Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

A FÁBULA DO MUSTANG COR-DE-SANGUE
Rubens Francisco Lucchetti



O avô do ano 2000 chamou o netinho e disse:
– Vou contar para você uma história do tempo em que os automóveis falavam. Era uma vez um Mustang cor-de-sangue...
Como era um Mustang? – Quis saber o netinho.
– Era bonitinho. Era assim como um atomicóptero, só que tinha rodas e corria no chão. Como corria um Mustang. Mas ele tinha um defeito: gostava muito de passar por cima das pessoas. Bem, era uma vez um Mustang cor-de-sangue, que vinha por uma rua e, de repente, viu um homem. Quis passar por cima do homem. Então, o homem pulou para a calçada. O Mustang correu também, e o homem correu em direção ao jardim de uma casa. O Mustang correu também, e o homem entrou na casa. O Mustang derrubou uma parede da casa e foi lá dentro passar por cima do homem, que se ajoelhou e falou:
“Mustang cor-de-sangue, eu estava no meio da rua; e me perseguiste. Eu pulei para a calçada, e me perseguiste. Eu corri para um jardim, e me perseguiste. Eu entrei nesta casa, e me perseguiste. Que devo fazer para que me deixes em paz?”
“Dirige um Mustang igual a mim e não te perseguirei mais.”
“Mas eu não posso dirigir um Mustang. Sou um pedestre.”
“Nesse caso, vou passar por cima de ti.”
“Não! Se tens um pouco de piedade, poupe-me a vida!”
“Não posso. Meu dono tomou seis uísques e, além disso, é filho de um senador.”

– E, após dizer essas palavras, o Mustang passou por cima do homem e saiu buzinando todo contente – concluiu o av.
O netinho do ano 2000 riu divertido e nem perguntou pela moral da história, porque naquele tempo também não havia moral.

 

Este texto foi escrito por volta de 1954

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos