Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

MARIA ERÓTICA
Marco Aurélio Lucchetti



Se tivesse sido criada por um quadrinhista norte-americano ou europeu, seria assunto para artigos de jornais, revistas e fanzines; teria sido analisada em livros sobre histórias em quadrinhos; e seu nome, com certeza, figuraria em quase todas as enciclopédias mundiais de Quadrinhos...
Se fosse uma personagem francesa ou italiana, suas histórias teriam sido publicadas em álbuns de luxo...
Se fosse uma personagem norte-americana, seria conhecida em vários países; sua imagem seria utilizada em bonecas, calendários, cadernos, agendas, chaveiros, videogames, pôsteres e muitos outros produtos; e suas histórias, que certamente estariam sendo realizadas e publicadas até hoje, teriam sido adaptadas para o Cinema...
Infelizmente, é uma personagem dos quadrinhos brasileiros. Assim, foi ignorada até mesmo pela maior parte dos “estudiosos” brasileiros de Quadrinhos, sendo conhecida apenas no Brasil e por um grupo não muito extenso de leitores; e suas histórias apareceram em revistas impressas, em sua maioria, em papel de jornal.
Saída da imaginação de Claudio Seto, Maria Erótica (na verdade, ela se chama Maria da Silva) é repórter do jornal Taimes Is Monis, de Guaiçara – deve ser destacado que essa Guaiçara é parecida com São Paulo (possui incontáveis arranha-céus, inúmeros estabelecimentos comerciais, hotéis luxuosos, mansões etc.) e, portanto, não tem nenhuma relação com a Guaiçara real, que é uma pequena cidade do interior paulista e fica próxima de Lins –, e amiga e ajudante ocasional de Beto Sonhador, um detetive particular atrapalhado e mulherengo (nas histórias, Maria não se cansa de tentar convencer Beto a renunciar aos prazeres mundanos); tem pouco mais de vinte anos de idade, longos cabelos louros, um rosto atraente, um belo par de seios, quadris largos e pernas bem torneadas; e desnuda-se com freqüência (vale ressaltar que seus desnudamentos ocorrem quase sempre contra sua vontade).
Realizadas por Claudio Seto, que tinha vários assistentes – Wilson Seto, Elisa, Kimil, Kinue, Mary, Noriko, Paulo Frank, Sergius e, entre outros, Waldemarx –, as histórias de Maria Erótica misturam aventura, erotismo, humor e mistério; e foram publicadas entre 1970 e o final de 1973, em algumas revistas (Maria Erótica, O Paquera e Estórias Adultas) da Editora Edrel, de São Paulo.

“MARIA ERÓTICA, como todos os personagens de Claudio SETO, traz consigo um grande problema PSICOLÓGICO, (...) é completamente fria diante das investidas amorosas de seus paqueradores (...). Devido à sua formação estritamente religiosa, vê tudo que se relaciona a SEXO como pecado mortal. Mas, como mulher, sente, no subconsciente e nas manifestações BIOLÓGICAS, o instinto tentador. MARIA ERÓTICA é uma garota cercada de um lado pela extrema moral BEATA e de outro pelos instintos naturais de seus hormônios. Nessa luta entre a CASTIDADE e o PRAZER, ora dando vazão traumática aos seus recalques, ora atuando em sua moral conservadora, faz nascer as mais MIRABOLANTES situações. MARIA ERÓTICA é pura, ingênua e fria; porém, também é SEXY, MALICIOSA E QUENTE.”
Paulo Fukue, quadrinhista e editor


“Desapareceu repentinamente em fins de 1972. O misterioso fato criou polêmica entre os leitores, colecionadores de gibi, críticos de Quadrinhos, editores, autores amigos do autor, políticos, líderes sindicais, C.I.A. e K.G.B., entre outros. Enquanto alguns levantavam a hipótese de que ela teria sido seqüestrada pelo King Kong, outros diziam que (...) fora trocada pela Petrobrás por barris de petróleo árabe. Muitos leitores nos escreveram que ela largou os quadrinhos para trabalhar nas novelas da Globo; outros, que ela teria se alistado no exército sandinista. Afinal, qual é a verdade que envolve seu desaparecimento? Nós só sabemos que (...) assim como desapareceu, repentina e misteriosamente, surgiu em uma praia deserta (...) em uma noite primaveril (...) de 1979, Ano Internacional da Criança.”
É dessa forma que se inicia a história que marcou a volta de Maria Erótica às páginas dos gibis. Realizada por Claudio Seto, essa história, que tem mais de noventa páginas, foi publicada em outubro de 1979, no número 4 da revista Especial de Quadrinhos, da Grafipar, de Curitiba.
Poucos meses depois da publicação do número 4 da Especial de Quadrinhos, a Grafipar lançou o gibi Maria Erótica, destinado a publicar mensalmente histórias da Maria e histórias em quadrinhos eróticas e satíricas.
Além de alguns personagens criados na fase da Edrel – Beto Sonhador, o inspetor Zero Zero Pinga (também chamado de inspetor Chiquinho Canhoto) e o cientista maluco Genildo Intelectantam – as histórias da Maria Eróticas da Grafipar apresentam diversos personagens novos: o depravado Pipinóquio, um boneco que gosta de contar mentiras (a cada frase mentirosa que fala, seu pênis cresce); Peter Pão, o protetor dos fracos e oprimidos, que não consegue fazer sexo com mulher alguma, uma vez que seu pênis é minúsculo; a fadinha Tlim-Tlim (sua varinha mágica só funciona com homens bonitos), a companheira inseparável de Peter Pão; o poderoso príncipe Rodolfo, um grande conquistador, que teve relações com a Bela Adormecida, a menina Alice, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, entre outras heroínas das histórias infantis; e o conde Ejácula, um vampiro que tem o hábito de morder o traseiro das pessoas.
Deve ser ressaltado que as histórias da Maria Erótica da Grafipar – essas histórias foram escritas por Claudio Seto, Nelson Padrella, Mozart Couto e Carlos Magno; e desenhadas por Claudio Seto, Fernando Bonini, Barroso, Watson Portela e Mozart Couto – se passam ora no mundo real, ora no mundo da fantasia; e a Maria do mundo real tem caráter totalmente diferente da Maria do mundo da fantasia, ou seja, a Maria do mundo real, do mesmo modo que a Maria da fase da Edrel, é ingênua, inibida e casta, enquanto a Maria do mundo da fantasia é maliciosa, desinibida e libertina (ela aparece com freqüência usando pouca ou nenhuma roupa e tendo relações com diferentes homens).