Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

T. G. NOVAIS, O HOMEM QUE PARECIA NÃO TER PASSADO
Rubens Francisco Lucchetti



A primeira pessoa que me falou de Sherlock Holmes foi meu pai; e só fui conhecer o detetive criado por Arthur Conan Doyle nos meados da década de 1940, por meio das revistas pulp Detective e Policial em Revista.
Com o passar dos anos, não me contentei em ler esporadicamente as aventuras de Sherlock Holmes. Sonhava em ter em minhas mãos um de seus livros. Porém, em nosso país, as obras de Conan Doyle há muito estavam esgotadas; e eu, residindo no interior, em Ribeirão Preto, não tinha condições de visitar os sebos de São Paulo. Foi quando tive a idéia de recorrer à revista O Cruzeiro, que, na época, 1952, vendia cerca de 210 mil exemplares semanais – eu era um de seus compradores assíduos, apaixonado pelas reportagens de David Nasser, pelas fotos de Jean Manzon, pelas “Garotas” (do Alceu Pena), pelo “O Amigo da Onça” (do Péricles) e pelo “O Pif-Paf” (de Emmanuel Vão Gôgo). Um anúncio publicado em suas páginas atingiria, no mínimo, mais de quatrocentos mil leitores, se considerarmos que cada exemplar de uma publicação é lido por pelo menos duas pessoas. Então, sem pensar duas vezes, redigi uma carta, em que me confessava “um ardoroso admirador de Sherlock Holmes” e informava que “estava à procura de seus livros em Português”, e enviei-a para a seção “Escreve o Leitor”.
Não estava enganado quanto ao sucesso que imaginava que teria um anúncio publicado em O Cruzeiro. Recebi mais de uma centena de cartas, escritas por garotas sonhadoras interessadas em manter uma correspondência sentimental ou por vigilantes da boa conduta e da moral religiosa, que me aconselhavam a “dedicar-me à leitura de algo proveitoso, a fim depurar o espírito, e esquecer as indignas e pecaminosas narrativas policiais, que só servem para corromper a alma”. Mas de concreto, com relação ao meu pedido... nada.
Algum tempo depois, quando já começava a conformar-me com o fracasso da minha ideia, fui surpreendido com a chegada de um pacote registrado. Nele, havia três livros de Conan Doyle: As Memórias de Sherlock Holmes, A Volta de Sherlock Holmes e O Cão dos Baskervilles, traduzidos por Branca de Villa-Flor e lançados, por volta dos anos 1910 e 1920, por H. Garnier, Livreiro-Editor, do Rio de Janeiro.
Nenhuma carta ou bilhete acompanhava os livros. Esperei alguma carta em separado, o que não aconteceu.
Talvez um mês mais tarde, escrevi ao remetente do pacote – seu nome, T. G. Novais, e seu endereço (na cidade do Rio de Janeiro) constavam no papel em que foram embrulhados os livros –, agradecendo e perguntando o preço dos três volumes gentilmente enviados. Minha carta não demorou a ser devolvida, com a seguinte declaração: “Pessoa desconhecida no endereço.”
Numa nevoenta e fria tarde de sábado de julho de 1952, recebi a visita de um homem que dizia ser T. G. Novais. Devido ao frio cortante e à garoa, ele trajava capa de chuva (de cor amarela, semelhante à de Dick Tracy) e usava galochas. A primeira impressão que tive foi a de que era um ser saído das páginas de um dos romances de Charles Dickens, alguém destoando completamente de nossa época.
Confesso que não fiquei à vontade, diante daquela inesperada visita, que eu recebia em nossa sala de jantar, uma vez que em casa não tinha sala de estar. Quanto a T. G. Novais, parecia muito à vontade. Disse-me que trabalhava como correspondente – na Europa e Estados Unidos – de publicações brasileiras e argentinas (O Cruzeiro e Tit-Bits eram algumas dessas publicações). Falou-me também que não assinava as matérias com seu verdadeiro nome; mas não mencionou o(s) pseudônimo(s) que usava, e eu não me atrevi a perguntar. E foi, por intermédio dele, que fiquei sabendo o verdadeiro nome de Emmanuel Vão Gôgo: Millôr Fernandes (tenho certeza de que, na época, poucos sabiam disso; e só muitos anos mais tarde tornou-se público que Emmanuel Vão Gôgo era um pseudônimo de Millôr Fernandes).
Em seguida, T. G. Novais citou alguns atores e atrizes do cinema americano que entrevistara: Lew Ayres, Linda Darnell, Alan Ladd, Maria Montez, Jon Hall, Will Rogers, Audrey Totter, Dick Powell, Yvonne De Carlo, Ella Raines, Gail Russell, Laird Cregar, Ralph Bellamy, Raymond Massey, Victor Jory, Basil Rathbone, Nigel Bruce, Sidney Toler, Ray Milland, Jeanne Crain, Brenda Joyce, Gene Tierney, Ruth Roman, Adele Mara, Esther Williams, Red Skelton, Gale Sondergaard, Barry Fitzgerald, Bela Lugosi, Boris Karloff, Doris Day... E fez uma pausa, antes de citar Carole Landis. E foi emocionado que ele me disse: “Entrevistei-a poucos dias antes de sua morte. Ela estava cheia de planos e amava a vida. Por isso, não creio que tenha se suicidado... Eu estive em sua casa, em Pacific Palisades, e via-a morta no chão do banheiro, usando a mesma roupa que vestira quando me dera a entrevista. Um momento que jamais esquecerei, enquanto viver...”
Fiquei surpreso ao saber que T. G. Novais conhecia diversos autores de histórias de Detetive & Mistério e de  Horror – recordo-me de que ele disse conhecer Clark Ashton Smith, August Derleth, Steve Fisher, Dashiell Hammett, Raymond Chandler, Richard Sale e, entre outros, Robert Bloch, todos colaboradores de revistas pulp como Black Mask e Weird Tales – e pertencia à The Sherlock Holmes Society of London, uma sociedade que fora fundada para estudar “a vida” e “os feitos do grande detetive inglês”. No entanto, o que mais me deixou maravilhado foi quando falou que conversara diversas vezes com um escritor muito especial para mim: Walter B. Gibson, autor da maioria das aventuras de O Sombra, o primeiro herói mascarado das pulps.
Foi por intermédio de T. G. Novais que travei conhecimento com algumas pessoas ligadas aos Quadrinhos, aos filmes de Horror e aos livros populares. Algumas delas se tornaram muito amigas, dentre às quais, posso citar: a escritora inglesa Isadora Highsmith, autora de uma série de romances góticos; os escritores norte-americanos B. Becker e Mary Shelby; e o editor espanhol Edgar Montanero. Foi com este último que mantive um maior número de correspondências; e, como não poderia deixar de ser, muitas vezes, nas cartas que trocávamos, T. G. Novais era o assunto principal.
Da mesma forma que eu, Edgar Montanero pouco ou nada sabia a respeito de T. G. Novais. E ele conhecia outras pessoas que, em algum momento de suas vidas, travaram contato com nosso misterioso amigo. Entretanto, nenhuma dessas pessoas soube dar qualquer informação sobre T. G. Novais. Assim, não conseguimos avançar um milímetro no mistério que envolvia nosso amigo comum. Sequer sabíamos o significado do “T. G.”. A única coisa que Montanero conseguiu me informar foi que T. G. Novais nascera em 1927 no Brasil.
Em janeiro de 2009, recebi uma carta de Matilde Montanero, esposa de Edgar. Nessa carta, ela falava da morte de Edgar (ele morrera vítima de um enfarto) e contava-me que seu marido pretendia escrever-me a fim de me avisar que soubera do falecimento de T. G. Novais.
A última vez que T. G. Novais me visitou foi por volta de 1974, quando eu já morava no Rio de Janeiro, na Rua Bariri, em frente à sede do Olaria Futebol Clube. Essa visita ocorreu numa segunda-feira. Já passava das nove horas da noite; e meu filho e eu assistíamos – pela TV Rio, Canal 13 – a um episódio do seriado Columbo (nesse episódio, o Tenente Columbo, da Homicídios, investigava um crime ocorrido num quartel do Exército). De repente, a campainha de casa tocou. Fui abrir a porta de entrada e deparei-me com a figura de T. G. Novais. Ele entrou em nossa saleta, usando uma capa de chuva (por demais semelhante à do Columbo) e galochas, já que fazia frio e chovia muito. Pediu uma xícara de café quente. Bebeu o café de uma só vez. Depois, falou para minha mulher, a Tereza, deixar o bule de louça ali, sobre a mesinha de centro. De quando em quando, ele mesmo se servia da bebida.
Foi a mais agradável de suas visitas. E, durante nossa conversa, contou-nos muitas coisas. Falou-nos a respeito das personalidades que conhecera, dos lugares que visitara, dizendo ser “um grande dialogador pelo mundo”. Porém, como das outras vezes, não fez qualquer referência sobre sua origem, seus familiares...
Quando T. G. Novais se despediu (já passava da meia-noite), nós o acompanhamos até o portãozinho de nossa casa. A rua estava deserta. A chuva havia passado; mas nuvens esbranquiçadas corriam baixas num céu escuro. Ele nos disse que subiria até a Rua Leopoldina Rego e pegaria um táxi. Ficamos ali parados, vendo-o caminhar lentamente, sem pressa. Sua imagem afastando-se está bem viva em minha memória. Suas galochas não produziam ruído algum na calçada molhada, onde sua sombra era projetada pela iluminação esmaecida das lâmpadas dos postes espacejados.
Só entramos quando ele desapareceu no fim da rua. Nesse momento, um trem passava, indo em direção aos subúrbios. Imaginarmos que deveria ser o último trem que deixara a Estação Dom Pedro II.
Resta dizer que, por mais de cinqüenta anos, T. G. Novais me enviou um sem-número de pacotes, que, continham, entre outras coisas, livros e revistas de meu interesse, originais de sua autoria e traduções (feitas por ele) de histórias de Horror e de Detetive & Mistério. Entretanto, nesses pacotes nunca veio nenhuma carta ou bilhete. Dessa maneira, eu não tenho nada que comprove a existência de T. G. Novais... T. G. Novais, o homem que parecia não ter passado.

 

Rubens Francisco Lucchetti é ficcionista e roteirista de Cinema e Quadrinhos