Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

AFINAL, QUANTO VALE UM DESENHO ORIGINAL DE HISTÓRIA EM QUADRINHOS?
Mort Walker



No dia 2 de maio de 1969, num Tribunal Federal em Bridgeport, no estado de Connecticut, foi tomada uma poderosa decisão. A História em Quadrinhos foi oficialmente declarada “arte”, perante os olhos da Lei. GASP!
O duro ponto de vista do Governo no que se relacionava com os desenhos originais de histórias em quadrinhos consistia em não lhes dar o mínimo valor como trabalho artístico, objeto de pesquisa com significado social ou como algo que pudesse ser colecionado... pois não dariam por eles nem sequer um centavo. THUD!
Em 1964, mil e cinqüenta e cinco desenhos originais de Recruta Zero foram doados para a Syracuse University Manuscript Collection, que coleciona os trabalhos de artistas, escritores, arquitetos, políticos etc. (espera- se que, no futuro, este se torne um dos maiores centros de pesquisa do país). Os originais de Recruta Zero foram avaliados por Sidney Bergen, um especialista em Arte (ele é de Nova York), e por Irving Tarrant, um avaliador de Chicago, que já avaliaram mais de sessenta coleções de histórias em quadrinhos, assim como outros trabalhos de Arte. E ambos chegaram aproximadamente à mesma conclusão: os 1055 desenhos valiam cinqüenta e um mil dólares. BOIIING!
Depois de conferenciar com alguns advogados para me certificar de que tudo estava legal, fiz a dedução no meu imposto de renda. O Fisco não concordou e aplicou-me mil dólares de multa! K-CHUNG!
Bem, ainda hoje nãao compreendo como é que eles fizeram aquilo. Bolas, Jean, a minha mulher, pode levar um velho par de tênis à Thrift Shop e deduzir vinte e cinco centavos... mas não me dariam nem o dinheiro de um jornal por mais de mil originais de Recruta Zero! Claro que paguei o que eles diziam que eu lhes devia... Mas fui à forra. E, em 29 de abril de 1969, minha mulher e eu apresentamo-nos perante o Juiz e o Júri e ouvimos as palavras ecoarem no tribunal: “Jean e Mort Walker contra o Governo dos Estados Unidos.” NOSSA!
Passamos quatro dias no tribunal. Milton Caniff, o criador de Terry e os Piratas e Steve Canyon, disse palavras elogiosas a respeito de meu trabalho como quadrinhista. Sidney Bergen demonstrou o nível dos trabalhos e provou como podiam ser vendidos por setenta e cinco dólares cada. Irving Tarrant leu alguns dos originais e pôs toda a sala a rir. O dr. Martin Bush, fez um apanhado das coleções da Syracuse University e a razão porque valia a pena comprar originais de Recruta Zero. Quanto ao advogado do Governo... Bem, ele sublinhou vários pontos: tentou provar que não havia mercado para os quadrinhos (isto é, não há quem compre originais de histórias em quadrinhos como se fossem quadros), disse que a História em Quadrinhos não é arte que se pendure numa parede, apregoou que o único valor de uma história em quadrinhos consiste em sua reprodução em jornais e revistas e que logo o original deixa de interessar. Por fim, falou que a Syracuse University Manuscript Collection estava a colecionar um “monte de porcaria”. TSC! TSC!
Eu falei ao Júri das cartas que recebo diariamente solicitando os meus originais e das vendas que havia feito, embora sublinhasse que não me agradaram, já que não cobriam sequer os impostos. O advogado do Governo conseguiu ir tão longe e perguntou-me se eu já não me sentia suficientemente compensado pelo meu trabalho na King Features. Pareceu-me bastante idiota tal pergunta, sobretudo por ter sido feita por alguém representando o Governo, que leva mais de oitenta por cento do que eu recebo. O Governo é que deveria sentir-se recompensado! POW!
O Governo surgiu com duas testemunhas. A primeira era um velho triste que vendia objetos de Arte em Nova York e que pensava que todos que se interessam por histórias em quadrinhos são débeis mentais ou tarados. Nunca tinha lido nem visto uma história em quadrinhos. Achava que os desenhos de Recruta Zero eram muito simplistas e tinham o aspecto de terem sido feitos “por alguém que recebera uma ou duas lições de Desenho por correspondência” (ora, eu tive cinco ou seis!). E com isso concluía que os originais não tinham qualquer valor... ou poderiam ser vendidos por, no máximo, cinqüenta centavos numa loja de livros usados. ARGH!
A segunda testemunha do Governo era o dr. David Manning White, que dizia ser um perito em História em Quadrinhos (segundo suas próprias palavras, tornara-se perito em Quadrinhos após ter assistido a algumas reuniões de quadrinhistas e haver obtido informações da nossa parte para publicar uns livros sobre o assunto). Dizia também ser meu amigo. Entretanto, disse que não era capaz de dar preço a um original de história em quadrinhos, já que nunca comprara nenhum nem vira nenhum à venda. Diante disso, o Juiz permitiu-lhe que examinasse um dos meus originais e fizesse uma avaliação. Após examiná-lo, o dr. White falou que, em sua opinião, ele valia cinco dólares. Portanto, os 1055 originais valiam pouco mais de cinco mil dólares. YECCCH!
Eu trouxera para o tribunal dois advogados: Ted Coyer, que cuida de todos os meus impostos; e Jack Lambert, que apresentou o caso ao Júri. Fizeram um magnífico trabalho. Compreenderam que este caso afetaria o futuro de todos os quadrinhistas e, inclusive, o gesto de doar desenhos originais de histórias em quadrinhos para museus e universidades. A apresentação que Jack fez ao Júri foi tão eloqüente, tão bem preparada e com tão irrefutável lógica que imediatamente percebemos que ele tinha ganho. O Júri saiu, e o Juiz cumprimentou os advogados pela apresentação do caso. Disse também que achava interessante o meu trabalho e confessou que era admirador de Recruta Zero. GLÓRIA SUPREMA!
O Júri ficou reunido durante umas quatro horas, e por várias vezes ouvimos os seus risos. A decisão final foi apresentada: os originais foram avaliados em vinte e oito mil dólares. Para chegar a esse valor, os jurados somaram os cinco mil dólares da avaliação do dr. White com os cinqüenta e um mil que eu pedia; depois, dividiram o resultado da soma por dois. BLEAH!
Os advogados ficaram doidos (advogados gostam de ganhar); o Juiz ficou furioso, pois compreendeu que o Júri menosprezara a sua decisão; e eu fiquei desapontado. Mas vinte e oito mil dólares era muito mais do que o nada que o Governo queria dar. Pelo menos, estabelecemos que os originais de uma história em quadrinhos valem alguma coisa. GRAÇAS A DEUS!
Assim que saímos do prédio do tribunal, duas senhoras que tinham feito parte do Júri aproximaram-se de nós. Uma delas queixava-se de terríveis dores de cabeça. Em seguida informou: “Um dos jurados disse que os originais não valiam nada. Nós e todos os demais achávamos que eles valiam mesmo cinqüenta e um mil dólares. Mas o sujeito gritou e esperneou tanto que achamos melhor cedermos um pouco. Foi o modo que encontramos para ganhar e evitar um novo julgamento. Entretanto, sinto-me tão envergonhada, mr. Walker, por havermos dado um preço tão ridículo ao seu trabalho. Não desejava insultá-lo desta maneira... Afinal de contas, o senhor é um ARTISTA!” OLHA, MÃE! EU SOU UM ARTISTA!

 

Este texto foi transcrito do número 121 da revista Jornal do Cuto (Lisboa, Portugal Press, 26 de novembro de 1975, pp. 15-17)