Jornal do Cinema - nº 5 - SINO DE NATAL
Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

MORT WALKER E A CRIAÇÃO DE BEETLE BAILEY
Marco Aurélio Lucchetti



Descendente de escoceses, irlandeses e ingleses, Addison Morton Walker, mais conhecido como Mort Walker, nasceu em 3 de setembro de 1923, no estado de Kansas, no Meio-Oeste dos Estados Unidos; e, em 1927, mudou-se com a família para Kansas City, no Missouri.
Começou a desenhar com pouca idade, encorajado pelo pai, que lhe contava histórias a respeito de alguns quadrinhistas veteranos e bem-sucedidos (Rube Goldberg, George McManus e Bud Fisher).
Era um leitor assíduo das páginas de quadrinhos dos jornais (1). Apreciava sobretudo as histórias em quadrinhos cômicas; e, dentre essas, a sua favorita era Moon Mullins (2), “uma sátira amarga, quase desesperada da vida familiar” (3).



“Meu pai gostava de rir; e minha mais cara lembrança da infância é de uma manhã de domingo em que o vi estourando de tanto gargalhar, sentado em sua cadeira, depois de ter lido Moon Mullins. Seu rosto estava vermelho, e lágrimas escorriam de seus olhos. Obviamente, ele se divertira com o que acabara de ler.
Isso aconteceu há quarenta anos, mas ainda me lembro da página de Moon Mullins que provocara esse ataque de riso. Tio Willie levara para casa um porco que havia ganho num jogo de pôquer. O porco se soltou; e Willie e Moon começam a andar aos boléus no quintal, tentando agarrá-lo. Tudo o que os dois conseguem é destruir o jardim de Mamie, derrubar o varal e quebrar a cerca. Mamie aparece; e, nesse instante, o porco foge através da cerca quebrada. Willie e Moon continuam a perseguir o porco, e Mamie corre atrás deles. Naturalmente, Mamie não está interessada em agarrar o porco; e sim colocar as mãos em Willie e Moon. O último quadrinho mostra Lord Plushbottom à janela, descrevendo a cena. ‘Agora, eles ultrapassaram o porco’, diz ele.
Foi provavelmente naquele momento que decidi me tornar um quadrinhista. Desejava levar – todos os dias – riso e alegria aos lares... do mesmo modo que Frank Willard havia feito.”
Mort Walker, num texto escrito para o livro The Comics: An Illustrated History of Comic Strip Art (1974), de Jerry Robinson




Com onze anos de idade, Mort Walker “vendeu” seu primeiro cartum para a revista Child Life, recebendo por pagamento uma assinatura da publicação.
Aos treze anos, vendeu um cartum para a revista Cargo, que lhe pagou um dólar. Foi também com essa idade que realizou sua primeira história em quadrinhos: The Limejuicers, protagonizada por um grupo de marinheiros britânicos e publicada no Kansas City Journal.
Por volta de 1938, criou sua segunda história em quadrinhos: In the Wake of the Wanderer, que submeteu à The Register and Tribune Syndicate, uma agência distribuidora de material de imprensa, com sede na cidade de Des Moines, no estado de Iowa. A resposta que recebeu não foi nem um pouco encorajadora, ou melhor, julgando-o muito novo – e talvez imaturo – a agência decidiu que não deveria distribuir a história aos jornais.
Entretanto, isso não desanimou o jovem Mort, que, em 1940, produziu sua terceira história em quadrinhos, Sunshine and Shadow, que seria estampada nas páginas da revista American Dairies.
Em 1942, freqüentou, durante um semestre, o curso de Jornalismo da University of Missouri; então, em plena Segunda Guerra Mundial, foi recrutado pelo Exército, que, percebendo seu talento para o Desenho, o mandaria a St. Louis, para estudar Engenharia na Washington University.
Dois anos mais tarde, já formado engenheiro e fazendo parte  do corpo de Infantaria, acabou sendo mandado à Itália. Permaneceu em terras italianas quase um ano e o que viu lá retratou em diversos desenhos (4), a maioria deles de traços humorísticos.
Após voltar aos Estados Unidos e dar baixa como primeiro-tenente, retornou à University of Missouri, a fim de concluir o curso de Jornalismo; e logo se tornou o editor da revista Showme, publicada pela universidade.
Para Mort Walker, trabalhar na Showme foi uma “escola” muito melhor do que a própria faculdade de Jornalismo, pois ele tinha de escrever artigos, desenhar cartuns, fazer ilustrações (inclusive para a capa), comercializar anúncios, trabalhar diretamente com o impressor, vender a revista nas esquinas do campus e, entre outras coisas, negociar com o depósito de papel velho os exemplares que não haviam sido vendidos.
Depois de formado, mudou-se para Nova York, onde conseguiu um emprego na Dell Publishing, que, na época, era uma das maiores editoras norte-americanas de revistas populares.



“(...) fui contratado para ser o editor-chefe das revistas 1000 Jokes Magazine, Hollywood’s Family Album, Film and Fun e editor-assistente da Western Stars e uma revista desportiva. Eu tinha uma secretária e uma assistente. O presidente da editora, George Delacorte, prometeu me pagar cinqüenta dólares por semana. Porém, no dia seguinte, a diretora editorial, Helen Meyer, mudou de idéia e disse que iam me pagar quarenta e cinco dólares por semana, porque eu tinha ‘pouco trabalho’. Quando viram que eu datilografava, despediram minha secretária. Depois de algumas semanas, vendo que eu continuava trabalhando, despediram minha assistente. Eu continuei fazendo o trabalho de três pessoas sem receber aumento.”
Mort Walker




Durante o tempo – cerca de três anos – em que trabalhou na Dell, Mort Walker não deixou de desenhar cartuns, que vendia para as mais diversas revistas dos Estados Unidos. E, em 1951, teve a idéia de criar uma história em quadrinhos humorística enfocando o dia-a-dia de Spider (Aranha, numa tradução literal), um estudante universitário destrambelhado, desajeitado, insubordinado, indolente, confiado, pouco inteligente e que aparecera em alguns de seus cartuns (cartuns esses publicados em 1949 no semanário The Saturday Evening Post). Em seguida, realizou várias tiras de Spider e enviou-as ao editor de histórias em quadrinhos da King Features Syndicate, Sylvan Byck.
As tiras foram aprovadas; contudo, era preciso encontrar um outro nome para o personagem, uma vez que na história em quadrinhos Big Ben Bolt (5), distribuída pela King, já existia um Spider, Spider Haines (6), o empresário, treinador e conselheiro do pugilista Ben Bolt, cujas histórias (escritas por Elliot Caplin e desenhadas por John Cullen Muphy) misturavam os assuntos desportivos com o melodrama e as tramas policiais e de aventura.
O nome escolhido foi o de outro inseto, Beetle (Besouro, numa tradução literal). Mas ainda era preciso dar um sobrenome ao personagem. E esse sobrenome acabou sendo Bailey, como uma espécie de homenagem ao editor de cartuns do The Saturday Evening Post, John Bailey, que encorajara Mort Walker a fazer cartuns baseados em suas experiências na universidade e que, portanto, fora responsável indiretamente pela criação de Spider e Beetle Bailey (7).
Beetle Bailey estreou em setembro de 1950, em tão-somente doze jornais norte-americanos; e, nos dias de hoje, é uma das histórias em quadrinhos mais bem-sucedidas de todos os tempos, sendo publicada em quase dois mil jornais de mais de cinqüenta países, inclusive o Brasil, e divertindo diariamente cerca de duzentos milhões de leitores.



“(...) decidi criar uma tira baseada na vida dos estudantes universitários. Ninguém estava fazendo tira alguma sobre esse tema; e, por isso, vi que tinha um horizonte livre pela frente. Mas o que eu não sabia é que havia algumas pedras no caminho. ”
Mort Walker

 

NOTAS:

(1) A Biblioteca Pública de Kansas City tinha uma sala enorme com jornais de várias cidades norte-americanas. Quando os jornais ficavam velhos, a bibliotecária dava-os para Mort Walker, que, assim, conseguia ler as principais histórias em quadrinhos realizadas nos Estados Unidos. As suas preferidas, ele recortava-as e guardava-as no sótão. Chegou a ter uma grande coleção de quadrinhos, que infelizmente, sua mãe jogou fora, depois que Mort ingressou no Exército e a família se mudou de casa. “Eu achei que meu filho já estava crescido demais para continuar lendo aquelas coisas”, disse a sra. Walker, procurando justificar seu ato.

(2) Criada por Frank Willard (1893-1958), Moon Mullins surgiu em 1923 (a primeira tira diária foi publicada em 19 de junho; e a primeira página dominical, em 9 de setembro) , uma época em que, felizmente, as histórias em quadrinhos produzidas para os jornais estadunidenses não tinham vergonha de ser politicamente incorretas. O herói (ou anti-herói) e titular da história é um sujeito malandro, arruaceiro, oportunista e vagabundo que tenta, por todos os meios (menos trabalhar honestamente), conseguir vencer na vida. Ele e seu irmão mais novo, Kayo, um garoto cínico e espertalhão, moram na pensão da feiosa e magricela Emmy Schmaltz, que, nos primeiros anos da série, era uma solteirona e que, posteriormente, se casaria (o casamento ocorreu em 1934) com um aristocrata inglês arruinado, o careca e bigodudo Lord Plushbottom. Na pensão também vivem, entre outros: o tio de Moon, Willie, um homem gordo e totalmente avesso ao trabalho; e sua mulher, a enorme Mamie, a empregada e cozinheira da casa.
Distribuída por The Chicago Tribune (na década de 1930, essa agência distribuidora de material de imprensa, fundada em 1919 por Joseph Medill Patterson, tornou-se Chicago Tribune-New York News Syndicate; e, hoje, chama-se Tribune Media Services), Moon Mullins, após a morte de seu criador, passou a ser realizada por Ferd Johnson (1905-1996), em cujas mãos perdeu muito de seu humor mordaz; e deixou de ser publicada em 1993.



(3) COUPERIE, Pierre; DESTEFANIS, Proto; FRANÇOIS, Edouard; HORN, Maurice; MOLITERNI, Claude; & TALABOT, Gerald Gassiot. História em Quadrinhos & Comunicação de Massa (Bande Dessinée et Figuration Narrative, tradução de José Fioroni Rodrigues & Luiz Sadaki Hossaka), São Paulo, Museu de Arte de São Paulo, 1970, p. 51.

(4) Esses desenhos (não sei se todos) foram publicados em Backstage at the Strips (1975), livro no qual Mort Walker relatou os bastidores das histórias em quadrinhos produzidas para os jornais estadunidenses e parte de sua trajetória como cartunista e quadrinhista.

(5) Big Ben Bolt estreou nos jornais dos Estados Unidos em fevereiro de 1950. E, logo no primeiro episódio, Spider (ele é um ex-boxeador pouco afortunado e bom conhecedor de todos os segredos do ringue) conhece Ben Bolt, durante uma viagem de navio aos Estados Unidos, e torna-se praticamente sua sombra.

(6) No Brasil, Spider Haines ficou conhecido com seu nome original e também com os seguintes nomes: Frigideira e Aranha.

(7) Para criar o personagem, Mort Walker inspirou-se em Dave Hornaday, um colega dos tempos de escola e com quem criou em 1947 duas tiras de quadrinhos que nunca foram aprovadas pelas agências distribuidoras de material de imprensa. Já falecido, Dave era um sujeito alto e magro que sempre se metia em confusões, mesmo que não as procurasse.