Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

PAUSA PARA O CAFÉ
Rubens Francisco Lucchetti


O homem entra no bar e senta num tamborete junto ao balcão. O garção apressa-se em atendê-lo.
– Me dê um copo d’água – pede o homem.
– Mineral? – Pergunta o garção.
Natural!
Natural?!
Natural que é mineral.
Não entendi – diz o garção. – O senhor quer água mineral ou natural?
– Mineral!
Ah... mineral!
Natural!
Ai, meu Jesus... não entendi. O senhor está dizendo que quer um copo d’água mineral, não é?
– É natural!
Natural???!!!
– Chega!!! Não quero mais água mineral. O senhor complica tudo...
Então, o senhor quer o quê?
– Me traga um chope.
– Escuro?
– Claro!

O tolo pensa que sabe tudo.
O sábio sabe que não sabe nada.

Sem erro não pode haver perdão.

Só erra quem trabalha.

Cruel é todo aquele que consegue alcançar o poder.

Mais vale a liberdade faminta do que a escravidão nutrida.

Toda a filosofia anarquista está resumida em uma única frase do filósofo francês Jean-Jacques Rousseau: “O homem nasceu livre; mas, em toda parte, eu o vejo acorrentado.”

“O poder do homem pelo homem representa a escravidão. Quem quer que ponha a pata sobre mim para me governar é um usurpador ou um tirano. Declaro-o meu inimigo.”
Pierre-Joseph Proudhon

Nós somos, na verdade, governados por leis que sequer conhecemos. E essas leis foram feitas unicamente por interesse da classe dominante, os burgueses, que o longo braço da lei jamais atinge. A lei só atinge a nós, o povo.

O mundo de hoje é uma grande aldeia global. Imaginava-se que os homens, por isso, se tornariam mais humanos. Porém, o que vejo aqui, no Terceiro Mundo (por mais que digam o contrário, principalmente os políticos presunçosos e a imprensa vendida, o Brasil é um país de Terceiro Mundo), é o aumento da miséria, da fome, do desemprego. Estamos marchando, inexoravelmente, para o fim da sociedade humana.

Trago a maldição de saber das coisas. Quando vejo um dia lindo, imagino toda a miséria e sofrimento que o abriga.

“Os demônios podem inquietar o ar, provocar ventos e fazer o fogo despencar do céu.”
São Tomás de Aquino

O TEMPO PERDIDO

“Diante da porta da fábrica,
O trabalhador estaca subitamente.
O tempo bonito segura-o pela roupa.
O trabalhador se vira,
olha o sol
(todo vermelho, todo redondo,
sorrindo na imensidão do céu)
e pergunta familiarmente:
– Dize, então, camarada Sol,
tu não achas
que é um absurdo
dar um dia destes
a um patrão?”
Jacques Prévert

Não posso conceber o homem vendendo sua força de trabalho e, conseqüentemente, não sendo dono daquilo que faz e produz. Isso o divorcia de sua própria existência, tornando-o incapaz de encontrar-se consigo mesmo e com o mundo. Alienado, ele já não distingue o pensar do agir. Com a crescente aceleração da produção e com o ritmo frenético das grandes cidades, o homem deixou-se envolver pela linha de montagem, pelo tic-tac enervante do relógio, que passou a determinar as horas para isso ou aquilo. As máquinas triunfam sobre as pessoas e lhe ditam as novas regras de conduta, condicionando-as a gestos e comportamentos mecânicos, tirando-lhes a autonomia e originalidade.
Por isso, sem saber, sempre fui um anarquista, uma vez que encontro no Anarquismo a resposta de minha revolta contra o homem explorando outro homem. Mas, para que não haja má interpretação das minhas palavras, explico que Anarquismo é “a doutrina baseada numa interpretação otimista da natureza humana e que considera o governo como um mal”. O dia em que cada um de nós estiver cônscio de suas responsabilidades teremos, enfim, alcançado, a perfeição apregoada por Jesus.

As crianças nascem espertas. Infelizmente, a escola as torna imbecis, moldando-as para a sociedade de consumo.

“Somos um povo que ri, quando devia chorar.”
José do Patrocínio

“Um idiota pobre é um idiota; um idiota rico é rico.”
Afrânio Peixoto

“Constituição brasileira, Artigo único: ‘Todo brasileiro fica obrigado a ter vergonha. ’
Capistrano de Abreu

Dificilmente duas pessoas pontuais vão ao mesmo encontro.

Modesto é aquele sujeito que sabe fazer com que os outros digam tudo o que ele pensa de si mesmo.

Aquele sim era um sujeitinho prepotente. Quando se despedia das outras pessoas, dizia sempre: “Até amanhã, se eu quiser.”

Fizeram uma cirurgia plástica na passa, e ela ficou uma uva.

Quem nasce no dia 29 de fevereiro envelhece mais lentamente?

Nada é mais volúvel do que nossa idade: a cada dia que passa, ela é outra.

Se Eva brigasse com Adão, não poderia voltar para a casa da mamãe.

E por falar em Adão... Ele era um sujeito de muita sorte: não tinha sogra.

DA AGENDA DE UM CRONISTA

Dia 10 – Escrever sobre a Beleza, citando Goethe, Shakespeare e outros “cobras”. Saber quem foi Beethoven e metê-lo na crônica, não esquecendo de citar alguns de seus quadros.

Dia 11 – Não esquecer de sair pela porta dos fundos às 8 horas, pois daí a pouco deve chegar o senhorio.

Dia 12 – Corrigir aquele trecho da crônica sobre a Beleza, pois o dicionário afirma que Beethoven era músico e não pintor. Obter confirmação na enciclopédia.

Dia 13 – Decorar alguns trechos de Virgílio, em Latim, para o jantar desta noite em casa do dr. Olímpio. Assumir nessa ocasião um olhar grave e profundo, de grande efeito. Sondar a mulher dele.

Dia 14 – Terminar a crônica sobre a Beleza, pois o dinheiro já está curto. Por via das dúvidas, cortar aquele trecho que diz ser Beethoven um pintor, pois faltam dados comprobatórios se esse camarada foi mesmo pintor ou músico.

Dia 15 – Comprar o livro de citações que chegou ontem nas livrarias.

Dia 16 – Escrever sobre o Espiritualismo, citando São Francisco de Assis etc.; e não esquecer de buscar a Marly na saída da boate.

Dia 17 – Saber o que é o Existencialismo, para explicar depois aos amigos do Café Vermelhinho. Provar numa crônica que Dickens, Voltaire e Cervantes foram existencialistas.

Dia 18 – Terminar de ler Crepúsculo e comprar A Cabana (comprar logo, antes que esgote), escondendo-o atrás das obras completas de Pascal.

 
Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos