Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

MAGNÓLIA
UM MOSAICO DA ATUAL CRISE MORAL COM OUSADIA PARA NÃO ENFEITAR

João Rodolfo Franzoni



Magnólia gozou de respeitável reputação em sua estréia, há cerca de doze anos; e, certamente, aqueles que o viram naquela ocasião devem integrar seu rol de defensores e admiradores. O filme não envelheceu; mantém intacto todo o poder arrancado por sua direção febril; porém, uma leva considerável de filmes usando Los Angeles como palco de tramas paralelas – notadamente: Crash – No Limite (Crash, 2005; direção de Paul Haggis) e A Última Aposta (Even Money, 2007; direção de Mark Rydell) – pode prejudicar o impacto de quem espera sensação digna de toda a sua grandeza.
A fita mostra Los Angeles como um depósito de pessoas desditosas, desorientadas e que, mesmo inseridas no desejado e festejado universo do show business, estão presas em vidas tortuosas e à espera de um lenitivo que a maioria ali julga não mais existir. O cenário em Magnólia pode não soar animador; e o que o filme mostra é exatamente aquilo que o cinema americano dominante deixa de enfocar, exceto quando parte de cineastas provocativos como David Lynch, Spike Lee ou Robert Altman. E é justamente este último a principal fonte de inspiração do diretor de Magnólia, Paul Thomas Anderson.
No emblemático Short Cuts – Cenas da Vida (Short Cuts, 1993), Robert Altman focalizou mais de vinte personagens, que moram na cidade que parece eternamente ensolarada e cujas vidas se cruzam por força de ações cotidianas. Já em Magnólia, Anderson reduz o número de personagens pela metade, enxertando uma contundência dramática cruel e, por vezes, excruciante, que certamente havia em Short Cuts, mas que aqui aflora na forma de catarse. A intenção de Anderson, conforme uma declaração dada pelo próprio diretor na época do lançamento do filme, era realizar um épico sobre pessoas comuns; e foi o que fez, apresentando cada personagem nos momentos decisivos de  suas existências, o que vai dar origem a todo tipo de desabafo e confissão – portanto, a chuva torrencial que, durante boa parte da narrativa, desaba sobre a cidade dos sonhos é providencial. O estilo de Anderson é magistral: a câmara invasiva acompanha esses personagens em situações extremas, alcançando uma autenticidade dilacerante em seu registro.
A história do filme se passa num período de 24 horas. Há duas figuras moribundas na trama, e a que está em estado mais grave, a ponto de não poder levantar da cama, é Earl Partrigde (Jason Robards, em seu último trabalho). Magnata da TV, que produziu vários programas de sucesso, resta a ele definhar em seu leito, sob os cuidados de um enfermeiro bastante prestativo, Phil Parma (Philip Seymour Hoffman), enquanto sua atual esposa, Linda (Julianne Moore), visivelmente fragilizada com o estado terminal do homem com quem se casou por interesse, vive remoída pelo remorso de seu ato interesseiro e pelo pensamento de herdar todo o patrimônio de alguém a quem traiu e por quem, agora, descobriu sentir amor. Um personagem crucial para ajudar a desmoronar esse já delicado castelo de cartas é Frank T. J. Mackey (Tom Cruise), filho de Earl, que, por motivos esclarecidos durante uma entrevista de teor bem inesperado – para não dizer intrusivo –, cresceu renegando o pai. Frank é aclamado como um guru chauvinista que ensina a colocar as mulheres em seu devido lugar (segundo sua cartilha, as mulheres devem ser tratadas como acessórios que podem ser descartados); e suas palestras, que rendem uma audiência que vibra, além de manuais, livros e até um telemarketing, servirão para o reencontro entre pai e filho, por meio do esforço de Phil. O outro personagem angustiado, em virtude dos poucos dias que lhe restam de vida, é Jimmy Gator  (Philip Baker Hall), popular apresentador de um programa de perguntas e respostas. Ele tenta resistir às limitações provocadas por um câncer em estágio avançado, comparecendo ao trabalho, para preocupação de sua esposa, Rose (Melinda Dillon). A filha de Jimmy, Claudia (Melora Walters), uma viciada em drogas com tendência à auto-destruição, cortou relações com o pai e faz sexo com homens que encontra a esmo na noite. Uma oportunidade de redenção para a moça surge quando um tímido e solitário policial, Jim Kurring (John C. Reilly), aparece na porta de seu apartamento, para adverti-la do volume ensurdecedor do aparelho de som, e acaba se afeiçoando a ela, a ponto de convidá-la para sair. Um dos participantes do programa apresentado por Jimmy Gator é o pré-adolescente Stanley Spector (Jeremy Blackman). Ele tem uma inteligência prodigiosa, sendo por isso explorado pelo pai, Rick (Michael Bowen), que deseja enriquecer às suas custas. Mas, naquele dia, sentindo-se humilhado por sequer ter atendido seu pedido de ir ao banheiro, Stanley se recusa a responder às perguntas do programa, embaraçando os envolvidos no show. O último personagem importante de Magnólia é Donnie Smith (William H. Macy), um homossexual, que ficou traumatizado por ter sido explorado pelos pais, anos atrás, no mesmo programa. Atualmente, Donnie vive iludido com a idéia de que ainda é famoso, comportando-se instavelmente nos trabalhos que arruma e gastando mais do que pode, tudo para conquistar o barman do estabelecimento que freqüenta.
Aquela máxima de que basta um dia em nossas vidas para aflorar toda espécie de auto-reflexão e nos obrigar a uma confrontação com nossas mazelas internas é o ditame obedecido pela direção, que, durante as poucas mais de três horas de duração do filme, subverte qualquer noção de conforto e opulência arraigada em nosso consciente coletivo com relação aos habitantes dessa terra de oportunidades e deificações que representa Los Angeles e, de uma forma geral, os Estados Unidos, importador de um estilo de vida individualista, em que o ter tornou-se a garantia de uma existência significante em detrimento do ser, que nos limita e nos marginaliza. E, para escancarar esse ataque, Anderson não se preocupa com a comodidade da platéia: somos despertados para o inevitável, representado pelo câncer que acomete os dois personagens. E é, digamos, a natureza do evitável que responde pelos instantes de maior comoção e desespero do filme. Numa abordagem que remete ao hoje esquecido O Peso de um Passado (Running on Empty, 1988), dirigido por Sidney Lumet e estrelado pelo falecido River Phoenix, Magnólia tem sua trama povoada de vários personagens que, vítimas dos erros dos pais, são herdeiros de pecados do passado, pecados que não foram cometidos por eles. E esses personagens, na condição de adultos senhores de seu próprio destino, vivem inconscientemente implorando atenção. Dois extremos são ilustrados com essa análise: Frank despe-se de qualquer ressentimento numa capa de auto-estima que beira a presunção, ocultando assim toda e qualquer mácula oriunda de seu passado de necessidades e abandono; e Claudia procura se livrar de seu trauma buscando a própria extinção, numa tentativa de eliminar uma dor que outro lhe conferiu. Já Donnie, calejado por um passado em que a infância o conduziu à glória, ainda que breve, e cuja vida adulta o colocou em constantes provações jamais recompensadas, demora a constatar sua condição de ser despedaçado, o que talvez explique sua insistência em cometer atitudes estapafúrdias, senão infantis. Não deixa de ser um paralelo ao estigma do judaísmo numa terra em que os filhos sempre herdarão o passado de erros dos pais. É a tal ânsia pelo dinheiro e status fustigando quem tanto os perseguiu e que, só mais tarde, se remói com os caminhos que traçou. Nesse aspecto, o apelo de Earl é sintomático, clamando insistentemente ao enfermeiro: “Arrependam-se!” O filme não compactua com ideais estóicos e falsamente heróicos de que olhar para trás irá desestruturar os dias que nos aguardam; e derruba, assim, a falsa noção dessa sociedade da primeira década do século 21, para a qual os fins justificam os meios, um mantra preguiçoso – disseminado por “especialistas” em ajuda espiritual –, que sempre encobriu ausência de caráter e compaixão. E isso o personagem perturbador interpretado por Tom Cruise ilustra magistralmente, assim como o caminho áspero e sem rumo que Linda percorre em boa parte do filme, visitando advogados, médicos e farmacêuticos, com a esperança de compensar o atalho que tomou anos atrás em busca de realização.
Em Magnólia, a exemplo do que acontecera no também admirável Boogie Nights – Prazer Sem Limites (Boogie Nights, 1997), Paul Thomas Anderson voltou a dirigir com exímia precisão os atores. Tal qual na vida real, seus personagens dialogam de forma desesperada, tropeçando nas palavras, desenhando assim uma humanidade bastante palpável.
Num filme em que cada ator tem seu espaço para brilhar, ficaria dificil destacar o trabalho de algum intérprete, caso Julianne Moore não respondesse pela seqüência mais brilhante, na qual ela desabafa sua revolta numa farmácia. É impossível escapar ao choque reservado por essa cena, em que, ao ouvir em silêncio as suspeitas de um atendente, que acha que os medicamentos pesados pedidos por ela serão utilizados em alguma festinha ao invés de aplacar a dor de seu marido, Linda não se contém e brada aos berros, com lágrimas nos olhos e lábios trêmulos, toda a sua indignação contra a indecência com que foi tratada ali. É, sem dúvida, o momento crucial num filme que reserva inúmeras cenas de impacto: a balbúrdia que se instaura no programa de Jimmy Gator; a confissão de Donnie (confissão essa movida a álcool, num bar) sobre todo o poder de bondade que tem a oferecer; a entrevista de Frank, que ameaça descambar em agressão... Seria injusto não levar em consideração o trabalho de Tom Cruise. Apesar de não ser muito respeitado como ator, o astro milionário apresentou aqui o momento mais forte de sua carreira; e seria leviano não reconhecer que ele realmente despejou bravura em sua interpretação, sobretudo por representar um personagem que exige uma canalhice prestes a revelar fragilidade e, logo em seguida, insuspeita carência. Indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante, perdeu para Michael Caine.
Magnólia termina com uma inesperada chuva de sapos que sobressalta Los Angeles. Bastante comentada, principalmente por pessoas desesperadas para encontrar significado para tal cena, o próprio diretor recomendou não atribuírem a ela tanto valor. Mas convém não atendê-lo. Pois, num filme em que vidas tão díspares se cruzam pelo efeito de erros do passado e pela tentativa de remediá-los, é prudente enxergar a invasão desses anfíbios como denominador comum num mundo onde endinheirados e necessitados, sóbrios e viciados, bem-sucedidos e fracassados, insensíveis e afetuosos, enfim, todos são vítimas de ameaças externas que não poupam classe ou caráter. É um acontecimento bizarro capaz de promover alguma conciliação, sem jamais descambar para os discursos oportunistas de superação que parecem infestar os best-sellers e, pior ainda, as adaptações para o Cinema que essas aberrações geram.
As canções compostas por Aimee Mann – todas primorosas, mas valendo destacar “Save Me”, que encerra a fita e que foi indicada ao Oscar de Melhor Canção –, presentes em Magnólia, são reconfortantes e longe de serem mentirosas. E não é todo dia que ouvimos num filme hollywoodiano frases como: “Respeitem o pênis e dominem a vagina”, com que o guru Frank abre seus espetáculos; e “Pai, você precisa ser mais legal comigo”, que um Stanley assustado e, ao mesmo tempo orgulhoso de sua atitude, diz para o pai, após vituperar suas chances de enriquecer.
Em suma: o mundo em Magnólia é aquele que cada um decidiu enxergar e abraçar.

 

Magnólia (Magnólia, 1999, 188')
Direção e Roteiro: Paul Thomas Anderson
Elenco: Julianne Moore, William H. Macy, John C. Reilly, Tom Cruise, Philip Baker Hall, Philip Seymour Hoffman, Jason Robards, Alfred Molina, Melora Walters, Michael Bowen, Ricky Jay, Jeremy Blackman, Melinda Dillon, April Grace, Luis Guzman, Henry Gibson, Felicity Huffman, Emmanuel L. Johnson
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Playarte

 

Joćo Rodolfo Franzoni é jornalista