Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

JULIANNE MOORE
UMA ATRIZ INCANSÁVEL E GARANTIA DE INTENSIDADE EM CENA - PARTE 4 (FINAL)

João Rodolfo Franzoni



Os últimos papéis de Julianne Moore que merecem atenção foram em A Cor de um Crime (Freedomland, 2006), Filhos da Esperança (Children of Men, 2006), Não Estou Lá (I’m Not There, 2007), Ensaio Sobre a Cegueira (Blindness, 2008), Direito de Amar (A Single Man, 2009) e A Vida Íntima de Pippa Lee (The Private Life of Pippa Lee, 2009).
A despeito de seu fracasso de público e crítica, A Cor de um Crime é um filme policial que provoca uma violenta discussão sobre o abismo social existente na periferia das grandes cidades norte-americanas e apresenta Julianne Moore interpretando uma mãe que recorre às autoridades, desesperada pelo rapto do filho. Mesmo representando uma personagem que excede em suas reações, a atriz compõe todo o desgaste sem resvalar no exagero e, quando está em cena, faz desaparecer Samuel L. Jackson e qualquer outro ator com quem contracena. A direção da fita é de Joe Roth; e o roteiro, de Richard Price, que adaptou um romance de sua autoria.
No aterrador Filhos da Esperança, dirigido por Alfonso Cuarón e baseado num livro da escritora inglesa P. D. James, Julianne Moore tem uma participação pequena e importante, interpretando uma ativista política numa Inglaterra fascista.
Em Não Estou Lá, uma irreverente biografia do bardo Bob Dylan, Julianne trabalhou pela terceira vez sob as ordens do diretor Todd Haynes, representando uma cantora que alude a Joan Baez.
Já em Ensaio Sobre a Cegueira, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e adaptado do romance homônimo de José Saramago, Julianne Moore teve um papel marcante como a mulher de um médico. Para quem ainda não assistiu ao filme e não leu o livro, informo que a personagem de Julianne é poupada por uma epidemia que atacou a visão de inúmeras pessoas e ela finge ter a enfermidade para ficar ao lado do marido (Mark Ruffalo) numa ala de confinamento, ambiente propício para o ser humano demonstrar sua natureza de opressão na necessidade e onde a esposa dedicada rebela-se, buscando forças  numa humanidade colocada à prova tanto pela insensibilidade monstruosa daqueles que os cercam quanto pelas condições deploráveis do local. Nem é necessário mencionar que um personagem de tamanha força é perfeito para deixar evidentes as qualidades de Julianne Moore como atriz.
Merece especial menção a pequena e hipnótica participação de Julianne Moore no drama Direito de Amar, que rendeu, em 2009, uma indicação ao Oscar de Melhor Ator a Colin Firth. Julianne aparece praticamente numa única cena; e, ainda assim, é sua presença que permanece nas lembranças do espectador. Verdade que o filme se deslumbra com o próprio tema e que a vocação do diretor estreante Tom Ford é mesmo a de estilista, mas a forma como a atriz discorre sobre o estrago que o tempo causou em suas aspiraçõe de juventude é um momento repleto de magnitude e admiração. O mesmo se pode dizer de sua ponta em A Vida Íntima de Pippa Lee, em que interpreta uma fotógrafa lésbica que tenta aliciar a sobrinha (Blake Lively) de sua companheira.
Em 2009, Julianne Moore interpretou em O Preço da Traição (Chloe) o ousado papel de uma mulher perseguida pelas dúvidas de que o marido (Liam Neeson) tem um caso extra-conjugal. Decide, então, contratar uma jovem e bela prostituta (Amanda Seyfield) para seduzir o marido e descobrir se ele é capaz de trair. O filme, uma refilmagem da fita francesa Nathalie X  (2004), é um thriller dirigido por Atom Egoyan; e o papel de Julianne (papel esse interpretado no original por Fanny Ardant) oferece instantes pertubadores que se perdem num andamento não muito convincente e numa conclusão cretina. Resta apenas o interesse pela personagem de Julianne, que traduz, com muita dignidade, a dúvida comumente experimentada em casais de longa data.
Julianne Moore, que completará cinqüenta anos de idade em dezembro deste ano, tem tudo para surpreender em The Kids Are All Right. Nesse filme, dirigido por Lisa Chodolenko, Julianne e Annette Bening interpretam um casal de lésbicas às voltas com a decisão de uma delas conceber um filho.

 

“A meia-idade é interessante, pela noção do que se conquistou.”
Julianne Moore

 

Num desses casos de distribuição relapsa, permanece inédito no Brasil The Prize Winner of Defiance, Ohio (2005), fita muito elogiada nos Estados Unidos e na qual Julianne Moore vive a mãe de dez filhos e que, com dificuldade para sustentá-los, se arrisca num concurso de jingles para comerciais.
Julianne Moore é uma atriz que arranca respeito. Ainda que comparecendo em tolices como O Vidente (Next, 2007), estrelado por Nicholas Cage e baseado numa história de Philip K. Dick, ou em obras buscando escândalo fácil como Pecados Inocentes (Savage Grace, 2007), tem uma presença magnética na tela e nunca se cansa de interpretar com naturalidade. E sua garra e firmeza parecem não apresentar sinais de cansaço. Portanto, eis uma atriz que está em plena atividade e que sempre nos dá prazer em testemunhá-la em cena.

 

Este artigo foi concluído em janeiro de 2010

 

João Rodolfo Franzoni é jornalista