Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

VIAJANDO COM PETER PAN
Perce Polegatto



Alguns versos (“Oh England, my lionheart! Peter Pan steals the kids in Kensington Park.”) da canção “Oh England, My Lionheart”, da compositora e intérprete Kate Bush, fizeram-me recordar num instante, surpreendentemente, imagens da infância, ilustrações em páginas abertas, arrastando-me ainda hoje para fora de minha casa, de meu escritório, de minha residência na realidade.
Kate, como boa inglesa, traz consigo a marca desse personagem clássico, Peter Pan, o menino eterno, com o poder de voar, que ela recorda em sua sensível canção, enquanto expõe outros aspectos típicos de sua terra natal.
Em meu texto anterior, “Walt Disney nos Deixou Órfãos”, esse herói travesso e malicioso é mencionado como exemplo de alguém que não tem família. E não tem mesmo. Perseguindo sua própria sombra, que lhe foge desafiadora, Peter entra pela janela do andar superior da casa dos Darling, onde volta a encontrar Wendy, seu porto seguro, sua âncora em meio a tantas aventuras avulsas. Wendy o ajuda com a sombra inquieta e com carinho a costura, prendendo-a aos seus sapatos de pano, para que ela não mais lhe escape.
Os filhos menores dos Darling chegam em seguida, felizes por reverem seu amigo-herói voador. Não demora, Peter os convida a todos a partirem para a Terra do Nunca, inspirando-lhes novas e excitantes aventuras. Mas a sensata Wendy se recusa, explicando-lhe que é responsável pelos irmãos menores, que seus pais saíram de casa e confiam nela, que não pode (nem quer, enfim) decepcioná-los. Consciente, lúcida e centrada, a jovem Wendy Darling sabe que não deve ceder a esses ímpetos tentadores, pois suas decisões são fundamentadas na razão.
Entendendo que não conseguirá persuadi-la, Peter recorre ao seu plano B: a minúscula fada Tinker Bell, que traz consigo o pó mágico de pirlimpimpim. Com esse pozinho, todos passam a ter pensamentos felizes e adquirem o dom de voar. Wendy, até então ajuizada e boa argumentadora, esquece-se imediatamente de tudo o que dizia um minuto atrás. Sim, agora, todos estão prontos para a viagem. Já estão, de alguma forma, viajando em si mesmos, encantados e entregues, aptos a longos e arriscados vôos – afinal, vão enfrentar piratas armados, deixar a proteção de sua casa aconchegante, correr riscos. Aspirar o pó mágico afastou seu medo, aniquilou sua consciência. Peter Pan drogou as crianças.

 

UM PERSONAGEM DESPREZADO

No começo do século XX, os problemas com os censores ingleses derivavam, em princípio, da acusação de subversão da juventude. Darling, a família querida, estruturada, integrada à sociedade vitoriana, não pode permitir que um menino de origem incerta, cujos amigos, também órfãos, usam roupas remendadas, vivendo à margem dessa sociedade (um marginal, portanto), passe pela porta da frente, divida as mesmas maneiras e costumes de seu meio, muito menos que conviva com sua filha, tão bem-educada. Por isso, Peter os visita clandestinamente, voando à noite, às voltas com sua sombra perdida, passeando sobre os telhados, entrando furtivo pela janela.
Disney não simpatizava com esse pequeno herói inconseqüente. Chegou a declarar que Peter Pan era o personagem de que menos gostava. Ele o achava leviano, não se identificava com ele – e com toda razão, pois Walter Elias Disney era moralista e afeito às tradições.

 

NA TERRA DO NUNCA

Ah, finalmente a Terra do Nunca… Nunca mesmo. Sem tempo. A eternidade. E nós preocupados com as boas maneiras… Nessa ilha está aportado um navio de guerra, protegido por canhões, sob o comando do destemido Capitão Gancho. Destemido, nem tanto. Há algo que o põe em pânico: um crocodilo que emerge de tempos em tempos, que uma vez comeu-lhe uma das mãos e agora vem em busca do resto: ele todo. O som do tique-taque anuncia a proximidade desse predador submerso, que volta a dar as caras, causando no poderoso capitão um medo anormal: mesmo cercado por homens armados, mesmo sabendo que o tal crocodilo não poderá alcançá-lo na prática, ele se esconde, desespera-se, pois sabe que mesmo um homem de poder não poderá vencer sua própria morte.
Por que não um tubarão? Não ficaria melhor no mar? Ora, os tubarões praticam ataques rápidos, repentinos, o que é incompatível com a passagem do tempo. Mas o réptil rasteja. O crocodilo é lento, silencioso, paciente. Tique-taque, tique-taque… O tempo nos devora aos poucos.
Aí está, novamente, o embate entre dois inimigos irreconciliáveis: Gancho, o homem histórico, o homem como um de nós, que não pode evitar o tempo, e Peter Pan, o menino eterno, o herói atemporal, aquele que nunca envelhece e que, portanto, nunca morre.
E a nossa linda fadinha? Como ela participa dessa trama toda? O que ela é de Peter? Sua irmã? Não, ela não age como uma irmã. Sua amiga então? Bem… Como claramente nos lembramos, ela o traiu, contou ao seu inimigo mortal onde ficava o esconderijo de Peter e dos meninos da floresta, apontando-o com precisão num mapa e, assim, permitindo que Gancho endereçasse ao seu principal desafeto algo sob medida, um “presente” inesperado, a bomba-relógio que por pouco não explode na cara dele. De qualquer forma, isso não foi nada bonito da parte de uma amiga ou fada protetora, algo que ela nunca foi, pelo jeito.
A frustrada tentativa de matar Peter Pan nos revela que não é com um atentado tosco, envolvendo tique-taques bem embrulhados, que se põe fim a um ser que venceu o tempo. Relógios não podem com ele. E nos mostra também o resultado de uma atitude obsessiva, reveladora da personalidade forte de Tinker Bell, minada pelo ciúme de uma potencial concorrente – pois tudo isso tem origem na crescente hostilidade que ela dirige à intrusa Wendy e que a faz preferir ver Peter morto a dividi-lo com outra. Afinal, Tinker Bell é a amante de Peter Pan.
Essa pequena fada, tanto quanto as frívolas sereias da ilha, que sorriem, oferecidas, sempre acessíveis, ao sensual e descompromissado Peter Pan, é aquela que está à mão, que faz parte da turma, a garota disponível, ao lado dele há algum tempo. Wendy não: ela é uma novidade nesse meio. Não parece “fácil” como as sereias sorridentes. Não se mostra leviana, caprichosa ou temperamental como Tinker Bell. Wendy tem outro preço: ela é inteligente e digna. Pode até casar.

 

Perce Polegatto é professor universitário