Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

REPULSA AO SEXO
Vasco Granja



Perante um filme como Repulsa ao Sexo, não deixa de ser razoável levantar uma questão: até que ponto essa obra de Roman Polanski é um puro divertimento ou é a visão lúcida de uma sociedade demente na qual não há lugar para a esperança?
Se procurarmos a base realista de Repulsa ao Sexo, ela é admiravelmente exemplificada com a descrição do instituto de beleza e do bar, sem esquecer a veracidade dos exteriores filmados em South Kensington, em Londres. Mas que dizer do astucioso jogo de alucinações em que se encontra a personagem principal, a esquizofrênica, interpretada magistralmente por Catherine Deneuve?
Polanski afirmou que dirigiu esse filme por prazer, com a intenção de dar um soco no estômago... do espectador.
Não podemos deixar de pensar que se trata de um exercício de estilo perfeito, realizado com o máximo de honestidade. A esse respeito afirmou o cineasta:
“Creio que não é somente o título, mas o filme inteiro que é honesto. Quando coloquei a minha heroína em situações pouco vulgares, pretendi representar sempre o universo onde ela evolui tal como eu o imaginei, com o máximo de realismo e verossimilhança. Penso conhecer bem o meu ofício de cineasta. Se cada cena é controlada, cada movimento ordenado, cada gesto medido, nisso nada há de calculado. Filmei Repulsa ao Sexo como o senti. Era possível ir muito mais longe, forçar os efeitos. Julgo que esse filme comporta uma lição para mim: vi até onde se pode ir na expressão realista e a partir de que momento nos arriscamos a ir demasiado longe.”
Palavras que não deixam de ser ambíguas e que nos fazem sentir que Polanski força um pouco sua natureza, criando efeitos de grandiloqüência que não deixam de ter seu aspecto gratuito na encenação de um filme como Repulsa ao Sexo.
Sabe-se que a condição de cineasta em qualquer país ocidental depende, em larga medida, de variadas circunstâncias que, freqüentemente, impedem a concretização de projetos acalentados pelos autores, sendo difícil conciliar o gosto do diretor com as imposições dos produtores.
“Para exprimir o universo mental de Carol”, explica Polanski, “recorri a todas as espécies de lugares-comuns, que explorei até o fim. (...) Pegar num assunto ingrato e dele tirar qualquer coisa, conseguir, enfim, uma ‘proeza’, esse foi o meu objetivo.”
É evidente que Repulsa ao Sexo é um filme difícil de realizar, particularmente no que diz respeito aos aspectos técnicos. Repare-se que muitos de seus planos foram filmados num cenário com teto. Por outro lado, Polanski preocupa-se sempre com os objetos, a que presta uma atenção muito especial. Este é um dos triunfos de Polanski, que sabe criar, como poucos cineastas, a atmosfera particular de um filme a partir de objetos, como se verifica pela escova de dente ou pela navalha, de tanta repercussão no decorrer da evolução da heroína a caminho da loucura. Outro aspecto notável de Repulsa ao Sexo é a importância atribuída à trilha sonora, dominada por ruídos e com um mínimo de acompanhamento musical.
Polanski é um autor que merece confiança. Domina com maestria a linguagem cinematográfica. Falta-lhe um grande tema que consiga congraçar todos aqueles que o admiram. De resto, ele tem consciência de que ainda não realizou o grande filme de sua vida, ou seja, para empregar palavras suas, “um filme sério, ou melhor, grave.”

 

Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965, 105')
Direção: Roman Polanski
Roteiro: Gérard Brach & Roman Polanski
Elenco: Catherine Deneuve (Carol Ledoux), Ian Hendry (Michael), John Fraser (Colin), Yvonne Furneaux (Helen Ledoux), Patrick Wymark (o proprietário do apartamento), Helen Fraser (Bridget), Valerie Taylor (madame Denise), Monica Merlin (madame Renlesham), Renee Houston (miss Balch), James Villiers (John), Hugh Futcher, Mike Pratt, Imogen Graham
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Amazonas Filmes

 

Esta crítica foi transcrita do número 125/128 da revista Projeção (São Paulo, Projeção, abril de 1970, p. 10)