Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

O FOFOQUEIRO
Sérgio Augusto



Com O Fofoqueiro, Jerry Lewis inicia o primeiro capítulo da comédia moderna. Em O Professor Aloprado, o assunto já possuía uma função estrutural e completava a unidade que fazia entrar em simbiose todos os elementos do filme. Aqui, a história não tem valor senão integrada na própria narrativa para a qual foi concebida. Ela não é, como acontece habitualmente, um ponto de partida para um tratamento formal a posteriori, o que prova ser a inversão não só um tema lewisiano, mas, principalmente, um método de trabalho. Artesão e objeto, ator e personagem, Jerry Lewis acumula (ou multiplica) as suas funções num círculo vicioso permanente, cujo propósito é a procura ad infinitum e impossível de uma identidade. O Fofoqueiro leva ao extremo todas as investigações sobre personagem e narrativa esboçadas em seus filmes anteriores, mas nem por isso deixa de pagar a dívida que Lewis (cineasta) tem com Lewis (ator com uma platéia a satisfazer): as gags continuam surpreendentes, fulminantes; e tudo é muito simples, despojado. Mas a satisfação imediata (o riso) não constitui a preocupação primordial do autor, cujos filmes são verdadeiros atos de exorcismo; e, acima de tudo, em O Fofoqueiro, o personagem se debate com a ficção que o sufoca, da mesma maneira que o cineasta luta contra as mordaças da  linguagem linear e meramente expositiva.

 

O Fofoqueiro (The Big Mouth, 1967, 107')
Direção e Produção: Jerry Lewis
Roteiro: Jerry Lewis & Bill Richmond, baseando-se em argumento de Bill Richmond
Elenco: Jerry Lewis, Harold J. Stone, Susan Bay, Buddy Lester, Del Moore, Paul Lambert, Jeannine Riley, Leonard Stone, Charlie Callas, Frank De Vol, Vern Rowe, Vincent Van Lynn, Mike Mahoney, Walter Kray, John Nolan, Eddie Ryder
Sinopse: Depois de pescar um homem-rã, sósia seu e contrabandista de diamantes, Gerald Clamson, sob disfarce, banca o detetive, a fim de apurar o caso em que se viu envolvido. Investiga, em um hotel, o tráfico de pedras preciosas, sendo procurado pela gang de Thor (que vende os diamantes para o sinistro chinês Fong), pela quadrilha rival e pelo gerente do hotel. No final, ajudado por Suzie, uma aeromoça, Gerald consegue sair vencedor, apesar de todos os contratempos que tem de enfrentar.
Observação: O Fofoqueiro é o oitavo filme que Jerry Lewis dirigiu. Os anteriores foram: O Mensageiro Trapalhão (The Bellboy, 1960), O Terror das Mulheres (The Ladies Man, 1961), Mocinho Encrenqueiro (The Errand Boy, 1961), O Professor Aloprado (The Nutty Professor, 1963), O Otário (The Patsy, 1964), Uma Família Fuleira (The Family Jewels, 1965), e Três em um Sofá (Three on a Couch, 1966).

 

Esta crítica foi transcrita do número 13 da revista Guia de Filmes (Rio de Janeiro, INC, janeiro/fevereiro de 1968, pp. 6-7)