Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

WINSOR McCAY E LITTLE NEMO - PARTE 2 (FINAL)
Fábio Santoro



Litlle Nemo in Slumberland é a primeira obra-prima dos Quadrinhos (...). ”
Javier Coma

 

Redescoberta há 44 anos, a série-seriado de Nemo ganhou intenso prestígio com a exposição de originais no Metropolitan Museum of Art de Nova York e no Museu do Louvre, bem como com a opinião elogiosa de renomados teóricos e artistas gráficos. Hal Foster, v. g., não hesitou em confessar sua viva admiração por Winsor McCay, considerando-o mesmo o maior roteirista-desenhista da História dos Quadrinhos. E se o criador do primeiro Tarzan das HQs e, com destaque, da colossal epopéia do Príncipe Valente assim disse, é para nós quase impossível desdizê-lo. Também como exemplo, o nosso Luiz Gê sempre explicitou a sua profunda adoração pela obra de McCay e não nega a influência que recebeu do mestre, quanto a alguns elementos dos quadrinhos.
Edições de luxo, recapitulativas de Nemo e de trabalhos menos ofuscantes de McCay chegaram às livrarias do Primeiro Mundo. Revistas de quadrinhos de arte analisaram boa porção da obra do genial artífice e fanzines de alto nível, tais como os porto-alegrenses Fanzim e Fon-Fon!, do prof. Aníbal Barros Cassal, continuaram a remexer nesse áureo baú. As homenagens não pararam por aí. Nemo recebeu uma versão erótica e feminina, com a criação do italiano Vittorio Giardino, Little Ego, uma escultural morena de cabelos curtos, que visitou o leito onírico dos abonados leitores brasileiros via álbum de 48 páginas, publicado em 1990 pela Martins Fontes.
1983 baixou, em produção inglesa e francesa, o estrambótico filme O Navegador dos Sonhos/Dream One, co-produzido pelo diretor John Boorman e regido por Arnaud Selignac, com Jason Connery, Mathilda May, Harvey Keitel, Carole Bouquet, Nipsey Russell no elenco; o guri – adivinha o nome?! – Nemo sonha que se encontra em terra desconhecida, onde se transforma em capitão de submarino e procura salvar de terríveis apuros a Princesa Alice. Mas este bom longa também se estriba em outros clássicos do Fantástico, como Vinte Mil Léguas Submarinas, Alice no País das Maravilhas, O Mágico de Oz e King Kong.
Já de seis anos depois, O Pequeno Nemo/Little Nemo: Adventures in Slumberland, num esforço conjunto do Japão, dos EUA e do Canadá, resultante nesta muito bem apreciada animação de longa-metragem, dirigida por Masami Hata e William T. Hurtz, idealizada pelo notável escritor-roteirista Ray Bradbury, com argumento do não menos festejado Jean Giraud, além de Yutaka Fujioka, roteirizado por Chris Columbus e Richard Outten. Na versão americana, temos as vozes de Gabriel Damon (Nemo), do mega-veterano Mickey Rooney (Flip) e de René Auberjonois (Prof. Genius). Porém, a versão que nos chegou era dublada em Português, com exceção das canções.
Porém, mesmo antigamente, Nemo possuía uma formidável legião de adeptos e exercia pesada influência nos engenheiros de quadrinhos, até para plágios acintosos. Como alguns da sagrada revista O Tico-Tico, que, não contente com o decalque das traquinagens do norte-americano Buster Brown para a feitura da prancha semanal do brasileiro Chiquinho, praticava, de vez em quando, também uma espécie de “mixagem” com Little Nemo. Tal velhacada já indicáramos na primeira versão deste artigo, publicada na Edição de Natal 1991 do Fanzim, e reiteramos a denúncia para o editor Franco de Rosa por ocasião da feitura do empenhado e alentado álbum-livro O Tico-Tico – 100 Anos – Centenário da Primeira Revista de Quadrinhos do Brasil, encabeçado pelos professores Antonio Luiz Cagnin, Waldomiro Vergueiro e Roberto Elísio dos Santos e com vários outros autores, livro iimprescindível para todos os que se dizem entusiastas dos Quadrinhos, da Arte e da Cultura em geral do século XX e para onde remetemos o leitor do presente texto. Lá, o mesmo Franco evidenciou e comprovou a patifaria, com imagens comparativas do Little Nemo e do Chiquinho em questão. Nesta obra absolutamente fundamental, lançada pela Editora Opera Graphica (São Paulo, 2005), o experto Affonso Botari, autodenominado “primeiro leitor d’O Tico-Tico, do alto dos seus 106 anos, concedeu-nos extensíssima, elucidativa e surpreendente entrevista, na qual contou que as páginas do Chiquinho decalcadas das do Little Nemo, em 1908, foram “arte” do Loureiro, que teria lhe confidenciado anos depois. Em concomitância, o velho Affonso nos acentuou que o fenômeno deveria ser desconsiderado, já que muito tempo decorrido propicia todo tipo de tolerância. Complementou esta atitude “paternalista” (ou de amigo do perpetrador) com a observação de que “todo o pessoal d’O Tico-Tico ficara realmente impressionado com as páginas do Little Nemo quando as viram no Herald. Pudera!
Que à época dos imberbes quadrinhos, de bichinhos, moleques a peraltar cenas domésticas, casais cômicos, fábulas instrutivas e contos de fadas e princesas frágeis, a audácia e o arrojo de Little Nemo representava uma distante vanguarda, ninguém duvida. Criou ou desenvolveu muita coisa, tentamos arrolar:

a – Com enredo de aventura, foi a primeira superprodução dos Quadrinhos, anos antes de David W. Griffith dirigir e levar às telas os milionários O Nascimento de uma Nação/The Birth of a Nation (1915) e Intolerância/Intolerance (1916); pelo pioneirismo e capacidade de abrir e engrinaldar os pouco pérvios caminhos estéticos, de ambos, não seria temerário chamar McCay de o “Griffith das HQs”, mas, em contrário, melhor denominar o diretor de o “McCay do Cinema”, em face da ligeira vantagem na chegada, em favor do desenhista;

b – Profetizou as modernas graphic novels, de elaboração minuciosa, percuciente e com freqüência amparadas pela computação gráfica, recurso, este, que no limiar do século XX não era sequer ideado, nem pelo piccolo Nemo e por seu pai;

c – Atentou à composição da página, como um todo, dando-lhe ritmo, harmonia e balanço cromático, na forma hoje buscada pelos referidos romances gráficos;

d – Utilizou-se muitas vezes de tomadas panorâmicas e do grande plano geral, precedendo mais uma vez a Griffith, lançador de tais elementos no Cinema só em Ramona (idem, 1910);

e – Provavelmente, inventou a montagem em paralelo nas HQs e a conquistou antes do Cinema; por exemplo, na prancha de 26 de abril de 1908, uma conversa telefônica se apresentou em planos alternados, com relação aos partícipes;

f – Empregou grandes elipses temporais, como aquela da famosa página da passagem do Ano Velho de 1908 para o Novo 1909, na qual Nemo (ou o planeta) muda de tamanho bruscamente na metade da seqüência;

g – Adiantou-se ao Cinema no uso de imagens distorcidas; só em 1916 o cineasta francês Abel Gance faria os primeiros experimentos em deturpação óptica;

h – Possivelmente, iniciador dos quadros circular e ovalado;

i – Embora de maneira tênue e gradativa, lançou mão das onomatopéias, recursos inerentes à Banda Desenhada;

j – Metalinguagem, muito anterior à celebrada pelo Gato Félix/Felix the Cat, de Pat Sullivan e Otto Messmer; detectamos os seguintes casos:
1º) Na prancha de 25 de fevereiro de 1906 – examine parte dela na quarta capa do Almanaque do Gibi Nostalgia número 6 (Rio Gráfica, 1977), e neste ensejo reproduzida na íntegra –; o cerrado portão do País do Sono só voltaria a abrir no domingo (dia habitual da publicação) seguinte (!);
2º) A 8 de novembro de 1908, a linha do quadrinho em que Nemo se apóia vai se fechando e culmina por se enroscar nele;
3º) Os personagens definham, até a transformação em esboços bem primitivos, na página de 2 de maio de 1909;
4º) As estrelas provocadas por um soco (página de 20 de junho de 1909) formam desenhos decorativos, e os murros desta luta de boxe rasgam quadrinhos;
5º) Na página de 2 de janeiro de 1910, balões de fala ocupam grande espaço em quadrinhos vários;

k – Winsor McCay não se esqueceu das questões sociais e políticas dentro desse cosmos feérico e espiritualizante, como os capítulos de 22 de março a 26 de abril de 1908, nos quais o bondoso Nemo, munido de vara de condão, torna as pessoas da paupérrima e decadente Shanty Town felizes, ao concretizar seus desejos, pois não se conforma com a miséria e a desdita (de imediato o associamos aos governantes nativos, também tão “apiedados” e “preocupados” com os pindoramas...); ou como, entre 20 de março e 14 de agosto de 1910, na viagem à Lua e a Marte por meio de um balão zeppelinado; no planeta vermelho, comércio até de ar e de palavras, especulação imobiliária, toda a hediondez embutida no Capitalismo vaticinada pelo autor – cuja visão crítica tinha longo alcance no tempo, como se nota.

O período de Little Nemo no New York Herald, justo o mais conhecido, estendeu-se até o Natal de 1910 – se bem que o historiador John Canemaker fixa este termo ad quem em 23 de julho de 1911...
Há duas outras fases bem menos divulgadas do agitado personagem. McCay rumou para a imprensa do grupo Hearst e lá continuou as aventuras, sob o título In The Land of Wonderful Dreams, de 3 de setembro de 1911 até 26 de dezembro de 1913. Retornou a série em 3 de agosto de 1924 e fê-la transitar no Herald-Tribune até 26 de dezembro de 1926, sete anos e meio antes do seu trânsito vital para Slumberland.
Afora páginas dos mencionados fanzines do insigne A. B. Cassal, bem como planícies do presente site, onde se pretende resgatar – pelo menos para privilegiados círculos de leitores – do injusto esquecimento a obra aqui versada, a passagem de Little Nemo pelo Brasil se limitou a vôos rápidos e ocasionais:

a – N’O Tico-Tico de 1910, ocasião em que formou uma “curta série”, sob o título O Sonho de Tonico no Fundo do Mar, como nos informa o eminente pesquisador Nobuioshi Chinen na acima citada superedição centenária da publicação, na qual, ainda, o nosso entrevistado sabichão, Affonso Botari, lembrou que Nemo também “freqüentou as páginas d’O Tico-Tico lá pelos idos do fim da Guerra”, referindo-se ao primeiro conflito mundial, de 1914-1918; por acaso, chama-nos a atenção uma quase-coincidência: o lançamento da revista O Tico-Tico ocorreu em 11 de outubro de 1905, apenas quatro dias antes da estréia de Little Nemo in Slumberland no New York Herald;

b – Na primeira fase d’A Gazetinha, de 1929-1930, quando se chamou O Sonho de Carlinhos;

c – No Mirim do nascedouro dos anos 1940, com o curioso nome de Nemo Floresta no País da Sonolândia;

d – No Almanaque do Gibi Nostalgia números 2 (1975) e 6 (neste, só na retro citada quarta capa);

e – Em Eureka número 11 (Editora Vecchi, 1978), em que Little Nemo marcou presença com uma única página, de 22 de setembro de 1907, nesta revista reproduzida em preto-e-branco, mas aqui, no espaço eletrônico, em cores.
Mais do que displicência editorial brasileira e despreparo do público leitor, um deplorável buraco negro cultural.

 

São Paulo, 1991 e 2010.

 

Agradecemos aos amigos Franco de Rosa e Marco Aurélio Lucchetti pelas colaborações prestadas.