Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

PORQUE SHERLOCK HOLMES NÃO SE INTERESSOU POR JACK O ESTRIPADOR
Ellery Queen



– Já que abordamos o caso de Jack o Estripador, – proferi, – permita-me uma pergunta. – Por que não se interessou pelo assunto?
– Tenho estado deveras ocupado. – Os dedos longos e delgados de Holmes esboçaram um gesto de impaciência. – Como sabe, regressei do Continente recentemente, depois de esclarecer um enigma curiosíssimo em determinado país. Conhecedor da sua tendência para o melodrama, julgo que o intitularia “O Caso do Ciclista Sem Pernas”. Um dia, eu lhe contarei os pormenores.
– E irei escutá-los com o interesse habitual. Não obstante, você está novamente em Londres, e esse monstro aterroriza a cidade. Tinha obrigação de...
– Não tenho obrigações perante ninguém – atalhou.
– Não interprete mal as minhas palavras.
– Devia conhecer-me o suficiente para saber que um mistério desses apenas me desperta indiferença absoluta.
– Embora correndo o risco de que me ache um obtuso...
– Reflita, Watson. Não procurei sempre solucionar problemas de características intelectuais? Não me senti atraído sempre para adversários de alta estirpe? Jack o Estripador!... Que interesse possível poderia oferecer esse imbecil demente? Não passa de um cretino que percorre as ruas depois de anoitecer, atacando mulheres a esmo.
– Conseguiu perturbar a Polícia de Londres.
– O fato revela apenas as deficiências da Scotland Yard... e não a inteligência especial do Estripador.
– De qualquer modo...
– O mistério não tardará em se desvendar. Uma destas noites, Lestrade esbarrará com o assassino em flagrante delito e irá arrastá-lo triunfalmente para a prisão.

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações, do livro Sherlock Holmes Contra Jack o Estripador (A Study in Terror, tradução de Eduardo Saló, Lisboa, Edições 70, 1983, pp.15-16), de Ellery Queen