Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

O PROFESSOR ALOPRADO
Yves Boisset



O Médico e o Monstro, o admirável romance de Robert Louis Stevenson, suscitou desde o seu aparecimento, em 1886, uma mitologia considerável. Mas, a exemplo de Frankenstein (1818), da doce Mary Shelley, ou, em menor grau, de Drácula (1897), de Bram Stoker, a glória não reteve senão o aspecto terrorífico da obra, desprezando completamente as intenções morais e filosóficas do autor. Excetuando a excelente versão, realizada em 1932 por Rouben Mamoulian e estrelada por Fredric March, todas as adaptações cinematográficas da obra-prima de Stevenson traíram o propósito do autor. Retomando este tema quase legendário, Jerry Lewis fez um filme cômico muito sério. O Professor Aloprado é certamente o seu melhor filme e, curiosamente, a adaptação mais fiel ao espírito da obra de Stevenson.
Adaptando a história do Dr. Jekyll e seu duplo, Mr. Hyde, para a nossa época, Jerry Lewis encontrou um pretexto para os seus habituais exercícios de destruição dos valores assentes da moral tradicional (...). Mas nunca Jerry tinha ido tão longe na sua vontade de massacre; e, apesar do tratamento ser sempre mordaz e as gags serem cada vez mais numerosas e com mais graça, o aspecto cômico do filme ultrapassa a caricatura... para atingir uma inquietante gravidade. Ainda que estejam presentes os temas favoritos de Lewis (misoginia, crítica mordaz das hierarquias sociais, destruição sistemática dos fortes e dos patrões, paixão pelas histórias em quadrinhos e pelo Cinema etc.), descobre-se em O Professor Aloprado a evidência de uma angústia (...).
Em O Mensageiro Trapalhão, O Terror das Mulheres e Mocinho Encrenqueiro, os três primeiros filmes que dirigiu, Jerry Lewis tinha se dedicado a pesquisas extremamente interessantes sobre a construção e condução das gags. Reduzindo o argumento a um simples pretexto, ele agrupava à volta de um personagem uma enorme quantidade de gags ligadas entre si por uma trama tênue, cuja aparente fraqueza dissimulava, de fato, linhas de força subterrâneas e sutis. Aproveitando essas experiências, Jerry Lewis libertou-se da necessidade convencional de prolongar longamente uma gag por uma cena de encandeamento inútil e conseguiu um estilo suficientemente fluente para introduzir, sem perder o ritmo, as gags mais delirantes, num argumento elaborado com muito rigor. (...) Há cenas realmente memoráveis. Uma delas é de Mr. Love na sala do diretor da universidade em que o Dr. Julius Kelp exerce os seus medíocres talentos de professor de Química. Quando Buddy Love entra, cantarolando, no gabinete do muito oxfordiano diretor, este está a ponto de expulsar o vadio presunçoso e insolente. Mas bastam duas frases duma ironia aduladora sobre o talento de comediante do diretor, para botá-lo no bolso: pedindo-lhe que declame Shakespeare, Buddy Love o faz subir na escrivaninha, cobre-lhe os ombros com um tapete, tira-lhe as calças e abandona-o a declamar. Há nessa seqüência tanta loucura – multiplicada pelo sentido poético e a invenção quase surrealista de Jerry Lewis – como nos melhores momentos dos Irmãos Marx.
Nunca, até então, Lewis tinha exprimido com tanto delírio o universo invertido em que vive constantemente o seu personagem, que aprofunda de filme para filme, há mais de dez anos. O autor de O Professor Aloprado recusa tudo o que é normal; não respira verdadeiramente senão no exagero e no delírio onírico, de que seus lendários esgares são a expressão mais evidente. Ninguém levou ainda tão longe a destruição sistemática do universo normal. Ninguém antes dele – nem mesmo W. C. Fields, nem mesmo os Irmãos Marx – tinha ousado a aventurar-se a explorar esse universo angustiante, estranhamente próximo dos escritos de Franz Kafka e Jorge Luis Borges.
Admirável realizador, agora mestre duma linguagem e duma técnica soberbas, Jerry Lewis pode empreender todos os vôos. Longe de ser o insignificante fazedor de caretas, como alguns se obstinam ainda em vê-lo, Jerry Lewis impôs-se definitivamente entre os maiores cômicos do Cinema, ao lado de Harry Langdon, Buster Keaton, W. C. Fields, Stan Laurel & Oliver Hardy e os Irmãos Marx. De filme para filme – mais grave, mais divertido, mais inventivo, mais delirante –, Jerry Lewis acaba de realizar a tragédia mais engraçada e a comédia mais revolucionária da História do Cinema. Jerry Lewis está talvez em vias de reinventar o Cinema.

 

O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963, 107')
Direção: Jerry Lewis
Roteiro: Jerry Lewis & Bill Richmond, baseando-se no romance O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson
Elenco: Jerry Lewis, Stella Stevens, Del Moore, Kathleen Freeman, Howard Morris, Elvia Allman, Milton Frome, Buddy Lester, Marvin Kaplan, Skip Ward, Julie Parrish, Les Brown e Sua Banda
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Paramount

 

Este texto foi transcrito do Programa 563 (de julho de 1967) do Cineclube do Porto