Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

THE SPIRIT
Marco Aurélio Lucchetti



COMO SURGIU THE SPIRIT

Nascido em 6 de março de 1917, na cidade de Nova York, no seio de uma família de origem judia, William Erwin Eisner, mais conhecido como Will Eisner, viveu grande parte de sua infância e adolescência nos bairros nova-iorquinos do Brooklyn e do Bronx.
Ainda com pouca idade, Will Eisner descobriu seu talento natural para desenhar – por volta dos sete anos de idade, ele era visto, constantemente, com lápis e papel na mão, desenhando – e, logo após concluir a escola secundária, freqüentou, por algum tempo, a Art Students League, de Nova York, estudando Desenho Anatômico com George Bridgman (1865-1943), um profundo conhecedor de anatomia humana, e Pintura com Robert Brackman (1898-1980).
Em meados da década de 1930, quando já dominava perfeitamente as técnicas do Desenho, Will Eisner passou a integrar o departamento publicitário do New York American Journal, de propriedade de William Randolph Hearst (1863-1951), o magnata da imprensa norte-americana. Mas não ficou muito tempo nesse emprego, pois arrumou outro trabalho de curta duração: foi ser diretor de arte da Eve Magazine, uma revista destinada à moderna mulher estadunidense de ascendência judia. A seguir, as histórias em quadrinhos, uma paixão que havia se revelado no tempo em que estudava na DeWitt Clinton High School, tornaram-se sua fonte de renda; e, entre maio e novembro de 1936, os quatro números de Wow, uma revista de quadrinhos editada por David McKay Publications/Henle Publications, publicaram três séries quadrinhísticas escritas e desenhadas inteiramente por ele: Captain Scott Dalton, que narrava as aventuras de um cientista-explorador; The Flame, uma história de pirataria, assinada com seu nome do meio, Erwin; e Harry Karry, protagonizada por um agente secreto. Mais ou menos nessa mesma época, o gibi Funny Pages, da Centaur Publications, apresentou uma outra criação sua: Muss ’em up Donovan, uma história em quadrinhos cuja principal fonte de inspiração eram as narrativas Hard-Boiled.
Em 1937, Will Eisner fundou, com o também quadrinhista Samuel Maxwell (Jerry) Iger, um dos primeiros estúdios de produção de material para as revistas de quadrinhos, o S. M. Iger Studios, que produziria e forneceria histórias em quadrinhos, cartuns e passatempos para diversas publicações norte-americanas e estrangeiras.
No entanto, Will Eisner só foi realizar um trabalho verdadeiramente marcante em 1940, quando criou e editou um suplemento dominical de quadrinhos – a respeito desse trabalho, Eisner declararia, em outubro de 1972:

“Todos tinham saído para desfrutar o domingo, e o escritório de Eisner e Iger estava silencioso... como um túmulo (...). Alguns dias antes, Buzy Arnold e eu havíamos fechado um negócio. Ele e Henry Martin haviam rascunhado em um pequeno punhado de papéis o suficiente para começar. Existia um ‘entretanto’, entretanto. Eu teria de vender minha participação no Eisner e Iger e devotar-me totalmente a uma nova experiência... um suplemento de quadrinhos publicado aos domingos e que seria distribuído em todo o país. Seriam dezesseis páginas contendo três histórias: uma principal e mais duas outras. Eu escreveria a principal e criaria e editaria as outras duas. Um trabalho realmente de tempo integral.” (1)

E, em 2 de junho de 1940, o suplemento criado e editado por Will Eisner fez sua estréia no jornal The Detroit News.
Distribuído pela Register and Tribune Syndicate, esse suplemento dominical de quadrinhos diferia dos demais, em virtude de publicar histórias não-cômicas completas – normalmente, os suplementos dominicais de quadrinhos publicam séries quadrinhísticas cômicas, cujas histórias se completam em uma única página, e histórias em quadrinhos não-cômicas, cujas histórias são seriadas (a cada domingo, é publicado um capítulo da história) – e ter como modelo os comic books (gibis), que começavam, no final da década de 1930, a conquistar os leitores norte-americanos. Na verdade, ele era uma revista de quadrinhos, um gibi – inclusive o canto superior esquerdo de sua primeira página anunciava-o como um Weekly Comic Book (numa tradução literal, Gibi Semanal); já o canto superior direito da mesma página indicava que possuía, em seu interior, 3 Complete Stories (literalmente, 3 Histórias Completas). E apresentava, como história em quadrinhos principal, The Spirit, cujo protagonista, Denny Colt/The Spirit, foi descrito da seguinte maneira pelo editor, jornalista e escritor Eduardo Bueno:

“Ele se esgueira por esquinas escuras. Percorre becos tortos que rasgam como trevas o coração dos bairros suspeitos. Cruza pelo porto de brumas densas onde o nevoeiro envolve como musgo pilares gastos e armazéns soturnos. Move-se de sombra a sombra entre latas de lixo malcheirosas, calçadas sujas e prédios roídos, perseguindo criminosos cruéis e bandidos irrecuperáveis. Mora num cemitério. Faz amor com mulheres esplêndidas e fatais (algumas, apaixonadas, abandonam o caminho do mal). É alto, musculoso; tem punhos de aço e um sorriso encantador. É um inimigo invencível para os criminosos; um mistério impenetrável para seus amigos mais íntimos. Todos esses atributos só poderiam transformar o Spirit num cult-hero, uma espécie de Philip Marlowe (2) dos Quadrinhos. Com milhões de fãs espalhados pelo mundo, ele, como nenhum outro personagem da História em Quadrinhos, encarna o grande herói ambíguo e amoral do romance policial Noir, igual aos detetives que lideram a prosa viril de Dashiell Hammett, Raymond Chandler e David Goodis.” (3)



DESVENDANDO THE SPIRIT

Narrada no primeiro episódio da série, a origem de The Spirit pode ser assim resumida: o criminologista Denny Colt descobre que o esconderijo do Dr. Cobra, um cientista que se tornou criminoso, se localiza nos esgotos da Chinatown de Central City. Mais tarde, quando está prestes a prender o facínora, Denny é atingido por uma torrente de um produto químico e cai, sem sentidos. Aproveitando-se disso, o Dr. Cobra e seu fiel assistente, o gigante e musculoso Leeng, fogem por uma passagem secreta. No dia seguinte, após ser considerado morto pelo médico-legista, Denny Colt é enterrado no Wildwood Cemetery. Nessa mesma noite, um homem sai de uma sepultura e, uma hora depois, entra na chefatura de polícia pela janela da sala de seu velho amigo, o calvo e gordo comissário de Central City, Dolan. Permanecendo o tempo todo nas sombras, esse homem apresenta-se ao comissário como The Spirit e informa-o de que vai capturar o Dr. Cobra. Depois, num novo encontro com o policial, ele mostra seu rosto, revelando que é Denny Colt. Então, conta que o preparado que o atingiu apenas lhe provocou uma morte aparente. Em seguida, com a ajuda de Dolan, consegue prender o Dr. Cobra. E, no final, quando é indagado pelo comissário sobre seus planos futuros, responde:

“Permanecer morto e levar adiante o trabalho do Spirit... Você sabe, Dolan, tem muitos crimes e criminosos fora do alcance da polícia, mas o Spirit pode alcançá-los!”

A partir de então, habitando um abrigo subterrâneo construído na sepultura de Denny Colt, The Spirit passa a empreender uma luta incansável contra os criminosos. E, nessa luta, é auxiliado por Ebony White, um garoto negro de aproximadamente dez anos, que foi criado para servir de interlocutor do herói, funcionando como uma espécie de Dr. Watson, o assistente de Sherlock Holmes.
Excluindo o Comissário Dolan e Ebony White, há apenas mais um personagem secundário que está presente com certa freqüência em The Spirit: a loira Ellen Dolan.
Filha do Comissário Dolan, Ellen foi apresentada aos leitores no episódio publicado em 9 de abril de 1940 e, em pouco tempo, se tornaria a namorada de The Spirit (4) e prefeita de Central City. Desde então, ela insiste que os dois devem casar; mas The Spirit prefere dedicar-se à luta contra o crime a levar uma vida tranqüila e ter mulher e filhos para sustentar.



O UNIFORME DE THE SPIRIT

Certa vez, Will Eisner afirmou o seguinte a respeito da criação de The Spirit:

“Eu queria um herói que vivesse além da Lei, mas não tinha estômago para os super-heróis com superpoderes. Então, imaginei Denny Colt, o detetive que é dado como morto e enterrado; e que, na realidade, mora num cemitério e sai de lá todos os dias para combater o crime...” (5)

Denny Colt não possui nenhum poder sobre-humano. Entretanto, ao assumir a identidade de The Spirit, passou a usar, a exemplo dos super-heróis, um uniforme: terno, camisa branca, gravata vermelha, sapatos marrons, chapéu de feltro, luvas e uma máscara que lhe cobre os olhos (o chapéu, as luvas e a máscara são da mesma cor do terno).

Will Eisner: Você acha que ainda é necessário usar máscara e luvas? Para quê?... Suponho que muitos vêem isso como uma espécie de uniforme.
The Spirit: Todo mundo do Departamento de Estado usa terno e gravata. Os padres usam traje especial. A maioria dos executivos da IBM ou da GM usa gravata e ternos bastantes conservadores. Cada um se veste de acordo com seu ambiente e profissão. Todos usamos um uniforme identificável.
(6)



NOTAS:

(1) Will Eisner, “A Origem do Spirit”, in Spirit número 1, São Paulo, NG, 1987, p. 4.

(2) Criado pelo escritor norte-americano Raymond Chandler (1888-1959) e protagonista de oito romances – À Beira do Abismo (The Big Sleep, 1939), Adeus, Minha Adorada (Farewell, My Lovely, 1940), Janela Alta (The High Window, 1942), A Dama do Lago (The Lady in the Lake, 1943), Ingênua Perigosa (The Little Sister, 1949), O Longo Adeus (The Long Goodbye, 1953), Playback (idem, 1958) e Amor & Morte em Poodle Springs (Poodle Springs, 1989) –, Philip Marlowe é um dos personagens mais representativos do Hard-Boiled. Um tanto frio e irônico, ele critica, de maneira contundente, a sociedade estadunidense e, em sua opinião, a delinqüência estende-se por diversos escalões: nos mais altos, estão os grandes e principais criminosos, pertencentes à elite; nos mais baixos, aqueles que se desviaram para o crime devido às graves distorções existentes no Capitalismo. E a seu respeito o crítico e pesquisador espanhol Javier Coma, escreveu o seguinte em Diccionario de la Novela Negra Norteamericana (Barcelona, Anagrama, 1986, p. 146): “Herói ou anti-herói Neo-Romântico por excelência, muito menos cínico que um Sam Spade, muito mais ativo que um Lew Archer, Marlowe precipita-se de peito aberto, com lucidez, paixão e ironia, em uma esfera de existência perigosa e corrupta, com o aroma da podridão e da morte.”

(3) Eduardo Bueno, “Aventuras na Sarjeta”, in Spirit, Porto Alegre, L&PM, verão de 1985, p. 7.

(4) Antes de namorar The Spirit, Ellen Dolan namorava Homer Creap, um sujeito medroso, desengonçado e meio boboca.

(5) “Will Eisner, O Pai do Spirit”, in Gibi Especial número 1, Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1975, p. 2.

(6) “Will Eisner Entrevista o Spirit”, in Gibi Especial número 1, p. 67.