Ano 4 - nº 12 - fevereiro/maio de 2012

APRENDENDO A VIVER
Hedda Hopper



Jerry Lewis nunca poderá se esquecer de 1954, ano em que, depois de vencer dissabores e doença, começou realmente a viver, gozando tudo de bom que a vida lhe podia dar.
De seus atritos com o companheiro Dean Martin e de sua doença, todo o mundo já sabe; mas ninguém sabia que sua esposa, Patti, esteve a ponto de se separar dele, por causa da vida boêmia que Jerry insistia levar.
Jerry Lewis só compreendia divertimento quando estava com a casa cheia de amigos ou com a mesa repleta de gente, nos restaurantes e boates; e a coisa chegou a tal ponto que Patti sentiu que não podia mais suportar aquele aspecto de clube que sua casa havia adquirido, sempre cheia de gente e movimentada.
Ela, que havia trocado sua carreira pela vida em família, de dona-de-casa, no sentido completo da palavra, não se conformava com aquele ambiente de vaudeville que tinha no lar. Não podia ir do quarto à cozinha sem esbarrar em pessoas mais ou menos desconhecidas para ela, que lhe tiravam inteiramente a liberdade.
De vez em quando, depois de ouvir as reclamações da esposa, Jerry procurava modificar-se; e passavam uma ou duas semanas com menos visitas e mais sossego. Mas aquilo durava pouco; e voltavam a não ter um só dia de descanso para dormir até mais tarde, fazer um passeio ou qualquer outra coisa normal a um casal. O sorriso de Patti, antes alegre e espontâneo, havia se transformado numa máscara de tragédia; e finalmente chegou o dia em que ela não agüentou mais. Os convidados todos já haviam saído. Os cinzeiros transbordavam de cinzas e de pontas de cigarro, e reinava a mais completa desordem na casa toda. E Jerry deveria estar calmamente se preparando para dormir, quando Patti resolveu lhe falar:
– Precisamos conversar, Jerry.
– Está bem – respondeu ele, com a despreocupação de quem havia passado uma noite alegre e divertida.
– O caso é que eu não posso mais suportar essa vida que estamos levando – disse Patti, falando pausadamente. – Olhe à sua volta e repare que você transformou o nosso lar num palco de teatro. E, se é assim que você compreende a vida em família, não conte mais comigo. Um de nós dois terá de se afastar, Jerry.
– Mas... – Protestou ele, calando-se logo em seguida, pois sua esposa, cheia de razão, continuava a expor seus motivos, lembrando-lhe que haviam se casado por amor e que ela queria ter ao seu lado o mesmo rapaz com quem se casara, dez anos atrás, e não um sócio ou um mero pagador de contas.
Ele lhe havia dado tudo o que se pode comprar com o dinheiro, esquecendo-se de que a felicidade não se compra e que Patti daria tudo o que possuía para ter, em troca, algumas horas de tranqüilidade, a sós com o marido.
Jerry Lewis ouviu tudo calado e, ao fim da conversa, reconheceu que a esposa tinha razão. Então, prometeu, com toda a sinceridade, que iria se modificar.
Porém, logo depois daquele incidente, ele caiu gravemente enfermo e passou várias semanas entre a vida e a morte, chegando o médico a levantar a suspeita de ele estar com câncer, o que felizmente não se confirmou.
– E foi durante esse tempo, Hedda, – disse Jerry, quando fui visitá-lo, – que tive oportunidade de pensar na vida, nos problemas e prazeres que ela nos oferece. Então, mudei inteiramente minha maneira de pensar, como se só naquela ocasião me tivesse tornado uma pessoa adulta.
“Quando pedi Patti em casamento, tinha dezoito anos de idade e quase nenhum dinheiro. Mesmo assim, prometi-lhe dez coisas, inclusive um Cadillac, um casaco de peles, um anel de brilhantes e um colar também de brilhantes. Hoje em dia, dez anos depois, consegui dar as dez coisas que prometi a Patti; entretanto, reconheço que a via mais contente quando recebia uma palavra de estímulo ou de carinho... do que quando recebia algum dos presentes que lhe havia então prometido. Patti  é uma mulher perfeita, Hedda... tanto como esposa quanto como dona-de-casa. É incapaz de comprar um enfeite que seja, para a nossa casa, sem pedir a minha opinião.
“E, para você melhor ficar sabendo quem é minha esposa, basta que lhe diga que certa vez, depois de ficar quatro anos prometendo a ela uma viagem de férias a Honolulu, estávamos já de passagens compradas para partir, quando Dean Martin me pediu que o acompanhasse até Carmel, pois atravessava um período de forte depressão nervosa e necessitava muito de meus conselhos e de minha ajuda. E, assim que expliquei o fato a Patti, ela não se mostrou aborrecida e foi devolver as passagens.
“É que ninguém melhor do que ela conhece a amizade que me une ao Dean. Já em 1944, quando estávamos sem trabalho, Patti, muito nos ajudou, pois cantava na orquestra de Jimmy Dorsey e era a pessoa da família que ganhava dinheiro. E fique certa de que é verdade que foi ela quem me emprestou um dólar, para pagar nossa licença de casamento... e, depois, mais vinte e cinco, para que pudéssemos passar o fim de semana fora.
“Sou uma pessoa de temperamento supersensível, Hedda. E tanto essas coisas como as coisas desagradáveis calam fundo em meu espírito.
“Quando houve aquele incidente entre mim e Dean Martin, fiquei arrasado!”
– E, por falar nisso, – disse-lhe eu, – que aconteceu, realmente, entre vocês dois?
– Durante oito anos em que trabalhamos sempre juntos, – respondeu Jerry, – nunca fomos capazes de fazer qualquer reclamação, um em relação ao outro, embora muitas vezes tivesse havido motivos para isso. A grande amizade que nos unia, fazia-nos engolir qualquer  queixa. Até que chegou o dia em que Dean resolveu estourar, acusando-me de várias coisas, muitas das quais eu não havia feito. Fiz o mesmo com ele; e, finalmente, depois de uma conversa que durou três horas, pusemos tudo em pratos limpos e voltamos a ser os amigos de sempre.
“Mais tarde, conversando com Dean Martin, ele teve ocasião de me dizer que, aquela briga nos aproximara ainda mais.”
Pessoalmente, acho que o segredo dessa amizade entre Martin e Lewis é o fato de possuírem gênios inteiramente opostos. Dean Martin, por exemplo, é calmo, enquanto Jerry Lewis é nervosíssimo. Dean considera sua carreira como parte de sua vida, mas Jerry considera-a sua própria vida. Dean é uma pessoa de ótimos sentimentos, mas não gosta de demonstrá-los; Jerry é o tipo da pessoa sentimental, com as emoções à flor da pele.
Quando Jerry Lewis esteve doente, Dean ia diariamente visitá-lo. Mas nunca ninguém ficou sabendo se estava preocupado com o amigo, se rezava ou chorava por ele.
– Certa vez, em Nova York, – contou-me Jerry, – numa época em que trabalhávamos de dia e de noite, tive um desmaio em um de nossos espetáculos. Dean carregou-me logo para o camarim, mandou chamar um médico; e, quando voltei a mim, percebi que ele soluçava, sentado aos pés da cama. Ele, por sua vez, ao perceber que eu recuperava os sentidos, saiu apressadamente do quarto, para que eu não soubesse de seus sentimentos.    
Esse temperamento retraído de Dean é conseqüência talvez de ter sido criado num bairro de gente mais rude, onde era feio gostar de um amigo. Tudo era resolvido à base da força física; e, até hoje, ele tem um certo orgulho de sua fortaleza.
– Dean é um espécie de irmão mais velho para mim – disse-me Jerry. – Preocupa-se com minha alimentação, com a minha saúde, embora faça isso tudo sempre veladamente, sem querer que eu perceba seu interesse.
Naquele ponto da conversa, Jerry Lewis fez uma pequena pausa e depois disse:
– Você está me fazendo falar demais, Hedda! Se Dean Martin estivesse aqui, já me teria feito calar a boca há muito tempo! Contei toda a minha vida a você!
– Parte dela eu já conhecia, Jerry – protestei. – E fique certo de que o sucesso que você e Dean Martin vêm obtendo juntos é em grande parte devido à amizade que os une.



Dean Martin tem muita facilidade em decorar os scripts, pois já trabalhou em cassinos, na mesa de roletas, coisa que desenvolve a memória visual das pessoas. Jerry Lewis, no entanto, conta com a desvantagem de seu nervosismo e sua constante preocupação em agradar o público.
– Você não imagina o que representa para nós uma gargalhada do público – confessou Jerry. – Mas sabemos distinguir perfeitamente quando o espectador realmente achou graça... ou quando ri apenas para nos ser agradável!
“Costumamos receber inúmeras cartas agradecendo os bons momentos que proporcionamos a uma pessoa preocupada com seus problemas. Mas quem deveria agradecer éramos nós, cujo sucesso depende exclusivamente do público!”
Falando em diversos tipos de espetáculos para fazer rir, Jerry fez referências elogiosas a Charles Chaplin, falando do seu modo de misturar alegria e tristeza num mesmo filme.
– A verdade é que as pessoas procuram os cinemas para se divertir, – disse-me Jerry, – e não para saber como se comete um crime perfeito ou como se engana o marido. Por isso, sou contra esses filmes pesados que Hollywood insiste em produzir.
Levei bem uns quarenta minutos de automóvel, para chegar à casa de Jerry Lewis, e resolvi perguntar por que ele havia escolhido Pacific Palisades para morar.
– Foi porque desejava uma casa onde pudesse morar até o fim da vida – respondeu-me. – Uma casa onde meus filhos pudessem crescer com conforto. Além disso, se morasse em Beverly Hills, passaria inteiramente despercebido, enquanto aqui sou amigo de todos. Costumo dizer que sou uma espécie de prefeito deste local.
– Mas há outros artistas que moram aqui também – lembrei. –Você não sabe que David Niven e Douglas Fairbanks Jr. são seus vizinhos?
– Não – disse Jerry. – Moro aqui há três anos e meio e nunca soube que eles eram “meus vizinhos”.
A casa dos Lewis é simples, confortável, muito organizada, bem iluminada e alegre. Mas o salão de jogos, que foi construído separado da casa, foi o local que mais me encantou.
Sente-se que só agora é que Jerry está começando a gozar a vida, apesar de estar sempre pensando no futuro ou no passado. Porém, depois que Patti lhe mostrou um poema. Jerry tem se esforçado para mudar sua filosofia de vida.
São uns versos sem pretensões, mas que Jerry já sabe de cor, de tanto ler e pensar neles:
“O passado já passou.
Não adianta pensar nele.
O futuro não chegou.
Nada influiremos nele.
Então, tudo o que nos resta
É o presente em que vivemos
E fazer sempre uma festa
Com aquilo que na mão temos!”

 

Este texto foi transcrito do número 59 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 2ª quinzena de abril de 1955, pp. 36 e 64)