Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

É NOITE SOBRE A CIDADE
Rubens Francisco Lucchetti



“Depois que dobrou a Rua Fulton, começou a andar dentro da cidade. De onde ele estava, parecia sonho, lá longe, linda e pequenina, ela, uma verdadeira cidadezinha calma, o lugar ideal para se morar, viver, casar, ter um lar, filhos, emprego... Era o lugar que ele queria. O ar do vale, a água e a realidade daquele lugar, a pureza da vida do vale, a simplicidade do povo.”
William Saroyan

 

Ah, a província...
Nada no mundo é mais belo do que o pequeno espaço de terra onde nascemos e que um dia se tornará apenas lembranças. Eu creio que a província é a ingenuidade dos primeiros sonhos, a singeleza das primeiras promessas que acabarão não se cumprindo. Creio também que toda a verdade e sinceridade estão nas pequenas cidades distantes, nas pequenas cidades esquecidas, nas pequenas cidades perdidas nos mapas, nas cidadezinhas que nos trazem longínquas recordações do passado.
Como é triste e solitário este sentimento, esta saudade que estou sentindo de mim mesmo. Em outros tempos, fui certamente melhor do que eu sou agora. Em outros tempos, quero dizer, quando eu era um simples homem de província e olhava – com essa festa de luz que hoje só encontro nos olhos das crianças – o mundo pela primeira vez.
Estou com saudade de mim mesmo, e esse é um sentimento difícil de explicar. No entanto, poderei alcançá-lo na sua tocante doçura em outros fins de tarde, quando, estando quieto e for fim de tarde, vir ao meu pensamento a idéia de estar partindo para uma longa viagem, a mais longa de todas as viagens.
Bem, é noite sobre a cidade. A hora em que qualquer cidade se torna mais bonita. A hora em que as luzes começam a acender-se e as pessoas retornam para seus lares. Se eu parar em algum lugar e ficar longo tempo olhando os que estão indo e vindo, pensarei que são gente passeando. E não saberei nada – tristemente nada – de suas vidas. Então, eu os amarei, por serem gente; e irei odiá-los, por nada saber a respeito deles. E odiarei ainda mais a mim mesmo, por nada poder fazer por eles, ainda que estejam chorando, perdidos, desamparados, solitários...

 

Este texto foi transcrito do livro Música Secreta (Edição do Autor, 1952)

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos