ganhou, definitivamente, um uniforme de soldado (22) e uma mesa de trabalho (isso ocorreu na tira datada de 16 de setembro de 1969), tornou-se uma versão em miniatura do dono (dizem até que seria o filho que Tainha nunca teve). Bebe cerveja. Sua ração de cachorro predileta é da marca Ossê, pois Ossê parece uma palavra francesa e “todo mundo sabe que os franceses são ótimos cozinheiros”. Fica satisfeito, quando a Dona Tetê o acaricia; e, nessas ocasiões, fica ainda mais satisfeito, ao notar que os recrutas sentem inveja ao vê-lo sendo acariciado por uma jovem bonita. Para criá-lo, Mort Walker inspirou-se no quadrinhista  Otto Soglow (1900-1975), criador de O Reizinho (The Little King);

COSME (COSMO) – É esperto e trapaceiro, usa óculos escuros, fuma charuto, veio de Nova York, sabe negociar, conhece técnicas de marketing e só pensa em obter lucro. Passa parte do dia vendendo bugigangas (em seu Cantinho do Cosme/Cosmos’ Corner, há de tudo: câmeras fotográficas, binóculos, cachimbos, cigarros, revistas usadas, rádios, canivetes, cartões postais, agendas, refrigerantes, raquetes de tênis estragadas etc.) para os demais recrutas; e, no resto do tempo, dedica-se a jogar cartas ou dados, sempre apostando dinheiro. Investe aquilo que ganha na Bolsa. Coleciona moedas. Apareceu pela primeira vez na tira datada de 12 de outubro de 1953;

DENTINHO (ZERO) – É dentuço e, sem dúvida alguma, o sujeito mais burro do quartel (seu nome original é uma referência a seu quociente de inteligência), levando tudo ao pé da letra e não fazendo nada certo (na tira datada de 10 de fevereiro de 1968, o Sargento Tainha lhe diz, ao vê-lo quebrar uma janela com o cabo de um ancinho: “Você devia estar dormindo, quando os cérebros foram distribuídos!”). Certa feita, o sargento lhe disse que era “um tolo de primeira classe”; então, pensou que tivesse sido promovido. Foi criado numa fazenda e nunca foi a uma escola, sendo quase analfabeto e não sabendo responder às perguntas mais simples. Quando aprende uma palavra nova, gosta de praticá-la. Acha graça de tudo; mas, para fazê-lo parar de rir, basta contar uma piada, que ele certamente não irá entender ou demorará para entender (por exemplo: se lhe contarem uma piada na hora de dormir, só irá entendê-la depois das três da manhã). Tem o hábito de ler histórias em quadrinhos e coleciona gibis. Aprecia as garotas bonitas (por exemplo, na página dominical de 6 de maio de 2007, não deixa de olhar avidamente para a Dona Tetê, enquanto esfrega o chão do escritório), demonstrando que, nesse ponto, não é nada bobo. Seu doce favorito é sorvete de chocolate. De acordo com Mort Walker, é “aquele menino cândido, típico do interior, com a ingenuidade de uma criança”; e, como bem disse seu colega Platão, “suas perguntas não estão com nada”;

JÚLIO (JULIUS PLEWER) – É obeso, ingênuo, sensível, alérgico a uma série de alimentos, medroso e fofoqueiro. Está sempre bem arrumadinho, com o uniforme impecavelmente passado. Detesta cheiro e fumaça de charuto (23). Gosta de fazer sermões aos outros soldados e aprecia ver o alojamento muito limpo, o que lhe valeu o apelido de “mãe”. Sua função é dirigir o carro do General Dureza (o que contribuiu para ele conseguir esse trabalho foi certamente o fato de sua mãe ser influente no Pentágono e ter sido colega de escola da mulher do general). Sempre que diz que “na intimidade”, o General Dureza é “muito bondoso, generoso e amistoso”, os demais recrutas caem na gargalhada. Sua estréia nas histórias ocorreu nos meados dos anos 1960;

CABO YO ou CABO KY (CORPORAL YO) – Surgido na década de 1990, é um ásio-americano competente que tenta se adaptar ao estilo relaxado de Camp Swampy. Tem, conforme suas próprias palavras, “idéias geniais”, que, para sua frustração, quase sempre, ou melhor, nunca são colocadas em prática. Na página dominical datada de 31 de março de 1991, ele reclama que é “eficiente” e que as pessoas o “acham um saco”. Em seguida, desabafa que só quer “ser um cara normal”. Então, Zero diz que pode ajudá-lo e lhe dá alguns conselhos: “Primeiro: Não trabalhe mais do que os outros... Isso faz com que se sintam mal. Segundo: Todo mundo gosta de quem não se submete à autoridade.” Por fim, completa: “Vou lhe ensinar a arte da perda de tempo. Você será muito popular!” Yo, que anotou tudo aquilo que Zero lhe dissera, exclama: “Demais!” Depois, no último quadrinho da página, portando uma lanterna (ainda é madrugada; e, pela janela aberta da caserna, pode ser vista a lua no céu), vai acordar Zero (o recruta está dormindo profundamente), dizendo: “Zero! Está quase amanhecendo! É hora de levantar e começar a coçar o saco!”;

PLATÃO (PLATO) – É um pensador profundo e o intelectual do quartel (seu nome é uma homenagem ao filósofo grego, que foi discípulo de Sócrates). Dedica-se, na maior parte do tempo, a ler bons livros. Faz palavras cruzadas todos os dias, para manter a mente aguçada. Está constantemente fazendo perguntas, procurando saber o porquê das coisas. No seu modo de ver, “a vida se compõe de pequenos instantes; o passado se foi, o futuro é desconhecido, a realidade só existe no presente”. Em sua opinião, há alguma coisa faltando na civilização moderna: civilização. É inútil fazer-lhe perguntas, porque, ao invés de respostas, a pessoa só obterá mais perguntas (na opinião de Dentinho, “tudo o que Platão faz é perguntar, nunca sabe as respostas”) e ficará ainda mais confusa. De acordo com seu teste de aptidão, “possui um quociente de inteligência de gênio, uma imaginação prodigiosa e ótimas habilidades artísticas e de organização”. Vive escrevendo grafites filosóficos nas paredes do quartel. É campeão de xadrez. Coleciona autógrafos. Usa óculos; e, no passado, era mostrado, às vezes, fumando cigarro. Não tem relação alguma, a não ser o mesmo nome e o fato de gostar de ler, com o Platão (Plato) que apareceu na época em que as histórias de Zero se passavam na Universidade de Rockview. Na opinião do jornalista René Ferri, é “o maior perdedor no grande universo de perdedores que formam o Camp Swampy, desperdiçando sua erudição no meio de inúteis treinamentos de guerra, em companhia de indivíduos que não dão a mínima para sua decantada sapiência”;

“Existem verdade e pureza nas coisas naturais, e nosso contato com elas purifica o espírito. Vamos manter esse contato gentil (...), porque na Natureza está a casa verde de nossa alma.”
Platão


ROQUE (ROCKY) – No começo, era o típico rebelde sem causa; depois, transformou-se num opositor do Sistema (só é a favor daquilo que os outros são contra). Tem um lema, que aprendeu com o pai: “Faça aos outros antes que tenham uma chance de fazerem a você.” É o editor do jornal underground do quartel, Camp Swampy Muckracker, que os editores brasileiros batizaram com os seguintes nomes: A Folha do Quartel Swampy, O Xereta, O Tagarela e A Denúncia. Toca guitarra, usa topete e é (ou pelo menos era) visto quase sempre fumando cigarro. Passa horas penteando o cabelo. Costuma chutar as coisas, quando está nervoso, o que acontece com freqüência. Veio de um meio humilde, um bairro sórdido, onde só tinha más companhias; detesta bons exemplos; e nenhum de seus amigos, considerados pelo Sargento Tainha “um grupo de rapazes egoístas, parasitas e sem patriotismo”, está no Exército. Seu objetivo maior é sair do Exército. Está presente na série desde 1958;

“A Constituição diz que posso escrever o que eu quiser.”
Rocky


GENERAL AMOS DUREZA (GENERAL AMOS T. HALTRACK) – É o comandante de Camp Swampy e, com certeza, o mais inepto dos generais de todo o Exército norte-americano. Deixou crescer um vasto bigode, pois, do contrário, teria uma cara ridícula (na tira datada de 7 de julho de 1957, é mostrado como ele ficaria se raspasse o bigode). Pensa apenas em três coisas: suas partidas de golfe; as cartas do Pentágono, que nunca chegam (uma das poucas cartas que recebeu do Departamento de Defesa foi para informar que o tamanho do papel de correspondência usado pelo Departamento de Defesa havia mudado de 8 por 10,5 polegadas para 8,5 por 11 polegadas. E, certa feita, uma carta que enviou ao Pentágono, foi devolvida, com a seguinte anotação: MUDOU-SE endereço desconhecido”); e a loura e escultural Dona Tetê, que é um “colírio” para seus olhos. No seu modo de pensar, o Exército “precisa de mais disciplina... mais soldados bons... e mais donas Tetê”. Está um pouco esclerosado e acha que, à medida que envelhece, sua “figura melhora”. Vive cochilando ou jogando golfe, no horário de trabalho. Está constantemente atrasado para tudo, menos para suas partidas de golfe. Gosta de tomar seus drinques, isto é, embededar-se no Clube dos Oficiais, onde o barman, um civil, já está farto de ouvir suas histórias chatas; e julga que é o manda-chuva, mas quem manda mesmo é sua esposa. Não sabe estalar os dedos e não entende nada de computadores. Todas as vezes que vê Oto vestido de soldado, leva um susto; e, sempre que o vê vestido de general, Oto leva um susto. Escreveu suas memórias, e elas foram adaptadas numa história em quadrinhos. Certa vez, ficou envaidecido, ao ver que os recrutas haviam pendurado uma fotografia sua na parede do alojamento; porém, teria ficado furioso, se tivesse visto que a foto fora pendurada ali a fim de servir de alvo para dardos. Segundo a Senhorita Blips (ver a tira datada de 19 de março de 1986), irá se aposentar no dia em que a Dona Tetê deixar de ser sua secretária. Detesta funerais, não gostaria de ir nem ao seu próprio enterro. Deseja ser lembrado como “um líder bondoso, diligente e atencioso”. Estreou na série na tira datada de 24 de março de 1951 (então, tinha duas estrelas pregadas no uniforme; poucos meses depois, teria apenas uma);

“Na guerra e no golfe, vale realmente tudo!”
General Dureza


“O General Dureza pode comandar milhares de homens e ser o líder supremo no Camp Swampy; mas, em casa, sua última palavra é sempre ‘sim, senhora’.”
Mort Walker

MARTA DUREZA (MARTHA HALFTRACK) – É a esposa do General Dureza. Não possui atrativo algum; é corpulenta, mandona e muito ciumenta. Costuma chamar o marido de “bode velho”; em algumas ocasiões, também o chama de “imprestável” ou “inútil”. Sempre que a vejo, lembro-me de outra rabugenta dos quadrinhos, Marocas (Maggie), a mulher de Pafúncio (Jiggs), uma criação de George McManus (1884-1954);

SENHORITA BLIPS (MISS BLIPS) – É a secretária militar do General Dureza. Tem muita inteligência e competência, mas pouca beleza e nenhum sex appeal. Julga que as roupas usadas por Dona Tetê não são adequadas para um escritório (possivelmente, pensa assim porque não possui os atributos físicos da Dona Tetê e, portanto, não pode usar roupas iguais às de sua colega). Surgiu em 1955;



DONA TETÊ ou DONA CÂNDIDA (MISS BUXLEY) – É a secretária civil do General Dureza, a quem acha “uma gracinha” e um “velhinho simpático”; ele, por sua vez, a acha “bonita e doce”. Possui beleza, charme e um andar sensual (segundo o General Dureza, seu andar “deveria ser proibido para menores de dezoito anos” e o da Senhorita Blips, “proibido para todos”). Não é dotada de inteligência alguma, sendo a típica loura bonita e burra (24); mesmo assim, deseja ser respeitada pelo seu cérebro e pelo seu trabalho, e não pelo seu corpo (na tira datada de 16 de fevereiro de 1983, ela indaga ao general: “O senhor me contratou pelas minhas habilidades ou pela minha aparência?”). Aprendeu uma coisa com o General Dureza: “Idade não traz sabedoria.” Tem 22 anos de idade e usa lentes de contato. Poderia muito bem ser atriz ou modelo, mas prefere ser secretária do General Dureza, já que assim, conforme suas próprias palavras, tem a oportunidade de “fazer alguma coisa por seu país”. Precisa aprender que, quando vai a uma festa que dura das 21 às cinco horas, não tem condições de trabalhar das nove às 17 horas. Costuma chegar atrasada ao trabalho. Usualmente, fica lixando as unhas, durante o expediente (na tira datada de 21 de dezembro de 1976, o general lhe diz: “Dona Tetê, quero lhe falar sobre esse negócio de a senhora ficar aí se maquilando, se penteando, lixando as unhas, ajeitando o vestido...” Olhando-o, com surpresa, ela pergunta: (...) Algum problema?” E ele responde: “A senhora pode fazer isso mais um pouco?”); e usa vestidos muito curtos ou extremamente decotados (na tira datada de 23 de março de 1983, a Senhorita Blips lhe pergunta: “Quando é que você vai parar de usar essas roupas que encorajam os chauvinistas deste escritório?” E ela responde: “Logo depois que eu pedir um aumento para o general.”). Sabe que o General Dureza a vê como um objeto sexual (na tira datada de 16 de janeiro de 1985, o general lhe fala: “Dona Tetê, peço desculpas, se alguma vez a tratei como objeto sexual.” Então, ela retruca: “Tudo bem, senhor. Eu sou um objeto sexual.” E, depois, conclui: “Só não sou o seu objeto sexual.”). Adora ficar na cozinha, com seus livros de culinária e suas ervas. Teve aulas de tênis (Marta Dureza foi sua colega nessas aulas) com Rolf (25), um charmoso professor que deixava as mulheres encantadas. Tem uma pequena rosa tatuada no tornozelo. Namorou um sujeito chamado Brad, que tinha um carro esporte; chegou a sair com Quindim; e, atualmente, é o par romântico de Zero (na tira datada de 30 de janeiro de 2010, ela lhe dá um beijo, em agradecimento por ele haver trocado o pneu de seu carro; e, na tira datada de 12 de maio de 2010, os dois estão de mãos dadas, passeando sob o luar e admirando as estrelas). Um de seus eternos admiradores é Dentinho. Acredita em valores verdadeiros: amor, casamento, lar, filhos... Considera Zero “uma massa de argila que ela pode moldar em um homem perfeito”. Seu único inimigo no mundo, de acordo com a Senhorita Blips, é “o tempo”, que, na realidade, é o maior inimigo de todos nós. Quando dorme, usa apenas perfume; em outras palavras, dorme pelada. Apareceu pela primeira vez nas histórias na tira datada de 17  de novembro de 1971 (na ocasião, já exibia suas formas exuberantes, vestida com uma blusa de amplo decote e um short), quando a Senhorita Blips apresentou-a ao general como secretária substituta temporária;

“Não é legal viver sozinha. Eu levanto de manhã, e não tem ninguém com quem conversar ou comer junto. Eu vou pra casa à noite (...), e não tem ninguém pra me receber... É muita solidão!”
Dona Tetê


“(...) introduzi a Dona Tetê em 1971 (26), sem a pretensão de fazer dela uma personagem habitual. Só que os leitores gostaram; e comecei a usá-la mais e mais, até que que ela conquistou uma aparição por semana (27). De repente, em 1982, cartas começaram a ser despejadas por feministas que a acusavam de ser um estereótipo sexual e que eu estava promovendo o chauvinismo (28). Forçaram alguns jornais a censurarem a história, o que aumentou ainda mais a polêmica. Um plebiscito foi realizado por cinco jornais, e os leitores optaram por sua permanência com uma arrasadora margem de 85%. Revistas e jornais fizeram artigos a respeito do fato e da personagem, e ainda houve inúmeras entrevistas no rádio e na TV (chegou a dar livro: Miss Buxley: Sexism in Beetle Bailey?). (...) Não é engraçada, mas eu a adoro.”
Mort Walker


CAPITÃO DURINDANA (CAPTAIN SAM SCABBARD) – É casado (sua esposa fez duas rápidas aparições na série: a primeira vez foi numa tira de 1953; e a segunda, numa tira de 1957) e o único oficial com um pouco de voz de comando em todo o Camp Swampy. Acha que precisa dar “duro” nos recrutas, a fim de que eles amadureçam, tornem-se pessoas responsáveis e transformem-se em homens. Para criá-lo, Mort Walker inspirou-se num oficial que conhecera na Segunda Guerra Mundial, Capitão Johnson, que, durante as marchas, carregava gim em seu cantil;

TENENTE ESCOVINHA (LIEUTENANT SONNY FUZZ) – É ambicioso, imaturo, indeciso, mimado e inexperiente. Mostra eternamente uma expressão de tolo no rosto. Não é respeitado pelos oficiais, nem pelos recrutas e muito menos pelo Sargento Tainha. Desconhece por completo os assuntos militares; a única coisa que sabe fazer é bajular o General Dureza, que está sempre fugindo dele e nunca lê seus maçantes relatórios. Implica o tempo todo com Tainha. Tem o costume de chupar pirulitos. Estreou nas histórias na tira datada de 7 de março de 1956, quando foi totalmente depenado pelo Cosme;

TENENTE MIRONGA (LIEUTENANT FLAP) – É o primeiro personagem negro a aparecer nas histórias do Recruta Zero (29). Sua estréia (30) ocorreu na tira datada de 5 de outubro de 1970 (no primeiro quadrinho dessa tira, o Capitão Durindana diz ao Sargento Tainha: “Estamos com deficiência de pessoal. Por isso, destacaram um oficial que voltou de combate para ficar temporariamente.” Contente, Tainha, que está sentado à escrivaninha e lendo uma pilha de papéis, comenta: “É bom. Precisamos de ajuda.” No quadrinho seguinte, Mironga aparece, gritando: “COMO É QUE NÃO HÁ PRETOS NESTA ESPELUNCA?” Assustado, Tainha murmura: “Socorro!”). Usa um corte de cabelo estilo Black Power; e, nas horas de folga, veste roupas extravagantes e coloridas (segundo ele, “as roupas são uma maneira de uma pessoa fazer publicidade de si mesma”. Dessa forma, ao usar roupas coloridas e extravagantes, está “dizendo ao mundo que é um barato, divertido”). Ele e o Tenente Escovinha têm o mesmo advogado;

SARGENTO LOUISE LOROTA (SERGEANT LOUISE LUGG) – É a versão (no físico, no gênio e no apetite) feminina do Sargento Tainha, de quem quer ser namorada; e tem como animal de estimação uma gata chamada Bella. Acha que sua vida começou no momento em que conheceu Tainha. Estreou nas histórias na tira datada de 26 de maio de 1986;

CHIP GIZMO – É um especialista em Informática (foi aos dez anos de idade que percebeu que era um perito em computadores). Fica o dia inteiro diante do computador (a Senhorita Blips acha que ele “deixa o computador dominar sua vida”; e a Dona Tetê diz que “vive em outro mundo”, pois está na web o dia todo). Não tem namorada. Apareceu na série em 2002; e seu nome foi escolhido por meio de um concurso – os participantes tinham de enviar suas sugestões para o endereço eletrônico www.beetlebailey.com – que teve o patrocínio da Dell Computer Corporation e do qual participaram mais de oitenta mil pessoas;

CAPELÃO (CHAPLAIN STANEGLASS) – Nas palavras do próprio Mort Walker, tenta “ser um guia moral no meio de um bando de jovens furiosos, que estão longe de suas casas e têm desejos pecaminosos”. Tornou-se capelão porque desejava “levar luz aos cantos escuros do mundo”; só não sabia o quão “escuro” é Camp Swampy. Para ele, “o segredo de uma vida boa é escolher um bom modelo a se seguir”. Usa óculos. Tem sempre uma palavra de conforto para dizer às pessoas. De vez em quando, percebe claramente a razão da existência do Homem na Terra; e, justamente quando parece compreender a nobreza, o valor e o objetivo da humanidade, vê o Sargento Tainha, o que o faz repensar todos os seus conceitos a respeito do Homem. Seu rosto, que exibe uma eterna expressão de resignação, é semelhante ao do ator Barry Fitzgerald (1888-1961), que interpretou o Padre Fitzgibbon, em O Bom Pastor (Going My Way, 1944), filme dirigido por Leo McCarey (1898-1969) e estrelado por Bing Crosby (1903-1977). Às vezes, seu rosto se parece com o do Professor Nimbus, personagem criado, em 1934, pelo quadrinhista francês André Daix (pseudônimo de André Delachenal, 1901-1976). Freqüentemente, cochila durante os discursos do General Dureza; e o general nunca deixa de dormir ao ouvir seus sermões (na tira datada de 1º de março de 1963, os dois tiveram uma conversa particular e acabaram adormecendo);

“O segredo da amizade é realmente muito simples! Para ser amado, primeiro você deve aprender a amar!”
Capelão




CUCA (COOKIE) – É muito parecido, fisionômica e fisicamente, com o Sargento Tainha. Nenhum soldado aprecia sua comida (sempre que alguém fala mal de suas “iguarias”, ele, ofendido, fica sentado no telhado do refeitório e só desce de lá depois de receber um pedido de desculpa da pessoa que reclamou), que é muito apimentada. Geralmente, suas almôndegas, que trouxeram um novo significado à expressão “brincando com a comida”, são tão duras que os recrutas as usam como bolas, nas partidas de beisebol. Tem pêlos nos ombros e um coração tatuado no braço. Em suas primeiras aparições nas histórias, usava um quepe de soldado; depois, ganharia um chapéu de mestre-cuca. Durante muitos anos, foi visto com um cigarro na boca; e, em 1989, deixou de fumar;

DOUTOR BONKUS (DR. BONKUS) – É o psiquiatra do quartel (na tira datada de 20 de janeiro de 1967, ele escreve em seu livro de anotações: “Eu encontrei na Companhia A uma verdadeira mina para meus estudos mentais. Esse grupo tem de tudo, todas as doenças registradas nos compêndios de Psiquiatria. Com tal material, posso escrever uma série de artigos para o jornal psiquiátrico ou um livro. Acho até que daria uma história em quadrinhos.”). Costuma falar sozinho. Sua estréia na série ocorreu na tira datada de 16 de janeiro de 1967;

DOUTOR ESCULÁPIO (?) – É o médico do quartel. Não aparece com freqüência nas histórias;

MAJOR GRAMAVERDE ou MAJOR BATALHA (MAJOR GREENBRASS) – É o interlocutor habitual do General Dureza e seu companheiro nas partidas de golfe e nas bebedeiras. É obeso e calvo. Usa um bigodinho;

BUNNY (COELHA, numa tradução literal) – É uma morena atraente. Namorou Zero por vários anos, e seu pai não apreciava muito esse namoro. Raramente Zero lhe dava um presente (numa dessas raras ocasiões, ele presenteou-a com algo que, apesar de parecer caro, custou barato: uma foto de uma nota de quinhentos dólares). Em incontáveis vezes, Zero chegou atrasado ou nas horas mais impróprias para visitá-la (na tira datada de 17 de junho de 1969, ela o atende, em trajes de quem acabou de sair da cama, e fala, com mau humor: “Cansei de esperar por você e fui dormir. Por onde andou?” Sorrindo, Zero responde: “Sei que não vai acreditar, mas peguei no sono dentro do ônibus e não consegui acordar antes do fim da linha.” No quadrinho seguinte, sentado no último degrau da escada que leva à varanda da casa de Bunny e segurando um papel, Zero diz, com ar desconsolado, para si mesmo, enquanto um gato sem dono esfrega o pescoço em seu braço: “Ela poderia ao menos ler o bilhete do motorista!”). Antes de namorar Zero, foi namorada de um rapaz que trabalhava numa sorveteria; e, possivelmente, Zero não era o homem de seus sonhos (na tira datada de 18 de fevereiro de 1969, ela diz para si mesma, enquanto troca de roupa e maquila-se: “Algum dia um homem alto e bonito vai aparecer e me levar com ele. Um dia eu terei um lindo casamento e uma lua-de-mel num barco em torno do mundo. Algum dia terei jóias, peles e tudo que eu sonhar.” Então, Zero, que está sentado no sofá da sala, pergunta ao pai dela: “Por que a Bunny sempre se refere a mim como ‘por enquanto’?”). Surgiu nas histórias em 1959;

SENHOR e SENHORA BAILEY (Mr. e Mrs. BAILEY) – São os pais de Zero, que só lhes escreve para pedir dinheiro. Não se sabe o primeiro nome deles. A Sra. Bailey costuma preparar e enviar para o filho bolos, biscoitos e outras guloseimas, que acabam sendo devorados pelo Sargento Tainha; Fizeram sua estréia nas histórias na tira datada de 23 de dezembro de 1951 (Zero vai visitá-los, para passar em casa os feriados de Natal e Ano-Novo, após ter ficado três meses na Universidade de Rockview).

CHIQUINHO (CHIGGER) – É o irmão caçula de Zero. Tem aproximadamente dez anos de idade e um dente saliente. Apareceu pela primeira vez na tira datada de 28 de dezembro de 1951 (então, era mais magro e mais alto).

Nos primeiros anos de Recruta Zero, Mort Walker criou alguns personagens que não deram certo e terminaram desaparecendo:

BOCHECHINHA (BIG BLUSH) – Era alto, barrigudo e ingênuo. Ficava corado com grande facilidade, sobretudo quando falava alguma coisa a respeito das mulheres;

CANTINA (CANTEEN) – Era um sujeito dentuço e gorducho;

FOGUINHO (FIREBALL) – Louro e de ar pouco inteligente, era um tipo infantil. Não possuía um único fio de cabelo no peito (por esse motivo, na tira datada de 29 de agosto de 1951, foi até um tatuador e pediu-lhe que tatuasse cabelos em seu peito). Não sabia assobiar para as garotas;

OLHOS DE COBRA (SNAKE EYES) – Acabou sendo substituído pelo Cosme;

SEBINHO (DAWG) – Era sujo (não gostava de tomar banho), e as moscas estavam sempre voando à sua volta;

TEXAS ou DUDA (BAMMY) – Nunca mostrou os olhos, tal qual Zero (em nenhuma ocasião, nem mesmo para dormir, Zero tira o capacete, o quepe, ou o chapéu, que lhe cobre os olhos). Mort Walker afirmou que ele era “o patriota idiota que ainda tinha a cabeça na Guerra de Secessão”;

OZÔNIO (OZONE) – Era enorme e tinha tão pouca inteligência quanto Dentinho. Não sabia ler nem distinguir as cores. Apareceu nas histórias no final dos anos 1950; e desapareceu porque Mort Walker achou que bastava um recruta burro no quartel.

E dois outros personagens, surgidos na década de 1960, também deixaram de aparecer nas histórias:

MUCHIBA (MOOCHER) – Vivia pedindo aos outros soldados coisas (sabonete, creme de barbear, escova de dente, caneta, dinheiro etc.) emprestadas. Certa vez, pediu para Zero um selo e um envelope, a fim de pedir dinheiro ao... Frank Sinatra;

POP – Era casado e morava num trailer. Sua esposa, que mandava nele, possuía a capacidade de gritar mais alto que o Sargento Tainha.

Logo após o término da Guerra da Coréia, Mort Walker achou que precisava reformular as histórias de Zero. Em sua opinião, com o fim do conflito, os leitores não mais se interessariam por uma história em quadrinhos enfocando o dia-a-dia dos militares. Decidiu, então, devolver o personagem à vida civil. Assim, durante duas semanas, as tiras de Recruta Zero (31) mostraram Zero em seu lar, convivendo com o pai, a mãe, o irmão caçula e... Lois, a irmã mais velha, e toda a sua família (marido e filhos). No entanto, a idéia não agradou aos leitores, que exigiram o retorno imediato de Zero ao Exército. Percebendo que não havia outra solução, Mort Walker atendeu a essa exigência; e, na tira datada de 24 de abril de 1954, Zero despediu-se da família e voltou para o quartel, onde permanece até hoje, fazendo parte da Companhia A.
No entanto, Mort Walker gostou de realizar as tiras em que Zero voltava à vida civil. Gostou de satirizar o dia-a-dia de uma família de classe média. Gostou tanto que, alguns meses mais tarde, criaria uma história em quadrinhos familiar: Hi and Lois (no Brasil, essa história em quadrinhos foi publicada com os seguintes títulos: Zezé, Zezé e Cia., Zezé e Cia, Doce Lar e Li e Lu), cuja primeira tira foi estampada nos jornais estadunidenses em 18 de outubro de 1954.
Distribuída pela King Features e publicada em diversos países, Hi and Lois (32) relata o cotidiano da família de Lois (em nosso país, a personagem ficou conhecida com os seguintes nomes: Zazá, Alice e Lu), a irmã de Zero. Família essa tipicamente suburbana e constituída por Lois, o marido Hi (abreviatura de Hiram), os filhos – os gêmeos Dot e Ditto, o bebê Trixie e o adolescente Chip – (33) e o cachorro Dawg.
É importante destacar que os personagens de Hi and Lois são um pouco diferentes da Lois e família mostradas em l954 em Recruta Zero (por exemplo: a Lois de Hi and Lois é loura, enquanto a Lois daquelas tiras de Recruta Zero era morena); no entanto, são basicamente os mesmos.
Mas voltando a falar de Recruta Zero...
Atualmente, as tiras diárias e páginas dominicais de Recruta Zero são assinadas por Mort Walker e seu filho Greg (nascido em dezembro de 1949, Greg Walker já vem há muitos anos colaborando nas histórias do indolente recruta).



Em seus mais de sessenta anos de existência, Recruta Zero tem sido um desfile ininterrupto de gags. E conhecedor do ofício de quadrinhista – portanto, tendo conhecimento de que a História em Quadrinhos é uma arte em que o texto (34) complementa o desenho e vice-versa –, Mort Walker constrói essas gags unindo o que é dito nas falas dos personagens com o que é mostrado nos desenhos (em inúmeras ocasiões, o humor está todo nos desenhos, nas ações e nas expressões dos personagens). Para exemplificar, posso citar a tira datada de 17 de junho de 1969 (tira essa mencionada ainda há pouco neste artigo), na qual a gag termina num tom um tanto melancólico, ao mostrar Zero e o gato amparados um no outro, no alto da escada, sob a luz do luar, sem terem idéia de onde passar o resto da noite.
Mort Walker sabe também que tem pouco espaço – espaço esse que, nos dias atuais, está menor do que aquele que dispunha há cinqüenta ou trinta anos – para narrar as gags, que devem ter começo, meio e fim numa única tira ou numa única página dominical.
As gags de Recruta Zero são de fácil entendimento. Qualquer um pode entendê-las e apreciá-las, sem que seja necessário pensar muito. Mas, para que compreenda cada uma das gags no todo, é preciso que o leitor conheça as características dos personagens da série (precisa saber, por exemplo, que Zero é preguiçoso, que Dentinho é burro, que o General Dureza pensa mais na Dona Tetê do que em comandar o quartel...). Conseqüentemente, as gags de Recruta Zero destinam-se principalmente aos leitores que acompanham assiduamente as peripécias, ou melhor dizendo, os atos pouco recomendáveis dos recrutas e oficiais de Camp Swampy.
A fim de atestar o que estou dizendo, cito a página dominical datada de 1º de julho de 1973 (35): nos dois primeiros quadrinhos, Zero e Quindim estão deitados despreocupadamente numa praia (presume-se que seja uma praia em razão de os recrutas estarem usando calção de banho e da areia que os cercam; e, no quarto quadrinho, fica confirmado que estão mesmo numa praia); no terceiro quadrinho, Zero revela, insatisfeito, que “gosta de vadiar, mas não quando está de licença” – sua insatisfação já se nota no suspiro, “sigh” (36), que dá no quadrinho precedente –; nos quatro quadrinhos seguintes, Zero tenta, por todos os meios, persuadir Quindim a apostar com ele uma corrida (primeiro, até o outro lado da doca; depois, até o outro lado da barraca de refrigerantes), recebendo sempre, como resposta, um sonoro “não”; no sétimo quadrinho, Quindim diz: “Não vou correr com você até o outro lado de coisa alguma!; no oitavo quadrinho, passa ao lado deles uma loura jovem e escultural (ela é mostrada de costas) vestida tão-somente com a parte de baixo de um minúsculo biquíni (37); e, no nono e último quadrinho da página, Zero e Quindim estão correndo atrás da loura semidespida. Essa página pode ser entendida perfeitamente por um leitor ocasional de Recruta Zero; todavia, ela tem mais graça para um leitor constante da série, que sabe que Quindim é um conquistador e apreciador de garotas bonitas.





“(...) a multiplicidade de personagens bem originais (...) e a gama de situações variadas produziram um número inesgotável de gags que garantiram a Recruta Zero um sucesso merecido.”
Pierre Couperie




Existem também algumas gags de Recruta Zero que, para serem entendidas, é necessário que o leitor conheça o universo dos Quadrinhos, visto que apresentam personagens de outras histórias em quadrinhos. Como exemplo, pode ser citada a gag narrada na tira datada de 27 de março de 1967. No primeiro quadrinho da tira, Platão, que está saindo do gabinete do inspetor geral, diz para Zero: “Não perca o seu tempo conversando com o inspetor geral.” Zero pergunta: “E por que não?” E, em seguida, informa: “Eu quero contar-lhe do bando de lunáticos pervertidos que dirige o Quartel Swampy.” No terceiro e último quadrinho, Platão fala, afastando-se: “Esqueça.” Então, pode ser visto, através da janela aberta do gabinete, o tal inspetor (ele está sentado à escrivaninha, olhando para fora da janela, como se encarasse o leitor, com uma expressão de idiota no rosto), que não é outro senão o maior maluco de todos, Alfred E. Neuman. Essa gag só faz sentido para aqueles que sabem que o personagem Alfred E. Neuman é o símbolo da Mad, a mais aloprada e mais popular revista de quadrinhos de humor dos Estados Unidos.



Há certos acontecimentos que se repetem, de tempos a tempos, em Recruta Zero, originando sempre gags diferentes.
Um desses acontecimentos é o Sargento Tainha (às vezes, é outro personagem) pedindo socorro, segurando-se a uma pequena árvore (ela mais parece um galho, de tão fina que é), depois de ter caído de um penhasco. E tal acontecimento deu origem a, pelo menos, vinte tiras e, por conseguinte, vinte gags:

TIRA DATADA DE 20 DE JULHO DE 1962 – Ajoelhado na beirada do penhasco, Dentinho olha o Sargento Tainha, que, segurando-se à árvore, pede socorro. Em seguida, o sargento grita: “RÁPIDO, DENTINHO! USE AS MÃOS!” O recruta começa imediatamente a bater palmas.

TIRA DATADA DE 19 DE MAIO DE 1964 – Ajoelhado na borda do penhasco, Dentinho pede para Tainha segurar-se firme à árvore e informa que voltará logo. Nos dois quadrinhos seguintes, o recruta continua pedindo para o sargento segurar-se firme à árvore. No último quadrinho, Dentinho está novamente ajoelhado na beira do penhasco, falando: “Porque, se não segurar...” O sargento, então, interrompe-o, clamando: “OUTRA PESSOA ME AJUDE!”

TIRA DATADA DE 6 DE DEZEMBRO DE 1965 – No primeiro quadrinho, Zero está andando calmamente, enquanto uma voz indaga por que ele está demorando tanto. A seguir, o recruta, carregando uma corda, reclama: “Corre! Corre! Corre! Rápido! Rápido! Rápido!” No último quadrinho, o Sargento Tainha está se segurando desesperado ao rochedo, já que não encontrou nenhuma arvorezinha providencial em que pudesse se segurar; e Zero, ajoelhado na beirada do penhasco, começa a descer a corda para ele e diz: “Assim, o senhor vai arrumar uma úlcera!”

TIRA DATADA DE 15 DE JULHO DE 1967 – Nessa tira, ao invés do sargento, foi Zero quem caiu do penhasco. Ele está se segurando, com uma das mãos, à árvore e pedindo socorro, enquanto, ali perto, Tainha dorme sentado, encostado a uma árvore. Em seguida, o recruta fala para si mesmo: “Eu sei que ele está lá. Estou escutando-o roncar.” Depois, grita: “RANCHO!” Então, o sargento, que despertou, sai correndo na direção de onde veio o grito, deixando evidente que também vai cair do penhasco.

TIRA DATADA DE 14 DE NOVEMBRO DE 1968 – Ajoelhado na borda do penhasco, Zero informa ao Sargento Tainha (ele está se segurando à árvore) que procurou em toda parte e não conseguiu achar uma corda para puxá-lo. No último quadrinho, o recruta pergunta, deixando o sargento com cara de quem não acredita no que está ouvindo: “Quer um pouco de cola para segurar melhor?”

TIRA DATADA DE 23 DE JANEIRO DE 1969 – No primeiro quadrinho, Dentinho, que está levando uma corda, chega correndo à beira do penhasco e diz: “Eu salvo o senhor, sargento.” No quadrinho seguinte, o Sargento Tainha, que se segura, com uma só mão, à árvore (com a outra mão, ele segura a corda), avisa que já segurou a corda e ordena: “Puxe!” No quadrinho seguinte, Dentinho, que também caiu do penhasco, e Tainha estão se segurando à árvore e à corda.

TIRA DATADA DE 17 DE DEZEMBRO DE 1969 – Ajoelhado na beirada do penhasco, Dentinho estende a mão, para puxar o Sargento Tainha, que está se segurando à árvore. O braço do recruta não é longo o bastante para alcançar a mão do sargento. Tainha ordena, então, que Dentinho consiga um colchão de ar e coloque-o lá embaixo. No quadrinho seguinte, o recruta informa: “O colchão foi colocado bem debaixo do senhor, sargento.” No último quadrinho, quando Tainha já havia se desprendido da árvore e estava caindo, Dentinho pede: “Agora, espere até eu enchê-lo.”

TIRA DATADA DE 16 DE FEVEREIRO DE 1970 – No primeiro quadrinho, Zero aproxima-se de Quindim e indaga: “Já reparou como o cachorro do sargento se parece com ele, em tudo?” Em seguida, os dois recrutas caminham em direção à borda do penhasco. Zero, que carrega uma corda, fala: “Espere só para ver.” Então, é mostrado Oto (dessa vez, foi ele quem caiu do penhasco) se segurando, com uma das patas, à árvore.

TIRA DATADA DE 3 DE MARÇO DE 1971 – No primeiro quadrinho, Zero começa a fazer, com uma pá, um buraco no alto do penhasco, pedindo para o Sargento Tainha agüentar firme e informando-o de que vai cavar um túnel até onde ele está. No segundo quadrinho, Zero prossegue cavando e diz que não vai demorar muito; e o sargento, cada vez mais preocupado, continua se segurando à árvore. No último quadrinho, o túnel já está terminado. Ele desembocou justamente onde estava a árvore, que caiu e levou consigo Tainha. Ao ver o que aconteceu, tudo o que Zero faz é murmurar: “Epa.”

TIRA DATADA DE 12 DE JANEIRO DE 1973 – Segurando-se à árvore, o Sargento Tainha ordena a Platão, que está ajoelhado na beira do penhasco: “Não fique aí sentado, Platão! Pegue uma corda!” Platão replica que não está “sentado”. Então, o sargento manda que ele não fique “ajoelhado” ali. No último quadrinho, ao mesmo tempo que Platão se afasta, para cumprir a ordem, Tainha fala, zangado: “Eu tinha de ser socorrido por um professor de Gramática?!”

TIRA SEM DATA (38) – O Doutor Bonkus e o Sargento Tainha estão na beirada do penhasco. O psiquiatra pergunta: “É este o lugar onde você sempre cai, sargento?” Tainha responde, enquanto Bonkus olha extasiado a paisagem: “Exato, senhor. Gosto de ver o pôr-do-sol... E fico tão embevecido que esqueço onde estou! Veja essa incrível paisagem, senhor! O colorido da tarde. As majestosas nuvens! A explosão dos últimos raios de sol! A triunfante saudação ao dia que morre!! Bem, é exatamente por aí que eu perco meu...” No último quadrinho, o Douror Bonkus, que caiu do penhasco, está se segurando, com as duas mãos, à árvore; e o sargento, não o vendo, indaga: “Doutor?... Doutor Bonkus??”

TIRA SEM DATA (39) – Zero e Roque estão na borda do penhasco, olhando o Sargento Tainha, que, com cara de poucos amigos, se segura à árvore. Zero diz: “Busque uma corda, Roque!” Roque retruca: “Por que eu? Vá você!” Os dois recrutas começam a brigar. No último quadrinho, Platão e Júlio estão na beira do penhasco; e Zero e Roque, agarrados desesperadamente ao sargento, que continua se segurando à árvore. Platão pede para Júlio buscar uma corda. Júlio pergunta, com irritação: “Por que eu?

TIRA DATADA DE 18 DE SETEMBRO DE 1981 – Ajoelhados na beirada do penhasco, Zero e Quindim olham o Sargento Tainha, que se segura à árvore. Zero indaga: “Que está fazendo aí embaixo, sargento?” O sargento responde, enfezado: “Pendurado num frágil arbusto!” No último quadrinho, deixando Tainha com cara de tacho, Zero fala para Quindim: “Eu pensava que ele ia precisar de ajuda, mas parece que sabe o que está fazendo!”

TIRA DATADA DE 29 DE OUTUBRO DE 1992 – Ajoelhado na borda do penhasco, Zero faz uma pergunta cretina para o Sargento Tainha, que está se segurando, com as duas mãos, à árvore: “Que há de errado, sargento?” Enfurecido pela pergunta imbecil, Tainha responde, irritado: “Preciso de ajuda, seu idiota!” E xinga o recruta. No quadrinho seguinte, Zero se afasta, falando que vai dizer que o sargento precisa de ajuda. E, no último quadrinho, sentado numa cadeira, perto da beira do penhasco, e segurando uma caneta e um bloco de anotações, o Doutor Bonkus pede ao Sargento Tainha (é muito engraçada a cara que Tainha faz), que continua se segurando à árvore: “Agora, fale-me da sua mãe.”

TIRA DATADA DE 13 DE MARÇO DE 1995 – Ajoelhado na beirada do penhasco, Zero informa ao Sargento Tainha que chamou os bombeiros para salvá-lo. Segurando-se à árvore, o sargento fala que espera que eles cheguem logo. E o recruta indaga, deixando Tainha enfurecido: “Se ficarem retidos no trânsito, posso ficar com sua televisão?”

TIRA DATADA DE 8 DE MAIO DE 1995 – Ajoelhado na borda do penhasco, Zero olha o Sargento Tainha (ele se segura, com as duas mãos, à árvore) e pergunta: “Como é que um galhinho pode ter uma raiz profunda o bastante para agüentar um barril como o senhor?” No último quadrinho, Zero diz, ao ver que a árvore despencou e levou consigo o sargento: “Eu provavelmente não deveria ter perguntado.”

TIRA DATADA DE 21 DE MAIO DE 1998 – Zero está na beira do penhasco, carregando uma corda. Ao ouvir alguém gritar “socorro”, ele vira a cabeça para o lado de onde partiu o grito e fala: “Espere! Alguém também está chamando por socorro!” No quadrinho seguinte, o Sargento Tainha, segurando-se, com as duas mãos, à árvore, diz que odeia (todo o ódio que sente transparece em seu rosto) “deixar a ‘chamada em espera’.”

TIRA DATADA DE 18 DE SETEMBRO DE 2003 – No primeiro quadrinho, Oto late desesperado, fazendo Quindim e Zero olharem para ele. Então, Quindim indaga: “Você acha que alguém precisa de ajuda?” E Zero retruca: “Não. Ele sempre faz assim, quando quer comida.” No último quadrinho, Oto, na beirada do penhasco, olha para o Sargento Tainha, que se segura, com as duas mãos, à árvore, e pensa: “Sinto, sargento. Eu tenho de aperfeiçoar meu latido ‘de socorro’.”

TIRA DATADA DE 14 DE OUTUBRO DE 2003 – Na borda do penhasco, Dentinho olha para baixo e pergunta: “Que está fazendo aí embaixo, sargento?” O Sargento Tainha, que está mais uma vez se segurando à árvore, replica: “Apreciando a vista, seu imbecil!” No último quadrinho, o recruta está ao lado do sargento, segurando-se à árvore e dizendo: “Nossa! O senhor tem razão! É muito mais bonito daqui.”

TIRA DATADA DE 28 DE DEZEMBRO DE 2004 – Na beira do penhasco, o Tenente Mironga olha para baixo e vê Quindim segurando-se aos pés de Zero, que se segura ao sargento Tainha, que, por sua vez, está se segurando, com as duas mãos à árvore, e falando: “Não pergunte!”



“É irônico que Recruta Zero, um dos personagens mais preguiçosos (40) que surgiu nos quadrinhos, tenha sido criado por Mort Walker, um dos mais trabalhadores e prolíficos quadrinhistas de todos os tempos.”
Brian Walker




“Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, quadrinhistas brasileiros andaram criando histórias hilárias com o Recruta Zero – histórias essas publicadas nos gibis da Rio Gráfica e Editora. Porém, as tiras e páginas dominicais realizadas por Mort Walker têm um humor muito mais demolidor.”
Antero Leivas




“Eu sempre achei que Recruta Zero tem um humor excepcional. Em termos de fazer uma piada rápida, numa tirinha só, Mort Walker é perfeito.”
Álvaro de Moya




“Personagens interessantes e envolventes. Piadas engraçadas o suficiente para que o leitor não pense que perdeu o tempo. O desenho tem de apenas interpretar a idéia, não precisando ser perfeito. (...) evito comentar assuntos políticos ou a guerra. Zero permanece em treinamento básico, o treinamento simples que cada soldado tem de fazer. ”
Mort Walker, dando a receita do sucesso de Recruta Zero




Para finalizar, faço minhas as palavras do jornalista gaúcho Goida, que afirmou que Recruta Zero, “uma das tiras preferidas dentro e fora dos Estados Unidos, é a prova que o humor e a sátira são a melhor forma de encararmos a realidade massacrante do dia-a-dia”.

 

NOTAS:

(1) No Brasil, Beetle Bailey apareceu pela primeira vez em dezembro de 1952, em tão-somente uma página (a 17, na qual foi estampada a página dominical datada de 21 de setembro de 1952) do primeiro – e talvez único – número do tablóide A Mão Negra, lançado pela Editora Novo Mundo, do Rio de Janeiro. Chamava-se, então, Recruta 23.

(2) Djalma Sampaio e Wilson Drummond (1919?-1975), que trabalharam durante muitos anos nas editoras cariocas O Globo Juvenil e Rio Gráfica (ambas de propriedade do jornalista e empresário Roberto Marinho, um dos responsáveis pela difusão das histórias em quadrinhos em nosso país), batizaram com nomes brasileiros inúmeros personagens dos quadrinhos norte-americanos.

(3) O primeiro número do gibi Recruta Zero é, conforme disse meu amigo Fábio Santoro, “uma das mais raras revistas em quadrinhos editadas no Brasil, autêntico item de colecionador”, possivelmente por ter tido uma tiragem pequena, já que talvez os editores não acreditassem no sucesso da publicação.

(4) Segundo algumas fontes, o programa era transmitido pela Rádio Nacional, do Rio de Janeiro.

(5) Não posso deixar de mencionar que, lendo, há alguns dias, o livro PRA-7 a Primeira Rádio do Interior do Brasil (Ribeirão Preto, Edição do Autor, 2005, p. 120), da autoria dos jornalistas André Luís Rezende e Gil Santiago, fiquei sabendo que Aloysio Silva Araújo produziu, por volta de 1956-1957, na PRA-7 Rádio Club de Ribeirão Preto, o programa humorístico Recruta 23, cujo protagonista era possivelmente o mesmo soldado trapalhão do esquete apresentado na Rádio Mayrink Veiga.

(6) Apesar de serem editados com desleixo, “presenteando” os leitores com inúmeros quadrinhos adulterados (isso comprova a falta de competência da maior parte dos nossos editores, que estaria melhor trabalhando em locais onde não é exigido raciocinar), esses livros – ao todo, a Saber lançou cinqüenta volumes: 41 de Zé o Soldado Raso e nove de Zé o Soldado Raso Edição Extra, nos quais foram conservados os nomes originais da maioria dos personagens da série – acabaram tornando-se artigos de colecionador, já que publicaram quase todas as tiras de Beetle Bailey produzidas entre 1952 e 1970.

(7) Idealizado, ao que nos consta, por Álvaro de Moya, um profundo conhecedor de histórias em quadrinhos e um dos primeiros intelectuais brasileiros a reconhecer o valor dos Quadrinhos (e isso numa época, início da década de 1950, em que as histórias em quadrinhos eram vistas como leitura para delinqüentes, analfabetos e débeis mentais), Super Plá (1971, sete números) foi publicado pela Editora Super Plá, cujo diretor superintendente era Hélio Fittipaldi, filho de Savério Fittipaldi.

(8) Gibi Semanal, que saía às quartas-feiras e cujo primeiro número chegou às bancas de jornal em 30 de outubro de 1974, foi uma tentativa de reviver os tablóides de histórias em quadrinhos – tablóides como Suplemento Juvenil, O Globo Juvenil e A Gazeta Edição Infantil, que, em seu apogeu, chegavam a sair três vezes por semana –, que tantas alegrias proporcionaram aos leitores, nas décadas de 1930 e 1940. Porém, do mesmo modo que Suplemento em Quadrinhos (São Paulo, Linográfica Editora, dezembro de 1967, três números; edição de Paulo C. Marti e direção de Álvaro de Moya) e Super Plá, Gibi Semanal teve uma curta existência (seu último número foi o 40, datado de 30 de julho de 1975), provando que, infelizmente, a época dos tablóides de quadrinhos já havia passado.

(9) As histórias de Zero foram publicadas nos seguintes números do Gibi Semanal: 1 a 24, 26, 31, 33, 35, 36, 38 e 39.

(10) Certa vez, Mort Walker recebeu a seguinte carta (como nem todos os leitores sabem Inglês, eu a traduzi para o Português):
“17 de junho de 1969
Caro Mort Walker:
Você deve se lembrar de que eu estava em sua companhia na França, durante a Segunda Guerra Mundial; e fui mortalmente ferido. Acreditando que o fim estava próximo, chamei-o e contei-lhe a respeito de
Recruta Zero, a história em quadrinhos que eu pretendia fazer quando deixasse o serviço militar. Eu sabia que você era um oficial jovem e bom em quem eu podia confiar.
Por alguma razão, que desconheço, fui dado como morto, apesar de, na verdade, estar, nesses anos todos, confinado em hospitais. Agora, os médicos dizem que estou completamente restabelecido e apto a produzir as histórias do Recruta Zero. (Ver, em anexo, declaração do médico).
Quero agradecer-lhe o bom trabalho que tem feito em minha história em quadrinhos. Faça o favor de me informar quando será conveniente para mim aparecer e assumir legalmente meu cargo.
Sinceramente,
AKB”

Há três coisas que AKB (Mort Walker não teve mais notícias dele) desconhecia, quando escreveu essa carta:
1 – Mort Walker nunca esteve na França, durante a Segunda Mundial;
2 – Em seus primeiros meses de existência, Recruta Zero era uma história em quadrinhos ambientada numa universidade;
3 – Inicialmente, Zero (Beetle) devia se chamar Spider.

(11) Numa propaganda da época, a King Features pedia: “Mande ao seu soldado no oriente longínquo algo que ele realmente precisa... Seu jornal favorito com o Recruta Zero.”

(12) As páginas dominicais de Recruta Zero começaram a ser publicadas em 14 de setembro de 1952.

(13) Foi em 1991 que O Estado de S. Paulo começou a publicar as tiras de Recruta Zero.

(14) Em novembro de 2009, a L&PM lançou o primeiro volume (e, até o presente momento, já foram lançados mais três volumes) de Peanuts Completo. Ao todo, serão 25 volumes em que estarão reunidas todas as tiras e páginas dominicais de Peanuts realizadas por Charles Schulz (1922-2000). Alguma outra editora brasileira – ou a própria L&PM – poderia seguir esse exemplo louvável e lançar em álbuns todas as histórias de Recruta Zero realizadas por Mort Walker.

(15) A primeira tira de Recruta Zero foi publicada nos jornais norte-americanos em 4 de setembro de 1950 (lamentavelmente, as primeiras seis tiras de Recruta Zero, estampadas nos jornais estadunidenses entre 4 e 9 de setembro de 1950, não foram publicadas em Recruta Zero Ano Um, álbum editado por Franco de Rosa e lançado na primavera de 2006 pela Opera Graphica Editora). E, nessa primeira tira, já fica evidente algumas características do personagem (ele chega de trem à universidade, levando apenas uma escova de dentes. Naturalmente, seu colega de quarto se espanta e pergunta: “Você pretende passar oito meses só com isso? E Zero responde, com descaramento: “Meu amigo, pra que servem os colegas de quarto?).

(16) Pouco tempo depois de haver ingressado no Exército, Zero deixou de fumar cachimbo. E, na tira datada de 9 de outubro de 1951, pode ser visto fumando um cigarro que “filou” de Foguinho.

(17) Foi o editor do jornal Philadelphia Bulletin que sugeriu a Mort Walker que Zero deveria se alistar no Exército.

(18) Em 1965, Recruta Zero já aparecia em mais de mil jornais, igualando-se a Blondie, de Chic Young (Murat Bernard Young, 1901-1973). E, em 2010, o dia-a-dia dos recrutas e oficiais de Camp Swampy era acompanhado pelos leitores de cerca de 1800 jornais.

(19) Não foi de uma hora para outra que Zero foi mostrado no Exército e vestindo um uniforme. Pelo menos numa ocasião, Mort Walker deu indicações aos leitores de que Zero iria entrar para o Exército e vestir um uniforme. Foi na tira datada de 3 de março de 1951, quando, para se esconder de Buzz, Zero entra num posto de recrutamento do Exército e são mostradas duas mãos ávidas para agarrá-lo.

(20) Após a tira datada de 16 de março de 1951, quando Zero despede-se da Universidade de Rockview, dando “até logo, busca do saber”, quase todos os personagens – Amargoso, Calouro (Freshman), Canastrta Suja, Platão, Zé Chulé (Sweatsock), prof. Souza (prof. Heckle), prof. Artur (prof. Atwel), sra. Lima (mrs. Citrus), entre outros – presentes nas histórias, até então, desapareceram (Amargoso, Canastra Suja, Calouro e Zé Chulé reapareceram na tira datada de 5 de janeiro de 1963, quando Zero, acompanhado pelo Sargento Tainha, vai visttar sua cidade natal; e, na página dominical de 20 de setembro de 2009, ao sofrer um ataque de nostalgia, Zero recorda-se de seus amigos de universidade e de Buzz). Buzz (alguns anos mais tarde, ela também desapareceria, sendo substituída pela Bunny) e os pais de Zero foram os únicos personagens surgidos nos primeiros seis meses da série que continuaram a aparecer, ainda que esporadicamente, em Recruta Zero.

(21) Do mesmo modo que ocorre na maioria das histórias em quadrinhos, os personagens de Recruta Zero não envelhecem e têm a mesma idade há mais de sessenta anos.

(22) Na tira datada de 26 de junho de 1958, Oto já havia aparecido trajando uniforme e andando em duas patas. E, na tira datada de 26 de junho de 1973, ele pensa: “Eu costumava ser um bom cão, até que me vestiram e me ensinaram a ligar o televisor.”

(23) Na tira datada de 7 de julho de 1967, há uma batalha entre Júlio e Cosme, na caserna: enquanto aquele procura purificar o ar, usando um aerossol com perfume de flores, este solta baforadas de seu charuto.

(24) Ao longo dos anos, o General Dureza teve outras secretárias que, iguais à Dona Tetê, eram louras, bonitas e burras. Entretanto, todas elas apareceram uma única vez em Recruta Zero; Dona Tetê foi a única que se tornou personagem fixa da série.

(25) Rolf apareceu pela primeira vez nas histórias na tira datada de 9 de setembro de 1982 e desapareceu completamente nos meados da década de 1980.

(26) Para criar Dona Tetê, Mort Walker deve ter se inspirado nas personagens interpretadas pelas glamourosas Marilyn Monroe (Norma Jean Baker, 1926-1962) e Jayne Mansfield (Vera Jayne Palmer, 1933-1967) em filmes como O Pecado Mora ao Lado (The Seven Year Itch, 1955; direção de Billy Wilder) e Sabes o Que Quero (The Girl Can’t Help It, 1956; direção de Frank Tashlin).

(27) Geralmente, Dona Tetê aparece nas histórias às quartas-feiras, usando quase sempre um vestido preto (às vezes, Dona Tetê está presente nas páginas dominicais de Recruta Zero; então, esse vestido é vermelho) e um colar.



(28) Uma dessas feministas, certamente uma senhora infeliz e mal-amada, reclamou, numa carta: “Nós, mulheres, desaprovamos o fato de fazer Dona Tetê um objeto sexual. Pensa que é engraçado um bode velho como o general perseguir uma garota bonita de minissaia? O senhor tem algum problema, mr. Walker? Só porque possui um pênis não o torna superior a outros seres humanos.”

(29) Quando o Tenente Mironga surgiu, Stars and Stripes cancelou mais uma vez Recruta Zero, alegando que o personagem estava fazendo apologia da causa negra e que isso poderia provocar conflitos raciais. Mas o senador William Proxmire (1915-2005), do estado de Wisconsin, fez os editores mudarem de opinião; e as histórias de Zero voltaram a ser publicadas em Stars and Stripes.

(30) No mesmo ano em que o Tenente Mironga surgia em Recruta Zero, estreavam nos jornais dos Estados Unidos duas histórias em quadrinhos protagonizadas por negros:
Friday Foster – Era escrita por Jim Lawrence, desenhada pelo espanhol Jorge Longaron e distribuída pela Chicago Tribune-New York News Syndicate. Estreou nos jornais em 18 de janeiro de 1970. Sua personagem-título é uma atraente e sofisticada afro-americana que se torna fotógrafa profissional de Moda. No início de 1974, os desenhos das histórias passaram a ser realizados pelo norte-americano Gray Morrow (1934-2001), talvez devido à distância que separava Jim Lawrence (morava em Nova Jersey) de Jorge Longaron (vivia na Espanha). Deixou de ser publicada em maio de 1974, sem ter atraído a atenção do público negro. Em 1975, chegou aos cinemas estadunidenses o filme Friday Foster, no qual o papel principal foi interpretado pela bela e talentosa Pam Grier, uma das estrelas do Blaxploitation, gênero cinematográdico que surgiu, floresceu e desapareceu nos anos 1970.



QUINCY – Criada pelo jamaicano Ted Shearer (1919-1992) e distribuída pela King Features Syndicate, foi publicada de 1970 (sua estréia ocorreu em junho) até 1986. No Brasil, apareceu em Super Plá, com o título de Espoleta.



A respeito de Quincy, foi dito o seguinte na introdução do volume 6 da Colecção Banda Desenhada Adultos – Quincy (Lisboa, Portugal Press, 1971, p. 4): “A King Features (...) fez um lançamento especial para Quincy. E eis que esse garoto negro, atrevido, de resposta pronta na língua, um pouco imaginativo como são todas as crianças, preso a uma família que vive modestamente o dia-a-dia, salta para os jornais; e, se por um lado não pode ser aceito por alguns, devido à sua cor de pele, é recebido pela maioria com o carinho desejado. E a comunidade negra regozija-se com o fato, entusiasma-se, principalmente quando vê os problemas nascidos da vida quotidiana serem tratados com a graça e a desenvoltura da arte de Ted Shearer.”

(31) Nos Estados Unidos, essas tiras foram publicadas nos jornais entre 12 e 24 de abril de 1954. Em nosso país, algumas delas apareceram em O Melhor do Recruta Zero, álbum lançado no verão de 1987 pela L&PM, de Porto Alegre; no número 5 da Coleção Opera King, publicado na primavera de 2002 pela Editora Opera Graphica, de São Paulo; e no número 2 de Zé o Soldado Raso, que chegou às bancas de jornal em 1970.

(32) Hi and Lois foi, durante muitos anos, escrita por Mort Walker e desenhada por Dik Browne (1917-1989). Nos dias de hoje, os roteiros das histórias são escritos por dois filhos de Mort, Brian e Greg; e os desenhos, feitos por um filho de Dik, Chance (nascido em junho de 1948).



(33) Lois, Hi e seus filhos reapareceram em Recruta Zero, nas tiras de 22 e 25 de dezembro de 2003, quando Zero, acompanhado do Sargento Tainha e Oto, vai visitar a casa dos pais, para passar o feriado de Natal.



(34) Devo lembrar que existem várias histórias em quadrinhos – como exemplos, podem ser citadas: a alemã Vater und Sohn, de E. O. Plauen; a espanhola Lola, de Iñigo; a dinamarquesa Ferd’nand, de Mik (Henning Dahl Mikkelsen); a francesa Les Aventures du Professeur Nimbus, que, durante muitos anos, foi publicada no rodapé da segunda página do jornal paulistano A Gazeta; a holandesa Simpleman, de Wim (Wim Van Wieringen); a inglesa Colonel Up and Mr. Down, de Walter (Walter Goetz); e a norte-americana Colonel Potterby and the Duchess, de Chic Young – em que praticamente não há texto algum (ocasionalmente, aparecem algumas onomatopéias ou algumas palavras numa tabuleta), já que os personagens nunca dizem nada, permanecem o tempo todo calados.



(35) Em nosso país, essa página foi publicada na edição de 4 de novembro de 1973 de O Globinho Supercolorido, o suplemento dominical de quadrinhos do jornal O Globo, do Rio de Janeiro.

(36) Em O Globinho Supercolorido, o “sigh” transformou-se – absurda e erradamente – em “Isso é que é vida!”, revelando o total despreparo de alguns dos nossos tradutores de histórias em quadrinhos.

(37) Alguém (não sei se homem ou mulher) não gostou de a loura ter sido mostrada não usando a parte de cima do biquíni e enviou a Mort Walker uma carta malcriada, que, entre outras coisas, dizia: “Você perdeu o juízo? Certamente, deve ter consciência de que corrompeu inúmeras crianças, ao mostrar, nos suplementos dominicais de quadrinhos, uma garota de topless!”

(38) Nos Estados Unidos, essa tira deve ter sido publicada entre os últimos anos da década de 1960 e os primeiros anos da década de 1970. No Brasil, ela apareceu na página 80 de Coleção Quadrinhos de Bolso – Recruta Zero (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1976).

(39) Nos Estados Unidos, essa tira deve ter sido publicada entre os últimos anos da década de 1960 e os primeiros anos da década de 1970. No Brasil, ela apareceu na página 81 de Coleção Quadrinhos de Bolso – Recruta Zero.

(40) Para comprovar o quanto Zero é preguiçoso, basta ver e ler a tira datada de 16 de maio de 2011. No primeiro quadrinho da tira, o Sargento Tainha diz alegremente ao recruta: “Hoje é o aniversário de sua entrada no Exército!” Zero, que está deitado na cama, replica, com satisfação: “Eu sei.” No quadrinho seguinte, Tainha olha admirado para Zero, que continua deitado e sorrindo. No último quadrinho da tira, Tainha exibe uma expressão ambígua no rosto, enquanto Zero (ele ainda está deitado e sorrindo) fala: “Estou comemorando.”

 

BIBLIOGRAFIA SELECIONADA

Para escrever este artigo, foram consultados:

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COMA, Javier. Del Gato Félix al Gato Fritz: Historia de los Comics, Barcelona, Gustavo Gili, 1979, pp. 180-184.

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CORTE, Carlo della. “Caro Soldato...”, in Mort Walker, Il Mondo È una Caserma, Milão, Arnoldo Mondadori, 1970.

COUPERIE, Pierre. “Beetle Bailey” (verbete), in Pierre Couperie, Henri Filippini & Claude Moliterni (organizadores), Encyclopédie de la Bande Dessinée volume 1, s. l., Serg, 1974, pp. 82-83.

GOIDA & KLEINERT, André. “WALKER, Mort” (verbete), in Enciclopédia dos Quadrinhos, Porto Alegre, L&PM, 2011, pp. 496-497.

LÉGUÊBE, Éric. Voyage en Cartoonland, s. l., Serg, 1977, pp. 132-139. Voyage en Cartoonland é um livro que reúne entrevistas com dezessete quadrinhistas norte-americanos; e a entrevista com Mort Walker foi realizada em sua casa, em Greenwich, no estado de Connecticut, em 22 de abril de 1976.

LEIVAS, Antero. “Recruta Zero”, in Coleção King Komix número 2, São Paulo, Editora Opera Graphica, [2001], pp. 4-7.

LENT, John A. “BEETLE BAILEY” (verbete), in Maurice Horn (organizador), 100 Years of American Newspaper Comics, Nova York, Gramercy, 1996, pp. 51-53.

MARSCHALL, Richard. “Beetle Bailey” (verbete), in Maurice Horn (organizador), The World Encyclopedia of Comics, Nova York, Chelsea House, 1976, pp. 105-106.

__________. “WALKER, ADDISON MORTIMER” (verbete), in Maurice Horn (organizador), The World Encyclopedia of Comics, p. 690.

“Mort Walker Talks Candidly About His Career, Comic’s Future, History and Funny Stuff”, in Nemo: The Classic Comics Library número 5, Stamford, Fantagraphics, fevereiro de 1984, pp. 22-30 e 32-37. Nessa entrevista, feita por Richard Marschall e que teve a participação de Brian Walker, Mort Walker falou muito a respeito de Recruta Zero.

MOYA, Álvaro de. História da História em Quadrinhos, Porto Alegre, L&PM, verão de 1987, p. 181.

__________. “Recruta Zero, A Subversão da Hierarquia Militar”, in Vapt Vupt, São Paulo, Clemente & Gramani, 2003, pp. 80-83. O livro Vapt Vupt, produzido por Carlos Mann e Franco de Rosa, é uma coletânea de artigos que Álvaro de Moya escreveu, entre 1991 e 1998, para a Revista Abigraf; e “Recruta Zero, A Subversão da Hierarquia Militar” foi publicado no número 154 (datado de setembro/outubro de 1994) da Revista Abigraf.

ROBINSON, Jerry. The Comics: An Illustrated History of Comic Strip Art, Nova York, G. Putnam’s Sons, 1974, pp. 107 e 186-188.

SANTORO, Fábio. “Ensaio para uma Quadrinhografia Brasileira do Recruta Zero... E Outras Curiosidades”, in Recruta Zero Ano Um, São Paulo, Opera Graphica Editora, primavera de 2006, pp. 16-23. Esse é um texto fundamental para todos aqueles que desejam saber, com riqueza de pormenores, as publicações brasileiras em que, durante mais de cinco décadas, Recruta Zero esteve presente.

STONE, Barry. “Beetle Bailey”, in Paul Gravett (organizador geral), 1001 Comics You Must Read Before You Die, Londres, Quintessence Editions, 2011, p. 161.

STRAZZULLA, Gaetano. “Walker, Mort” (verbete), in I Fumetti volume 1º (La Storia - Gli Autori), Florença, Sansoni, 1980, pp. 196-197.

__________. “Beetle Bailey” (verbete), in I Fumetti volume 2º (I Personaggi), Florença, Sansoni, 1980, pp. 228-229.

WALKER, Brian. The Comics Since 1945, Nova York, Abrams, 2006, pp. 74-75 e 97-101.

WALKER, Mort. Backstage at the Strips, s. l., A & W Visual Library, 1975. Nesse livro, imprescindível para os pesquisadores de Quadrinhos, Mort Walker relatou, além dos bastidores das histórias em quadrinhos realizadas para os jornais norte-americanos, parte de sua trajetória como quadrinhista e cartunista. No final do livro, há uma seleção de tiras diárias e páginas dominicais de Recruta Zero.

__________. O Melhor do Recruta Zero, tradução de Marco Aurélio Poli, Porto Alegre, L&PM, verão de 1987, 56 p. Esse álbum, pertencente à Coleção Quadrinhos L&PM, é uma coletânea de tiras diárias e páginas dominicais (todas publicadas originalmente na década de 1950) do Recruta Zero. A seleção foi feita pelo próprio Mort Walker, que também contou um pouco da história de Recruta Zero.

__________. O Melhor do Recruta Zero 2, tradução de Marco Aurélio Poli, L&PM, verão de 1988, 48 p. Esse álbum, pertencente à Coleção Quadrinhos L&PM, é uma coletânea de tiras diárias e páginas dominicais (todas publicadas originalmente entre 1962 e 1981) do Recruta Zero. A seleção foi feita pelo próprio Mort Walker, que também contou um pouco da história de Recruta Zero.

__________. Recruta Zero Ano Um, tradução de Fernando Moretti, 160 p. Nesse luxuoso álbum – em grande formato (26,5x36 cm) e capa dura – da Opera Graphica Editora, estão reunidos o primeiro ano das tiras diárias (tiras de 11 de setembro de 1950 a 31 de dezembro de 1951) de Recruta Zero e o primeiro ano das páginas dominicais (páginas dominicais de 14 de setembro de 1952 a 20 de setembro de 1953) de Recruta Zero.

“WALKER Mort” (verbete), in Marjorie Alessandrini (organizadora), Encyclopédie des Bandes Dessinées, Paris, Albin Michel, 1979, pp. 235-236.

 

Quero agradecer ao desenhista e quadrinhista José Menezes e ao radialista, jornalista e professor universitário Gil Santiago pelas informações dadas a respeito do Recruta Zero e do Recruta 23. Sem essas informações, o presente artigo teria ficado incompleto.

 

Concluído em fevereiro de 2012, este artigo é baseado num texto que escrevi em 1988 e que foi publicado pelo saudoso Natalício Zarranz no número 10 do Especial do Mirim Clube do Brasil.