Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

LEE REMICK, A IMAGEM VIVA DA GRAÇA



Em abril do ano passado, ao ser homenageada com uma estrela na Calçada da Fama, em Hollywood, a atriz norte-americana Lee Remick já demonstrava os danos que um câncer de fígado causava à sua saúde. Ontem, dois anos após o diagnóstico da doença, Lee morreu aos 55 anos, em sua casa em Brentwood, Los Angeles, ao lado do marido e de outras pessoas da família.
Loira, dona de sedutores olhos azuis, bem-nascida (o pai era um rico proprietário de uma grande loja em Quincy, nas proximidades de Boston). Apesar desses atributos, os produtores de Hollywood não lhe entregavam papéis açucarados iguais aos que outras loiras costumavam receber. Insistentemente comparada a Grace Kelly e Marilyn Monroe no início de sua carreira, no final da década de 1950, Lee Remick quase sempre era vista em filmes interpretando personagens desequilibradas, como a alcoólatra de Vício Maldito (Days of Wine and Roses, 1962), de Blake Edwards, ou a ninfomaníaca de Crime Sem Perdão (The Detective, 1963), de Gordon Douglas.



PAPÉIS DRAMÁTICOS

Lee Remick estrelou em 1957, pelas mãos de Elia Kazan no filme Um Rosto na Multidão (A Face in the Crowd). A partir daí rodou pelo menos mais duas dezenas de filmes, alguns muito conhecidos, como O Mercador de Almas (The Long Hot Summer, 1958), em que foi dirigida por Martin Ritt e dividiu os créditos com Paul Newman Joanne Woodward, Angela Lansbury e Orson Welles. Em 1959 foi a vez de Otto Preminger chamá-la para participar de Anatomia de um Crime (Anatomy of a Murder). Três anos depois trabalharia sob as ordens do diretor Blake Edwards nos filmes Escravas do Medo (Experiment in Terror) e Vício Maldito. Os papéis dramáticos a perseguiriam. Pôde ser vista também como uma pianista introvertida em A Competição (The Competition, 1980), de Joel Oliansky, ou como uma mulher violentada em A Carta (The Letter, 1982; filme feito para a TV), vivendo uma personagem que já fora interpretada em 1940 por Bette Davis.
Nos anos 1970, participou de filmes como QB VII (idem, 1974; feito para a TV, uma das primeiras minisséries), de Tom Gries, A Profecia (The Omen, 1976), de Richard Donner, O Toque da Medusa (The Medusa Touch, 1978), ao lado de Richard Burton, e Os Europeus (The Europeans, 1979), de James Ivory.
Nessa época, praticamente trocou o Cinema pela TV. Disse numa entrevista que essa opção se dava em função da escassez de ofertas, no Cinema, em que pudesse mostrar toda a sua capacidade dramática. Para ela, os papéis que lhe ofereciam no Cinema não se diferenciavam muito uns dos outros. “Basta fazer bem um tipo de personagem para que a partir daí lhe mandem sempre o mesmo tipo de roteiro”, desabafava há alguns anos.
Lee Remick era uma figura querida em Hollywood. Fez muitos amigos nos seus 55 anos de vida. Um deles, o ator Jack Lemmon, com quem trabalhou por duas vezes, em Vício Maldito e Tributo (Tribute, 1980), de Bob Clark, declarou ontem, após a morte da atriz: “Ter conhecido Lee Remick e haver trabalhado com ela foi para mim uma das mais gratificantes experiências que tive na vida. Ela era especial, a imagem viva da graça.”

 

Este texto foi transcrito, com algumas modificações, do Jornal da Tarde (São Paulo, 3 de julho de 1991)