Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

NASTASSJA, UM GATO SIAMÊS
Alberto Lattuada



Algum dia vocês já tiveram, em casa, um gato siamês? Seu momento mágico acontece mais ou menos às dezenove horas e quarenta e cinco minutos, quando o céu se ofusca e a escuridão da noite desce como uma cúpula ameaçadora, confundindo os limites da realidade numa dimensão fugaz. Nosso gato é Nastassja Kinski. Depois de um dia inteiro de trabalho, ao qual ela dá o máximo de si mesma com disciplina exemplar, nesse momento chega, quase inesperada, a hora da floresta. A garota, literalmente, arranca do corpo suas roupas, despe-se completamente e, no ritmo de uma música primitiva marcada por tambores, começa uma dança frenética que aos poucos vai crescendo.
A excitação se apossa de Nastassja, entra numa esfera incontrolável: seus saltos são como levitações que alcançam o teto da sala, seus gritos raspam o ar com o júbilo de um animal que não deve se submeter ao domador. O perímetro da sala é apertado demais; nua e ofegante, ela sai dessa prisão e corre pelo corredor, sem se importar com os olhares indiscretos. Depois, aproxima-se de você. Suas mãos agora são guiadas por forças mediúnicas. Elas arranham, beliscam e torcem você, num martírio de sadismo inconsciente. Por fim, arquejante, Nastassja desaba sobre a cama e, impetuosamente, derrama dos lábios todos os desejos que se emaranham em sua cabeça doida: “Dentro de meia hora quero ver um filme sensacional. Você vem comigo? Antes, gostaria de comer uma salsicha com mostarda. The room service, please... Hello... E também um suco de laranja sem açúcar... O perigo é a diabete, you know... Comprei para você um canguru de pelúcia que carrega na barriga o bebê que é você, porque você é uma criança... Vou fazer uma sauna, nesse hotel eles são competentíssimos... Veja, aqui nos quadris tem dois montinhos... Devo eliminá-los com massagens... O busto é pequeno, mas está bom assim... Você gosta? Agora, o traseiro é grande demais... No entanto, sei que todos ficam loucos só de olhar... Que você diz? Acho que deve pensar: ‘Com esse traseiro, você é maravilhosa... metade mulher e metade menina...’ Então, você gosta?”
Nastassja é a encarnação de Narciso: ama realmente só a si mesma. Sua vida verdadeira é a projeção dela nas carnes da atriz. Se não é personagem, Nastassja se apaga...
Acho que jamais alguém poderá dizer que a “tem”, uma vez que dela se consegue segurar somente o invólucro, enquanto a verdadeira essência está sempre diante das luzes da ribalta. Seu acasalamento autêntico é com o público. Suas cópulas amorosas são irreais, não são mais do que “ensaios”, para depois se entregar ao monstro dos mil olhos, mil mãos, mil vozes, que espera Nastassja na escuridão das salas de cinema.

 

Este texto foi transcrito do número 86A da revista Status Plus (São Paulo, Três, setembro de 1981, p. 45)