Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

O PROFESSOR ALOPRADO, UMA CRÍTICA À SOCIEDADE AMERICANA
Robert Benayoun



Desde o início de sua carreira, a vida privada de Jerry Lewis (seu nome real é Joseph Levitch) apresenta sinais duma marcada dualidade, dum equilíbrio instável entre dois pólos opostos da sua rica personalidade. No tempo em que trabalhava com Dean Martin, esta dualidade já aparecia e foi a causa última da separação da dupla: entre o Jerry the id (Jerry o idiota), sombra e escravo de seu parceiro que não cessava de explorá-lo, e Joseph Levitch, empresário real e eminência parda do duo, reinava já uma séria oposição. Quando Lewis começou a dedicar-se cada vez mais à elaboração dos roteiros e à produção de seus filmes, Dean Martin não gostou. Então, abandonou o companheiro.
Jerry Lewis encontrou-se só e totalmente à mercê das duas personalidades contraditórias. O idiota servia-lhe de meio de fuga: a sua inocência e a sua falta de jeito equilibravam, pela lei das compensações, as angústias do magnata superativo que ele tinha se tornado.
(...)
O resultado lógico de tudo isso está em O Professor Aloprado (The Nutty Professor), em que Lewis, servindo-se da situação, do personagem de dupla personalidade e de algumas frases literais da história escrita por Robert Louis Stevenson, vai tornar-se o Dr. Jekyll das universidades americanas. Porém, Lewis modifica o processo da famosa desfiguração de Jekyll. É o prof. Julius Kelp que, horrivelmente feio (Lewis dota-o de dentes postiços, uma cabeleira horrível e uma espantosa miopia), após ingerir a sua droga milagrosa, vai transformar-se em Buddy Love, um Adônis de voz de ouro, um superídolo (...).
De fato, Julius Kelp representa o intelectual americano, vexado e ridicularizado, que os desportistas tratam com violência e cujo gênio é matéria para gracejos perpétuos. Buddy Love, o seu Hyde, é uma caricatura feroz da agressiva vulgaridade, da ignorância crassa e da aparente brutalidade de certas estrelas dos Estados Unidos. Ele é tanto Elvis Presley como Frank Sinatra ou Dean Martin, de quem Lewis se vinga e se liberta.
(...)
Jerry devota a Kelp toda a sua afeição e dedica a Love todo o seu desprezo.
(...)
Lewis critica, à sua maneira, o culto da juventude e da beleza, que – graças à utilização exagerada das cirurgias plásticas, do fisiculturismo e do uso de excitantes e afrodisíacos – se alastra por terras norte-americanas; e demonstra que, nos Estados Unidos, para ser bem-sucedido é necessário ser, de preferência, um analfabeto desprovido de escrúpulos e provido de atributos sexuais. Com O Professor Aloprado, Jerry Lewis, um fabulista moderno (na melhor tradição de Esopo e La Fontaine), parece querer nos dizer: “Para ser feliz, ninguém necessita abdicar seu próprio eu ou deixar-se seduzir por um modismo. Precisa, sim, ser ele mesmo.”

 

Este texto foi transcrito do Programa 563 (de julho de 1967) do Cineclube do Porto