Jornal do Cinema - nº 5 - SINO DE NATAL
Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

CHERCHEZ LA FEMME!
Marco Aurélio Lucchetti



“A fêmea em todas as espécies é sempre mais mortal do que o macho!” Essa frase foi dita pel’O Fantasma na história “O Segredo do Hotel Cascata” (“Mystery of Wamba Falls Inn”, páginas dominicais de 4 de julho de 1965 a 24 de outubro de 1965), logo após prender a exuberante e perversa Eurada (ela fazia parte de um trio de malfeitores especializado em assassinar mineiros endinheirados que se hospedavam no Wamba Falls Inn, um hotel construído sobre ruínas antigas no meio da selva). E, em algumas aventuras d’O Fantasma (histórias essas escritas por Lee Falk e desenhadas por  Ray Moore, Wilson McCoy e Sy Barry), os leitores têm oportunidade de comprovar que, a exemplo das fêmeas de outras espécies, as mulheres são extremamente perigosas e, quando necessário, mais mortais do que a maioria dos homens (isso talvez aconteça porque na mulher os instintos de sobrevivência e de preservação da espécie são muito mais intensos do que no homem). Nessas histórias, produzidas principalmente entre 1936 e 1948, o Espírito-Que-Anda enfrenta diversas mulheres fora-da-lei – são criminosas que sabem ser cruéis ao extremo (algumas matam com uma facilidade!) e que usam sua beleza, inteligência e sensualidade (nunca Ray Moore e Wilson McCoy desenharam figuras tão sensuais) para o mal.
Vale destacar que há histórias em que O Fantasma luta contra sociedades criminosas formadas exclusivamente de mulheres. Como exemplos dessas histórias, podem ser citadas: “Os Piratas do Céu (“The Sky Band”, tiras diárias de 9 de novembro de 1936 a 10 de abril de 1937),  que tem alguns dos melhores diálogos escritos por Lee Falk e na qual surge uma quadrilha especializada em assaltar aviões que sobrevoam Bengala; “O Círculo Dourado!” (“The Golden Circle”, tiras diárias de 4 de setembro de 1939 a 20 de janeiro de 1940), em que aparece o Círculo Dourado, um grupo de ladras de jóias que se estabeleceu em Paris; “As Sereias do Estreito de Melo!” (“The Mermaids of Melo Straits”, tiras diárias de 12 de novembro de 1945 a 16 de fevereiro de 1946), na qual as vilãs são mulheres que se dedicam a roubar navios em alto-mar (elas se fantasiam de sereias, a fim de atrair os navios que se aproximam do Estreito de Melo); e “O Barco Senhora Fortuna” (“The Lady Luck”, tiras diárias de 24 de maio de 1948 a 30 de outubro de 1948).



“‘Os Piratas do Céu’, segunda aventura de O Fantasma, contém todos os ingredientes que fizeram dessa bande dessinée (...) uma das mais populares de todos os tempos. (...)
(...) Os Piratas do Céu em questão são belíssimas pistoleiras, ‘em roupas decotadíssimas, não raro abertas lateralmente até as coxas, peritas em lançar olhares langorosos e sedutores para o herói.’ A história se desenrola num mundo feminino, liberado avant-la-lettre; e as anti-heroínas são as primeiras a reconhecê-lo. Ao ser obrigado a entrar num avião sob a mira de um revólver, o Espírito-Que-Anda não esquece suas maneiras e comenta:
‘Na minha terra, as damas vão na frente, Baronesa!’
‘Este é um mundo diferente, amigo’, responde a nobre bandida. ‘Quero que esteja onde posso vigiá-lo!’
Tanto a Baronesa como a doce Sala (...) se apaixonam furiosamente pelo mascarado. Elas reclamam muito do seu (...) distanciamento emocional, mas caem como passarinhos. O Fantasma tira partido total desse seu poder de atração físico-química. Acusado por Sala de ter beijado a Baronesa, ele responde que ‘beijaria uma cascavel, se fosse o único jeito de não ser mordido’. Ele sente que a sua presença num mundo feminista (e, portanto, com certos acordes homossexuais) é perturbadora, e aí mesmo que aproveita.”
Alfredo Grieco