Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

JANE, A PRIMEIRA E ÚNICA PIN-UP DOS QUADRINHOS INGLESES
Marco Aurélio Lucchetti



Certa vez, a inglesa Mary Pett recebeu um telegrama perguntando se não queria cuidar de um nobre visitante que não falava Inglês. Inspirando-se nesse fato, Norman Pett (1891-1960), o marido dessa inglesa fez uma tira – no primeiro quadrinho da tira, uma jovem loura com um rosto semelhante ao da atriz cinematográfica Claudette Colbert (1903-1996) está lendo um telegrama com os seguintes dizeres: “Aguarde conde Fritz von Pumpernikel – Recém-chegado da Alemanha – Não ser capaz de falar palavra de Inglês – Você irá adorá-lo”; nos dois quadrinhos seguintes, a loura veste uma roupa da última moda de Paris e maquila-se, a fim de causar uma boa impressão no conde; depois, nos dois últimos quadrinhos da tira, ela recebe uma caixa e, ao abri-la, descobre que o conde Fritz von Pumpernikel é, na verdade, um cãozinho, um basset alemão de pêlo curto – e enviou-a ao editor do jornal londrino Daily Mirror, Harry Guy Bartholomew.
Bartholomew, que, na época desejava estabelecer no Daily Mirror tiras diárias no mesmo estilo daquelas publicadas nos jornais norte-americanos, aprovou a tira e publicou-a na edição de 5 de dezembro de 1932, dando início às aventuras da loura Jane (1), cujo nome completo é, segundo algumas fontes, Jane Gay.



“Always a girl to show a leg” (numa tradução literal, “Uma garota sempre a mostrar uma perna”). Foi dessa forma que o inglês Denis Gifford, um dos mais conceituados pesquisadores dos quadrinhos britânicos, definiu Jane. Entretanto, essa adorável e simpática lourinha, em suas histórias, não mostra apenas uma perna: mostra o corpo inteiro. Ela está sempre se desnudando – ora ao trocar de roupa, ora ao tomar banho, ora ao ter as roupas rasgadas numa briga ou num acidente qualquer (e acidentes, a maior parte deles estrambóticos, são uma constante nas tiras de Jane) – e, em inúmeras ocasiões, tem o corpo coberto apenas por camisolas vaporosas ou pelos trajes usuais das pin-ups (2), isto é, sutiã, calcinha, cinta-liga e meias.
Nos primeiros anos, Jane (3) não passava de uma tira diária cômica, ou seja, cada tira contava uma piada. Posteriormente, a partir de 1938, quando o escritor Don Freeman (John Henry Gordon Freeman, 1903-1972) passou a auxiliar Pett nos roteiros, Jane transformou-se numa história em quadrinhos de Aventura. As histórias tornaram-se longas, com enredos mais densos e bem elaborados.



De acordo com algumas informações, vindas de fontes não muito confiáveis, Pett e Freeman reuniam-se nos pubs (principalmente no White Swan) em torno da Fleet Street, nas proximidades da sede do Daily Mirror, para criar as histórias de Jane. Assim, tomando um grande copo de cerveja amarga e escura ou uma dose de uísque escocês, a dupla ficava imaginando as maneiras de despir Jane.



“Nós, Norman e eu, devemos ter tido os melhores trabalhos das ilhas britânicas. Nosso único propósito na vida, nossa raison d’etre, era imaginar modos ridículos de tirar a roupa de uma mulher exuberante, uma mulher que, na verdade, era desejada pela maioria dos homens do mundo inteiro! E o melhor de tudo é que nós éramos pagos por isso!”
Don Freeman




Poucos dias após o início da Segunda Guerra Mundial (l939-1945), Jane engajou-se no Exército britânico: primeiramente, ela foi motorista e secretária de um coronel bigodudo; em seguida, tornou-se uma agente do M. Ii. 5, o serviço secreto inglês; depois, fez parte do Serviço de Inteligência da Marinha; por fim, voltou a ser uma agente do M. I. 5. Então, sempre acompanhada pelo cãozinho Fritz, lutou contra espiões nazistas, sabotadores, fascistas; e conheceu o louro e atlético Georgie-Porgie, que se tornaria seu namorado (4).
Durante a Segunda Guerra Mundial, quando se tornou a pin-up preferida das forças armadas da Grã-Bretanha (5), Jane foi  chamada pelo primeiro-ministro Winston Churchill (1874-1965) de “a arma secreta britânica”.



“Jane já era popular desde sua apresentação em 1932, pela facilidade com que se despia parcialmente. Durante a Segunda Guerra Mundial, (...) os soldados britânicos, que a consideravam ‘a primeira e única’ pin-up, acompanhavam suas aventuras com entusiasmo. Discutia-se muito se ela apareceria inteiramente nua; e, quando finalmente isso aconteceu, (...) para comemorar, a 36ª Divisão Britânica avançou dez quilômetros.”
História do Século 20




Na década de 1940, Jane percorreu os palcos dos music-halls ingleses, num espetáculo de strip-tease, sendo interpretada por Chrystabel Leighton-Porter (nascida Chrystabel Jane Drury, 1913-2000), que também a interpretaria no filme The Adventures of Jane (1949), produzido pela New World Films e dirigido por Edward G. Whiting.
Em 1948, as tiras de Jane passaram a ser realizadas pelo assistente de Norman Pett (6), Michael (Mike) Hubbard. Então, pouco a pouco, as histórias, que deixariam de ser escritas por Don Freeman em 1953, se tornaram aquilo que os italianos comumente denominam Letteratura Giallo-Rosa (Literatura de Mistério-Romântico).
Jane era uma das principais atrações do Daily Mirror, o que pode ser comprovado pelos seguintes percentuais de leitores do jornal que liam suas histórias: 86%, em 1937; 85%, em 1939; 90%, em 1946; 80%, em 1947; 79% em 1949; e 77%, em 1952.
Mas nada é eterno, nada dura para sempre. E, em 10 de outubro de 1959, um sábado, deu-se a última aparição de Jane. No primeiro quadrinho de sua derradeira tira, Jane está segurando ternamente o queixo de Georgie-Porgie e dizendo: “Tudo o que resta é o futuro, Georgie... Eu te amo sempre!” No segundo quadrinho, Georgie e Jane se beijam de forma apaixonada. E, no terceiro quadrinho, que mostra os dois numa canoa, cercados pela água e pela luz do crepúsculo, Georgie fala: “Jane, querida, agora é o momento de dizer adeus ao passado... Temos muito para fazer, planejando o futuro... Vamos calmamente desaparecer e começar de novo... Juntos...” E Jane concorda: “Sim, Georgie... Vamos...”



Dois dias depois da publicação da última tira de Jane, surgiu Patti, uma jovem loura que abandona a casa de sua tia e  parte em busca de aventuras.
Criada por Bob Hamilton, Patti teve suas histórias – nas quais é mostrada com freqüência em trajes menores – publicadas no Daily Mirror  durante pouco mais de um ano e meio (outubro de 1959-abril de 1961) e foi substituída por Jane, a protagonista de Jane... Daughter of Jane (Jane... Filha de Jane, numa tradução literal).



Criada por Albert Mazure (1914-1974) – nascido na Holanda e radicado na Inglaterra, esse quadrinhista tinha o hábito de assinar suas histórias em quadrinhos com as três primeiras letras de seu sobrenome –, Jane tem cabelos louros, olhos claros, um rosto atraente e um belo corpo; herdou da mãe o desembaraço para mostrar-se pouco vestida; e, infelizmente, teve uma curta existência, já que suas histórias apareceram no Daily Mirror durante apenas dois anos (agosto de 1961-agosto de 1963).

 

NOTAS:

(1) Em nosso país, diversas histórias de Jane foram publicadas, na década de 1940 e nos primeiros anos da década de 1950, no jornal A Noite, do Rio de Janeiro.

(2) Produto da indústria cultural, pin-up é uma imagem – desenhada ou fotografada – de uma mulher atraente que, por meio de  sua expressão e de sua atitude, consegue atrair a atenção do público masculino. É necessário, porém, que essa mulher tenha sido desenhada ou fotografada com a finalidade única de estimular eroticamente aquele que olhar para ela, sendo indispensável que seu desenho ou fotografia seja impresso (ou exibido na internet) e tenha uma ampla distribuição.

(3) Na verdade, essa história em quadrinhos intitulava-se Jane’s Journal – Or the Diary of a Bright Young Thing (Diário de Jane – Ou o Dia-a-dia de uma Jovem Brilhante, numa tradução lireral), que no Brasil ficou conhecida como Jane Pouca Roupa.

(4) Antes de conhecer Georgie, o namorado de Jane era um rapaz chamado Basil.

(5) De acordo com o livro 1001 Comics You Must Read Before You Die (Paul Cravett, organizador geral, Londres, Quintessence Editions, 2011, p. 84), as histórias de Jane eram lidas, durante a Segunda Guerra Mundial, por sete milhões de soldados britânicos.

(6) Após deixar de produzir Jane, Norman Pett criou, para o jornal Sunday Dispatch, a história em quadrinhos Susie, que teve uma curta existência.