Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

A LONDRES DE JACK O ESTRIPADOR
Roland Marx



Jack o Estripador, assassino, entre 31 de agosto e 9 de novembro de 1888, de meia dúzia de prostitutas, possuía talentos que não têm comparação com as façanhas muito mais numerosas e igualmente sádicas do francês Joseph Vacher, em 1894-1897, em Viena, ou do “Vampiro de Düsseldorf”, Peter Kürten, que consagrou 27 anos de sua vida, entre 1899 e 1929, a violar, decapitar, mutilar, para não falar dos tristes recordes do alemão Bruno Lüdke, entre 1927 e 1943. Mas Jack foi o “modelo” desses grandes êmulos e abriu a era contemporânea para a contemplação do crime sexual.
Principalmente, serviu para revelar aos londrinos os seus grandes medos: o do espaço urbano, da Londres como “extravagante imensidão, desoladora e magnífica acumulação de poder”, da qual já falava o francês Auguste Luchet em 1838, dessa aglomeração tão malcheirosa que um historiador contemporâneo nos convida a ler as páginas que lhe consagra “tanto com o nariz quanto com os olhos”; dessa capital tão freqüentemente mergulhada no espesso nevoeiro, nutrido, na umidade das estações, pelos sulfuretos, carbono e fuligem produzidos pelo consumo, por volta de 1900, de dezoito milhões de toneladas de carvão a cada ano; da Londres que Tennyson, em 1886, classificou entre as tristes cidades “onde o progresso se detém, com os pés paralisados”, “o crime e a fome” atiram as mulheres, em grande número, nas ruas, onde “o fogo rasteja pelo chão apodrecido”.

 

Este texto foi transcrito do livro Londres, 1851-1901 – A Era Vitoriana ou o Triunfo das Desigualdades (Londres, 1851-1901 – L’Ère Victorienne ou le Triomphe des Inégalités, tradução de Lucy Magalhães, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1993, p. 125), organizado por Monica Charlot & Roland Marx