Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

E O NU CHEGOU FINALMENTE A HOLLYWOOD



No mesmo ano de 1932, quando Hedy Lamarr (na época, Hedy ou Hedwig Kiesler) mostrou no filme Êxtase (de Gustav Machaty) um dos mais famosos nus do Cinema, surgiu nos Estados Unidos um poderoso organismo da Censura: o Código Hays. Desde então, nunca houve um nu no cinema americano, pois o Código previa severas punições para quem lhe desobedecesse. Na Europa e no Japão as mulheres se despiam em cena; a Censura não criava caso; e os filmes agradavam a todo o mundo, inclusive aos americanos.
E Hollywood um dia percebeu que, enquanto era proibida de quase tudo, o cinema europeu e seus nus invadiam tranqüilamente o mercado americano. O caduco Código começou a ser desrespeitado; e muito em breve estará nas telas o que foi um dos sonhos americanos, ou seja, uma verdadeira seqüência de nu, interpretada pela italiana Elsa Martinelli (a estrela de Hatari!) e Cely Carillo. O Código possivelmente irá estrilar. Mas é certo que ninguém o levará em consideração.

 

O CÓDIGO HAYS

O Código Hays, uma das mais pitorescas instituições americanas, foi criado – por pressão das várias Ligas de Decência dos Estados Unidos – pela Motion Pictures Association of America, que reúne os produtores cinematográficos. Seu objetivo não era “tolher a liberdade artística, mas preservar a moral pública da ação dos aventureiros”. O objetivo era esse; porém, aconteceu exatamente o contrário, surgindo um órgão que mandava e desmandava como queria.
Ainda hoje muita gente acredita que o Código tem força; mas, na verdade, ele está desmoralizado. E isso desde 1957, quando foi lançada a fita A Caldeira do Diabo (Peyton Place), na qual foram reunidas várias coisas que o Código tornou tabu nos filmes americanos.
Mesmo em 1932, o Código Hays representava uma violenta deformação cultural e um moralismo retrógrado. Portanto, nestes nossos dias, as proibições fixadas parecem mais brincadeiras e certamente muita gente se recusa a crer que elas tenham existido com tanta força. Eis algumas coisas proibidas pelo Código:
1 – Uso de palavrões, incluindo os que não são palavrões, como “gravidez” ou “prostituta”;
2 – Cenas demoradas de beijos ou nas quais os interpretes apareçam com os lábios entreabertos;
3 – Nas cenas passadas em quartos de dormir, o casal, mesmo legalmente casado, deve se deitar em camas separadas;
4 – Só filmar cenas em que aparecem animais com a licença de uma sociedade protetora dos animais;
5 – Nunca apresentar de forma simpática um criminoso;
6 – As cenas passionais devem ser tratadas com sutileza, “a fim de que nem mesmo o mais baixo dos espectadores possa ter seus instintos despertados”.
Entretanto, o ponto mais importante é o que se refere à apresentação de nus... ou de “certas partes do corpo feminino”, como diz o Código, que, com isso, parece insinuar que o homem pode aparecer nu, mas a mulher, não. É expressamente proibida “a nudez total, mesmo em silhueta”. Também não pode ser feita “qualquer referência a isso nos diálogos; certas partes do corpo feminino (coxas, seios etc.) não podem ser focalizadas; e o ventre só pode ser visto, se o umbigo estiver tapado”. Finalmente, o Código brinda os produtores com a sua mais divertida regra: “as cenas de nu só podem ser toleradas em documentários, quando mostrarem com decência a vida exótica dos povos primitivos”.
Assim, enquanto a população americana só ficava exótica e primitiva na hora do banho, Hollywood foi filmando como podia – e sempre tentando burlar o Código. As imagens de nu, no entanto, eram conhecidas no país. Muitos filmes europeus, não cortados pela Censura, entravam e circulavam livremente pelas salas de exibição, mostrando aos americanos que, em matéria de franqueza, havia outras cinematografias muito acima da deles.
A história da reação dos produtores começou mais ou menos em 1943, por causa do busto avantajado de Jane Russell em O Proscrito (The Outlaw). Houve muita briga com os censores; mas o filme passou, abrindo um precedente que seria explorado anos depois de outro modo. Foi o produtor Jerry Wald (A Caldeira do Diabo, Sob o Signo do Sexo/The Best of Everything etc.) quem tomou para si a tarefa de criar caso com os censores. Seus filmes, embora geralmente ruins e usando muitos despistes para chegar ao que pretendiam, tiveram a importância de lançar os temas proibidos (relações extraconjugais, incestos, estupros, palavrões, aspectos mais ou menos sórdidos da juventude) no arsenal de assuntos do cinema americano.
O negócio deu certo. A Censura, forçada constantemente a fazer mais e mais concessões, acabou se reformando a si própria, permitindo, assim, um clima de maior liberdade nos filmes. E, hoje, é possível ver temas adultos circulando pelo cinema americano. Entretanto, o nu continuava para os americanos um tabu.

 

ENFIM, NUAS

Quando o filme Rampage,  dirigido por Phil Karlson, estiver pronto, a Warner Bros. terá dado aos Estados Unidos os primeiros nus na longa história de seu cinema. Então, Hollywood estará em pé de igualdade com a França e a Itália, onde o nu já não é novidade há muitos anos. A nudez deu fama a Martine Carol, a Brigitte Bardot e a muitas outras atrizes. Talvez faça o mesmo a

Cely Carillo, a banhista nua de Rampage (a companheira de Cely em Rampage, Elsa Martinelli, também aparece nua; mas já é muito famosa).
Rampage tem aquilo que os americanos chamam de “continental spice” (“sabor europeu”, numa tradução literal). As cenas foram rodadas no Havaí, onde Elsa Martinelli e Cely Carillo tiraram a roupa e caíram n’água, perto de uma ilha desabitada.
É bem possível que o filme, que traz no elenco Robert Mitchum, Jack Hawkins e o falecido Sabu, tenha problemas com a Censura. Mas é quase certo que os produtores sairão vencedores, usando duas mulheres nuas para provar que o Código Hays está totalmente ultrapassado.

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações, do número 270 da revista Cinelândia (Rio de Janeiro, Rio Gráfica, 1ª quinzena de fevereiro de 1964, pp. 52-55)