Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

EM BUSCA DE UM SONHO
(versão romanceada do filme)
por Rubens Francisco Lucchetti



O grande e único sonho de Rose Hovick sempre foi o de ser uma artista de teatro. Porém, nunca pôde concretizá-lo. Primeiro, esse sonho foi sufocado por seu pai, homem extremamente prático e pouco interessado em arte; mais tarde, por seus três sucessivos maridos. Agora, que estava novamente solteira, Rose decidiu que suas filhas, Louise e Baby June, teriam aquilo que ela não tivera: luzes, aplausos, excitamento e todo o glamour do teatro. Assim, naquele princípio da década de 1920, Rose percorria de cima a baixo a costa do Pacífico, levando as meninas aonde quer que houvesse uma audição para artistas mirins. Louise, a mais velha, era desajeitada  e não demonstrava ter o menor jeito para se tornar uma atriz; por outro lado, Baby June revelava um talento natural para representar.
Elas estavam em Los Angeles, no Kiddie Kapers do Tio Jocko, quando Herbie Sommers cruzou pela primeira vez seu caminho. Como sempre fazia, Rose jogou sobre a mesa do proprietário do teatro meia dúzia de distintivos de sociedades maçônicas a que pertencia, esperando que as filhas fossem introduzidas no show  por uma questão de lealdade fraterna. Entretanto, seu plano falhou. E Herbie, que representava Tio Jocko, envolveu-se numa tremenda discussão com o dono do teatro e acabou sendo despedido.
Decidida, Rose empenhorou seus três anéis de casamento e, com as duas filhas, partiu no sacolejante carro da família. Ela conseguira que as meninas se apresentassem no Oregon, num teatro de Portland. Mas não chegaram a Portland, pois o carro enguiçou quando estavam próximas a Klamath Falls.
– Deve haver um teatro nesta cidade – disse Rose às filhas. – Vou ver um dos meus irmãos maçons.
Em Klamath Falls, o dono do cinema fazia parte de uma loja maçônica denominada Moguls. Rose vestiu um traje negro, como se fosse viúva de um irmão Mogul, deu a senha apropriada e fechou contrato para um show.
No cinema, havia um vendedor de doces, que ajudou Rose a melhorar as condições do contrato. Depois, os dois saíram do cinema de braços dados.
– Eu vi o número de suas meninas em Los Angeles – falou o vendedor de doces, sorrindo. – Eu era o Tio Jocko.
Rose levou a mão à boca, espantada, e exclamou:
– Tio Jocko! Mas onde estão os óculos? Como foi que se tornou vendedor de doces?
– Foi graças a você que eu deixei a profissão de ator – respondeu ele. – Vida de artista é difícil...
– Não, se ela estiver em seu sangue! – Afirmou Rose, levantando a cabeça orgulhosamente e falando com petulância.
– Sabe, Rose... Você fala com imposição. Tem a coragem daquelas mulheres que desbravaram o Oeste...



À noite, com as crianças abrigadas em segurança na casa de um irmão Mogul até a hora do show, Rose pôde jantar sossegadamente  com Herbie. E, durante o jantar, confiou a ele suas esperanças em Baby June.
– Gostaria de vê-la em um bom número. Muito cenário... e talvez umas seis mocinhas, todas morenas, a fim de realçar seus cabelos louros.
– Seria melhor que ela estivesse acompanhada por alguns rapazes, como nos espetáculos de Ziegfeld – sugeriu Herbie. – Disso eu entendo.
– Mas terei de adiar esse sonho.
– Por quê?
– Sou, antes de tudo, mãe, Herbie.
– Sim, e daí?
– June está precisando ir ao dentista. Por isso, vou levar minhas filhas de volta a Seattle, à casa de meu pai. Se tivéssemos chegado a Portland, as coisas seriam diferentes... Mas o dinheiro que estão ganhando aqui, no show, é muito pouco.
– Seattle é um bocado longe. Mais um pouco e chegariam ao Canadá.
A conversa prosseguiu; e, sem perceber, Herbie concordou em levar Rose e as filhas até Seattle. E, alguns dias depois, Rose, June, Louise e toda a bagagem eram entregues em grande estilo na porta da modesta casa do sr. Hovick. Dessa vez, no entanto, o velho Hovick não estava disposto a emprestar dinheiro algum à filha. Já bastava o dinheiro que lhe emprestara, ou melhor, lhe dera nas visitas anteriores.
– Isso não está certo, Rose! – Disse ele, tão logo as crianças foram postas na cama. – Louise já está em idade escolar. Se você não a matricular numa escola, a lei poderá tirá-la de você.
– Nunca! – Exclamou Rose. – É perfeitamente legal crianças trabalharem durante as férias de verão, desde que estejam em perfeita saúde e levem vida normal.
– O caso é que elas não levam uma vida normal! Só pagarei suas contas, se elas deixarem de viver como verdadeiras aberrações. Agora, coloque um avental e comece a varrer o chão, seguindo o exemplo de toda boa dona-de-casa!
Como poderia alguém que passara toda a vida dirigindo um caminhão de lixo entender o que se passava na alma de Rose, que estava faminta pelo brilho do teatro? Então, certo dia, chegou um telegrama. Era de Herbie, que estava em Chicago, e dizia o seguinte: “O show começa no Teatro Weber, Chicago, 20 de abril. Trezentos dólares. Contrato pede quatro meninos e duas meninas.”
Rose tentou novamente convencer o pai a dar-lhe o dinheiro necessário para as fantasias e o cenário, mas o sr. Hovick foi taxativo:
– Você devia envergonhar-se, Rose! Enchendo a cabeça dessas crianças com sonhos tolos! Nunca mais terá um níquel meu, enquanto não criar juízo!
Sem outra alternativa, Rose, furtivamente, empenhorou a placa de ouro que o pai recebera como recompensa pelos cinqüenta anos de bons serviços e partiu, com as filhas, para o Leste. A caminho de Chicago, contratou três rapazes, prometendo-lhes experiência, em vez de salário. Louise, com os cabelos cortados, substituiria o quarto menino; e Baby June e Seus Rapazes estreou em Chicago na data marcada.
A pequena June, usando o vestido mais espalhafatoso que Rose conseguira fazer para ela, entrava rodopiando no palco e, terminado o rodopio, cumprimentava graciosamente:
– Alô, pessoal! Meu nome é June!
E a platéia delirava.



O aplauso era música deliciosa que enchia os meses e os anos, que passavam velozmente. Rose não se enganara acerca de June. A menina estava pronta para o show business. Herbie Sommers tornara-se empresário e vendia o show tão bem quanto vendia seus doces, algo que não deixara de fazer, apesar de tudo. Com o passar do tempo, Baby June tornou-se a Graciosa June. Mas o número continuava sempre o mesmo.
Os anos transcorreram felizes... até que uma nuvem chamada Grande Depressão se abateu sobre os Estados Unidos e liquidou quase todo o show business.
Nova York era o grande sonho de Rose. A caminho da grande cidade, apresentaram-se em Newark, no estado de Nova Jersey, no dia do décimo quarto aniversário de Louise. Para comemorar a data, Rose apresentou um bolo, que escondera no armário, e preparou para o desjejum uma iguaria chinesa, a preferida de toda a família. Os rapazes do show, ainda sem receberem salário, haviam roubado – das lojas de bugigangas – presentes para Louise.
Teria sido um belo aniversário, se o gerente do hotel, sr. Kringelein, não tivesse farejado os ovos sendo cozidos e irrompido no quarto para averiguar. O sr. Kringelein não permitia que se cozinhasse, que se tivesse animais ou que se abrigassem seis pessoas em espaço alugado para três. Portanto, Rose estava infringindo as normas do hotel. Ela ainda discutia com o sr. Kringelein, quando Herbie chegou com o sr. Goldstone, que agenciava shows para os teatros Grantziger, de Nova York. Herbie vendera o A Graciosa June e Seus Rapazes a Goldstone.
Oferecendo o petisco chinês ao sr. Goldstone, Rose estava no sétimo céu. Seu último sonho era acrescentar um macaco, um cordeiro e uma vaca falsa de olhos tristes ao show, que passaria a se chamar A Graciosa June e Seus Fazendeiros.
Como todos haviam esquecido seu aniversário. Louise desceu a escada de incêndio e foi acariciar o cordeirinho que Herbie lhe dera. Momentos depois, Herbie surgia a seu lado.
– Ah, você está aqui – disse ele. – Eu estava procurando-a.
– Eu sei cuidar de mim mesma – replicou Louise.
– Claro que sabe. E você é uma boa artista também.
– Não. Herbie. Não tenho talento algum.
– Você tem talento para muitas outras coisas, sem ser o vaudeville. Você tem talento para... – Herbie olhou para o cordeirinho – ...cuidar de animais. Não se preocupe. Muito em breve, Rose se casará comigo; então, farei um cercado no fundo do quintal, para a bicharada.
– Seria adorável, Herbie – suspirou Louise. – Mas isso não passa de um sonho.
– Talvez não. Você e eu queremos deixar o show business. E sua mãe só quer que June seja uma estrela. Se o sr. Grantziger ver em June o que nós vemos, ele cuidará dela. E nós poderemos nos retirar.
– É o que mais desejo! – Exclamou Louise. – Mas mamãe nunca concordará.
Para uma adolescente, Louise falava com muita propriedade. Ela era uma autoridade, quando o assunto era Rose Hovick.



Na noite anterior à audição de June, Herbie tentou centenas de vezes obrigar Rose a dizer-lhe quando se casaria com ele. Mas os pensamentos de Rose estavam todos voltados para os dias de glória que estavam por vir, uma vez que June se apresentaria no teatro dos teatros, o Tivoli, pertencente à cadeia de teatros Grantziger.
A audição aconteceu na hora marcada. E foi apresentado o show A Graciosa June e Seus Fazendeiros, no qual Louise, sem graça como era, teve de representar a vaca.
Terminada a apresentação, Rose, Herbie, June e Louise foram chamados ao escritório envidraçado do sr. Grantziger. Foram recebidos pela secretária do empresário, srta. Betty Cratchitt, que já os esperava com um contrato pronto. Rose leu ansiosa o contrato; e, pouco a pouco, sua fisionomia carregou-se.
– Há um erro aqui – disse ela. – Nós nos apresentamos para um número no Tivoli. O contrato aqui é para o Variety, na Rua Doze. Onde está o sr. Grantziger?
– Lá embaixo, no palco – respondeu a srta. Cratchitt.
– Mas que negócio é esse? – Indagou rispidamente Rose. – Quando estamos lá embaixo, ele está aqui em cima. Quando estamos aqui, ele está lá?
– O sr. Grantziger é um homem inteligente e de visão – retrucou a srta. Cratchitt. – Se eu fosse a senhora, assinava logo esse contrato. O sr. Grantziger só gostou de uma coisa no show...
– Qual?
– June. Ele acha mesmo que ela pode ser uma artista na Broadway, desde que...
– Desde que o quê? – Atalhou Rose, pressentindo que o pior estava por vir.
– Desde que ela estude canto e dança com dedicação, durante alguns anos.
– Isso é ótimo, Rose – interveio Herbie. – Grantziger quer apadrinhar June. Ele custeará os estudos dela.
– Mas há uma condição para isso – interrompeu a secretária, olhando diretamente para Rose. – A senhora fica de fora.
– Sou a mãe dela! – Replicou Rose, furiosa. – E o A Graciosa June e Seus Fazendeiros?
– Uma semana no Variety. E só! – Retrucou a srta. Cratchitt.
– O Variety não é um teatro digno para o nosso show! – Protestou Rose.
– Deixe June aos cuidados do sr. Grantziger. Eu tomo conta de você e de Louise – falou Herbie, com ansiedade.
Excitada pela oportunidade, June implorou à mãe:
– Por favor, mamãe, diga que sim.
Mas Rose disse não e saiu furiosa para falar com Grantziger. Desalentado, Herbie a seguiu, ainda tentando dissuadi-la da decisão.
No escritório, Louise procurava consolar June:
– Mamãe ficou apenas irritada. Ela não vai estragar as coisas.
– Sim, ela estragará – murmurou June. – Nunca serei nada! Se mamãe ao menos compreendesse o que esta oportunidade significa para mim... O vaudeville está fora de moda, Louise. Acabou! O show business que sobreviveu é o da Broadway.
Mas os sonhos de Rose não incluíam sonhos em que ela não tomasse parte. Deixou as meninas trabalharem naquela semana no Variety, mas não iria casar-se e retirar-se, deixando June brilhar sozinha na Broadway.



Quando a semana terminou, eles estavam de volta à estrada. E, onde quer que se apresentassem, cartazes anunciavam:
“O edifício será demolido em breve” ou “Aqui, dentro de sessenta dias, será construído um clube de boliche.”
Representaram em Omaha e, depois, iriam para Dallas.
Esperando o trem, Rose nunca se sentira mais confiante. Sua única preocupação eram as meninas, que tinham ido a uma matinê de cinema e talvez se atrasassem. De repente, ela ouviu Tulsa e outro dos rapazes murmurando algo para Herbie. Aproximou-se deles e ouviu a frase: “Não iremos para Dallas.”
– Que disse? – Indagou Rose, aproximando-se mais.
– Estamos determinados, sra. Hovick! – Disse Tulsa. – Iremos para direções diferentes. Queremos nossas passagens de trem.
– Isso quer dizer que pretendem deixar o número? É isso? – Perguntou Rose, com indignação.
– Não é nada pessoal contra a senhora. Apenas desejamos ir embora.
– Ingratos! – Exclamou Rose. – Herbie, dê-lhes as passagens. De qualquer modo, só serviam para estragar o número. Agora, quanto ao Jerry...
– Jerry já foi – anunciou Tulsa calmamente. – Ele próprio comprou sua passagem.
Foi então que Louise surgiu, correndo, com um papel na mão. Não fora ao cinema. Estivera andando por Omaha... atrás da irmã. Quando voltara ao hotel, encontrara um bilhete de June.
– O homem da portaria deu-me este bilhete, mamãe – falou Louise. – Leia-o!
Aturdida, Rose leu vagarosamente o que lhe escrevera a filha caçula. June tivera um pesadelo em que era uma velha e ainda atuava em A Graciosa June e Seus Fazendeiros. Por isso, casara-se com Jerry e ia tornar-se uma atriz de verdade.
Rose sentou-se num banco próximo. Herbie correu ao guichê, para perguntar como devia fazer para chamar a polícia e capturar os fugitivos. Pouco depois, voltou com a notícia de que em Nebraska era legal uma noiva ter doze anos e o noivo dezesseis. Portanto, a lei não iria intervir. Resignado, ele deu as passagens a Tulsa e o outro rapaz e balbuciou respostas aos desajeitados adeuses. Para Louise, o pior era ver Tulsa partir.
– Sinto muito que tudo tenha terminado assim – disse Tulsa, despedindo-se com pressa. – Mas temos de pensar em nosso futuro, Louise. E, agora, que você vai fazer? Talvez voltemos a nos encontrar, algum dia. E quem sabe até representemos no mesmo show.
– Nunca mais teremos um show, Tulsa. Estamos liquidados.
– Você é uma menina e tanto, Louise.
– Sim – concordou ela, numa murmúrio. – Sou, sim.
Quando os rapazes se afastaram, Rose ainda estava em estado de choque. Herbie tentou tudo, falando-lhe que se casariam e teriam um lar de verdade. Porém, Rose reagiu como se não o escutasse.
– Os meninos nos abandonaram porque acharam que o show estava liquidado – falou Rose. – Ora, quem precisa deles? Fui eu que idealizei o show e posso fazê-lo outra vez. – Olhou para Louise e anunciou: – Agora, vou torná-la uma estrela!
– Rose! – Exclamou Herbie, traduzindo com seu grito o desalento de Louise.
Entretanto, Rose não o escutava e concluiu:
– Estamos apenas começando! Esperem e verão!



O novo show, As Toureadoras Adoráveis de Madame Rose, era composto unicamente por moças, como Rose queria desde o início. Tinha um pouco de sabor espanhol, e Herbie fora incumbido de escolher seis garotas mais ou menos talentosas para acompanhar Louise. Em lojas do Exército, Rose comprara tendas de campanha, a fim de economizar o dinheiro que gastariam em hotéis. Ela ensaiava Louise e as outras moças onde quer que fossem armadas – nos arredores das cidades – as barracas, enquanto Herbie procurava contratos nos teatros locais.
Porém, nenhuma dose de determinação, por maior que fosse, conseguia arrancar algum talento de Louise. Ela lutava bravamente, fazia o possível para substituir June; no entanto, não havia peruca loura ou roupagem cintilante de toureiro que lhe desse o que a Graciosa June tinha.
– Mamãe – disse ela, certo dia, chorando, – não sirvo para isso.
– Não seja tola! – Gritou Rose. – É claro que serve!
Mas, quando se tornou óbvio até mesmo para Rose que As Toureadoras Adoráveis não iria a lugar algum, ela comprou água oxigenada e alguns pentes e transformou a trupe inteira em Rose Louise e Suas Louras de Hollywood. E Herbie conseguiu contrato no Opera House, de Wichita.
Quando chegaram ao teatro, Herbie foi imediatamente cuidar dos anúncios. Rose andava nas nuvens. Louise ajudava as outras moças a descer as bagagens e se maravilhava com a música que tocava no palco. O gerente do teatro, um homem chamado Patsy, ordenou a elas que se dividissem em dois grupos e fossem para os camarins, um já ocupado por Tessie Tura, a “Contorcionista do Texas”, e outro por Mazeppa, a “Revolução da Dança”.
– Enfim, estamos de volta ao teatro – exultou Rose, entrando no camarim onde estava Louise. – Um teatro de verdade... – Interrompeu o que dizia e olhou atônita a stripper que acabava de entrar. Em um segundo, havia compreendido tudo. – Pegue as malas, Louise! E as fantasias também! Mas que espécie de teatro é este?!
– É um teatro de espetáculos burlescos – respondeu Louise. – Mas tenho certeza de que Herbie não sabia disso. Foi por telefone que ele...
– Quero todas vocês fora daqui em dois segundos! – Ordenou Rose. – As malas que não puderem carregar... serão levadas por Herbie. Filha minha não trabalha em teatros que apresentam shows burlescos. O pessoal do vaudeville nem sequer se hospeda no mesmo hotel em que vão essa gentalha do burlesco!
Louise não se moveu de onde estava e indagou:
– E onde é que iremos trabalhar? Estamos completamente falidas, mamãe. Temos de pegar esse trabalho.
Herbie entrou.
– Rose... Eu não sabia... – Falou ele, completamente consternado.
– Bem... Que diferença faz?! – Replicou a mulher, compreendendo que Louise tinha razão. – O dinheiro é tão bom como qualquer outro, e serão apenas duas semanas...



Estavam compartilhando o camarim com Tessie há menos de uma hora, e Louise já convencera a stripper de que poderia fazer seus vestidos a trinta dólares cada um. Já fazia muito tempo que a jovem costurava as roupas para o show A Graciosa June e Seus Fazendeiros.  Sabia costurar muito bem. O dinheiro extra viria a calhar, para depois que o contrato terminasse.
Quando Rose saiu do camarim, Tessie comentou:
– Pelo modo como essa mulher anda, teria dado uma ótima strip-teaser na mocidade.
E, na segunda noite em que estavam em Wichita, Patsy apareceu no camarim e tentou convencer Tessie a substituir um ator cômico que se recusara a travestir-se de mulher.
– Eu sou uma stripper, meu caro! – Replicou Tessie.
– Mas tudo o que terá de fazer será participar do coro... Nem precisará cantar, basta fazer mímica. E, depois, dirá algumas poucas palavras!
– Ora, dê o fora!
– São apenas algumas linhas – implorou o gerente de teatro. – Eu lhe darei dez dólares pelo trabalho!
Como Tessie sacudiu negativamente a cabeça, Louise interveio na conversa:
– Eu posso dizer essas poucas linhas.
Patsy aceitou o oferecimento e saiu. Rose estava desconfiada, imaginando que espécie de texto Louise teria de dizer.
– É a mesma piada burlesca que contam desde o ano passado – explicou Tessie. – Por onde andaram vocês? No Pólo Norte?
– Diga o nome de uma grande cidade, – retrucou Rose, – e já teremos representado nela!
– Vovô diz que andamos pelo país como ciganos – acrescentou Louise.
– Você pode ser uma cigana... – Sorriu Tessie. – Ei! Este seria um bom nome para você, se algum dia for stripper: Gypsy Rose Louise!
– Ela nunca será uma stripper! – Esbravejou Rose. – Estamos aqui temporariamente. Depois, voltaremos ao vaudeville. E ela será uma estrela!
Rose teria morrido ali mesmo, se soubesse que Tessie, Mazeppa e a outra stripper do show, Electra, estavam conquistando sua filha e ensinando-lhe  a arte do strip-tease.



Para Rose, aquelas duas semanas em Wichita eram como uma pedra tumular em seus sonhos. Ela admitiu isso a Herbie.
– Você venceu – disse ela. – Chegamos ao fim da linha. Cumpriremos este contrato e ponto final.
– Nesse caso, devemos fazer novos planos sem demora – disse ele, compreensivo.
– Acho que chegou a hora de eu dizer sim ao seu pedido de casamento.
– Podemos nos casar hoje mesmo.
– Não me casarei, enquanto estivermos trabalhando neste teatro burlesco.
– Então, que tal nos casarmos no mesmo dia em que encerramos o show?
– Negócio fechado!
Mas, enquanto dizia essas palavras, Rose prestava atenção a uma conversa do proprietário do teatro com Patsy.
– Não sei por que me meti neste negócio... – Queixava-se o dono do teatro. – Só me dá dor de cabeça. Agora, a nova stripper foi presa por roubo.
– Ela está na cadeia?!
– Isso mesmo. Seu número terá de ser riscado do show.
– Se fizermos isso, a platéia colocará o teatro abaixo. Os homens já estão cansados de ver as mesmas garotas. Ela era a única novidade!
Rose aproximou-se dos dois homens e anunciou:
– Minha filha pode fazer esse número.
Herbie olhou-a, estupefato.
– Minha filha já viu como é que se faz – continuou a mulher. – Ficará linda nos vestidos. E o papel de estrela do show significa salário de estrela. Sei que ela se sairá maravilhosamente bem.
Sem se importar com o olhar atônito de Herbie, Rose entrou no camarim.
– Eu sabia que alguma coisa apareceria – falou para Louise, que escutara toda a conversa. – Onde está o vestido que estava fazendo para Tessie? Vamos, trate de maquilar-se, porque não temos muito tempo! Você só precisa andar de um lado para o outro no palco, enquanto vai tirando uma peça de roupa de cada vez. Lembre-se de que tem de andar seguindo o compasso da música. Eu lhe prometi e lhe consegui o lugar de estrela, Louise!
– Você não pode permitir que Louise faça uma coisa dessas, Rose! – Protestou Herbie, angustiado.
– Por que não, Herbie? Louise foi um fracasso no vaudeville, mas triunfará no burlesco!
Rose voltou novamente sua atenção para Louise, dando instruções, preparando-a para entrar no palco. A expressão enojada de Herbie não lhe importava nem um pouco, era como se o homem não existisse.
– O carro está lá fora, Rose – disse Herbie, depois de algum tempo. – As moças já estão esperando. Vou levar as malas; e nós, eu, você e Louise, vamos embora. Nós vamos nos casar! Já esqueceu? Chega de show business!
– Herbie, Louise tem de se lembrar de que foi uma estrela! – Replicou calmamente Rose.
– Você quer que sua filha tire a roupa diante de uma turba de selvagens? Quer que ela seja comida pelos olhos de um bando de degenerados? É isso que você quer, Rose?
– Quando uma estrela está no palco, há uma parede invisível entre ela e a platéia. Será que não percebe que eu tenho de fazer isso? Que tenho de conduzir minha filha rumo ao estrelato?
– Não, Rose, não vejo isso! Só vejo o que eu tenho de fazer. Estou indo embora e vou levar as outras moças até suas casas. Não haverá mais casamento. Você não nasceu para ser uma esposa.
– Você está com ciúmes! – Explodiu Rose. – Ciúmes... porque minha filha vem e sempre virá em primeiro lugar!
– Adeus, querida – despediu-se Herbie, saindo do camarim. – Seja feliz!
Nesse instante, o gerente do teatro entrou e foi logo falando:
– Espero que saiba o que está fazendo!
– Eu sei! – Afirmou Rose. – Sei muito bem o que estou fazendo. Você está linda, Louise!
Vestida e preparada para entrar no palco, Louise olhou-se ao espelho e viu que a mãe tinha razão. Era uma jovem bonita, muito bonita mesmo. Portanto, não devia ter medo de tirar a roupa no palco.
No início do show, ainda não estava muito certa; mas, depois, lembrou-se das instruções de Tessie e improvisou... Quando tirou a segunda luva, a platéia delirou. Então, Louise soube finalmente que havia encontrado seu talento, o talento que ela e sua mãe tanto procuravam.



Wichita foi apenas o começo. Em Detroit, Louise foi anunciada como “a adorável novata, srta. Gipsy Rose Lee”; na Filadélfia, como “a adorável nova estrela”. E duas temporadas depois, com seu número aprimorado e dotado de uma dose de humor sarcástico, estava em Nova York e o Minsky’s World Famous Burlesque apresentou-a como a “Rainha do Strip-Tease”.
Era noite de Ano- Novo no Minsky’s, e Louise era a principal atração de uma custosa e colorida produção. Ela cintilava. A platéia dali não era a ralé de Wichita, e o show era fino. Mas na porta do palco havia um aviso: “A mãe de Gypsy Rose Lee não pode entrar nos bastidores.”
Quando Rose chegou e viu o aviso, rasgou-o furiosa. Entrou, como um furacão, no camarim e encontrou-o cheio de frascos de perfume e bibelôs. Uma criada francesa chamada Renée cumprimentou-a respeitosamente.
A música do número de Louise lá no palco podia ser ouvida perfeitamente. Pouco depois, Louise entrou.  Ainda sorria; mas, ao ver a mãe, seu sorriso desapareceu.
– Sim – disse Rose. – Sou eu. Você precisa de alguém para lembrar-lhe que seu objetivo era tornar-se uma grande estrela e não uma stripper qualquer.
– Não sou uma stripper qualquer! – Replicou Louise. – Sou a mais bem paga das strippers. Finalmente, nós duas descobrimos qual é o meu verdadeiro talento. – Virou-se para o espelho e informou: – Um fotógrafo vem tirar umas fotos; e, depois, vou a uma festa.
– Nos velhos tempos, eu era convidada em primeiro lugar – queixou-se Rose. – Bem, de qualquer forma, eu não iria mesmo. Vou estar ocupada... tentando criar alguma coisa nova para o seu show.
– Não precisa criar nada... Eu é que quero surpreendê-la no sábado.
– Quê?!
– Eu tive alguma idéias, mamãe.
– Então, deixe-me fazer-lhe um vestido novo.
– Não precisa. Já há todo um novo figurino pronto...
– E seu banho?
– Renée o preparou...
– Ora, deixe-me fazer alguma coisa!
– Quer fazer o quê, mamãe? Não há mais nada para fazer! Olhe para mim! Não tenho educação, nem talento; mas sou uma estrela! E, pela primeira vez na vida, estou vivendo e sendo feliz. E estou gostando de ser Gypsy Rose Lee.
Antes que Rose pudesse dizer alguma coisa, o fotógrafo entrou, acompanhado por um jornalista.



O teatro estava vazio. Rose vagou pelo palco deserto e se pôs a olhar fixamente as fileiras de cadeiras vazias. Só uma luz iluminava o palco.
– Você não tem talento, srta. Gypsy Rose Lee! – Gritou Rose para a platéia invisível. – Fui eu quem a fez! E sabe por quê? Porque nasci cedo de mais e comecei muito tarde. Com o que sei, seria melhor que qualquer uma de vocês! Se eu fosse uma estrela, nunca haveria cartazes suficientemente grandes! Não haveria luzes suficientemente brilhantes!
Levantou a cabeça e os braços, com ar de desafio. E, então, compreendeu tudo. Não lutara por Baby June ou Louise... Mas por ela própria. Fizera tudo para ela mesma. Queria brilhar por intermédio das filhas.
Sentou-se, pensando nos aplausos que poderia ter sido seus. Pouco depois, Louise emergiu das sombras. Rose olhou-a e deu um sorriso forçado.
– Eu estava aqui imaginando algumas idéias originais para você – falou Rose.
Louise não se deixou enganar e disse:
– Você realmente teria sido uma grande estrela, mamãe, se tivesse alguém que a empurrasse, como eu tive!
– Se eu tivesse de ter sido, teria sido – replicou Rose. – O show business é assim, minha filha. Tudo o que eu queria era ser notada.
– Como eu queria que você me notasse – retrucou Louise melancolicamente. E, por um momento, voltou a ser a menina Louise, cuja vida era completamente anulada pelo talento e o brilho de sua loura irmã. – E ainda quero, mamãe. Você vem comigo à festa!
– Neste traje? – Indagou Rose, olhando o vestido barato que estava usando.
– Você usará meu casaco – disse Louise, retirando o macio casaco de peles. – Tenho uma estola no carro.
– Bem... Só vou ficar uma ou duas horas. Hummm... Este casaco fica melhor em mim do que em você, sabia? Eu tive um sonho esta noite. Mostrava um grande cartaz de mãe e filha, eu e você... E lia-se embaixo: “Madame Rose e Sua Filha Gypsy.”
Louise lançou-lhe um olhar astuto, e Rose o compreendeu. As duas saíram rindo, de braços dados, e desapareceram nas sombras do palco escuro.



Título original: Gypsy
Ano de produção: 1962
Tempo de projeção: 143'
Direção: Mervyn LeRoy
Roteiro: Leonard Spigelgass, baseando-se na peça Gypsy a Musical Fable, uma adaptação do livro Gypsy – A Memoir, de Gypsy Rose Lee
Elenco:
Rosalind Russell (Rose Hovick)
Natalie Wood (Louise Hovick, a Gypsy Rose Lee)
Karl Malden (Herbie Sommers)
Suzanne Cupito (Baby June)
Ann Jilliann (Graciosa June)
Diane Pace (Louise Hovick, quando criança)
Harry Shannon (sr. Hovick)
Parley Baer (sr. Kringelein)
Ben Lessy (sr. Goldstone)
Jean Willes (Betty Cratchitt)
Paul Wallace (Tulsa)
Betty Bruce (Tessie Tura)
Faith Dane (Mazeppa)
Roxanne Arlen (Electra)
Guy Raymond (Patsy)