Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

JACK O ESTRIPADOR
Gardner F. Fox



Tal nome ainda faz percorrer-nos a espinha um calafrio indefinido, como se alguma recordação ancestral, latente em nós, pudesse (...) mostrar-nos as ruas de Londres, úmidas de nevoeiro, o vulto negro e furtivo, o golpe do aço sanguinário – ou reviver a sensação de medo que se insinuava nas veias de nossa bisavó, enquanto seus olhos percorriam fascinados, como sob efeito de hipnose, as manchetes dos jornais, que anunciavam a mais recente vítima do Estripador.
O terror não se confinara a Londres, nesses dias vitorianos de 1888. Ele também reinava nos Estados Unidos e na Europa Continental. Para dizermos rigorosamente a verdade, alguns criminologistas acreditam que o Estripador fugira para a América, quando Londres começou a ficar muito “insalubre” à sua permanência. Tal como acontece no caso de tantas outras teorias, essa não tinha provas em que se baseasse; assim também como prova nenhuma existe quanto à identidade desse homem, que chamava a si mesmo Jack o Estripador. Sem embargo, o mais importante é indiscutível: Jack o Estripador existiu de fato.
Conhecem-se as circunstâncias seguintes: no ano de 1888, alguém matou meia dúzia de mulheres com uma faca, revelando espantoso conhecimento das sutilezas anatômicas, mutilou-as e desfigurou-as. Era como se ele as odiasse com tal paixão que somente poderia exprimir-se por meio de atos de sadismo. O primeiro crime ocorreu em agosto de 1888. O último, em novembro do mesmo ano. Depois desse não houve mais nenhum.
Por quê?
A polícia jamais capturou Jack o Estripador. Realmente, ela não fazia (...) idéia de quem ele fosse (...). Por que, então, o assassino parou de matar – pois que era maníaco, como muita gente o acreditava? Sinto tendência a crer que, quando morreu a última das mulheres, Jack o Estripador havia cumprido a missão que se propusera.
E, não obstante, que estranha concatenação de motivos poderia correlacionar a morte de seis prostitutas? Vingança, (...) conforme se sugeriu? (...)
Foi um homem o autor da matança? Ou u’a mulher?
Não há prova de uma nem de outra coisa. O pesquisador não encontra senão exasperantes retalhos esparsos de testemunhos, sugestões de terror no escuro da noite londrina; passadas que ressoam no nevoeiro.
A insidiosa tentação que inspirou as mentes imaginativas trouxe à luz dezenas de livros, centenas de histórias, milhares de artigos. O clássico The Lodger, da sra. Marie Belloc Lowndes, encabeça a lista. George Bernard Shaw deixou-se arrastar pela fascinação dos crimes. Volumes inteiros – Jack the Ripper: A New Theory, por William Stewart, e The Mystery of Jack the Ripper,  por Leonard Matters, representam apenas dois do conjunto – foram devotados ao problema.
(...)
Os fatos e seu ambiente oferecem um fascinante desafio aos escritores. Tudo ocorreu na era da iluminação a gás, o limiar do último e alegre decênio do século 19, o fim de um estilo de vida, o começo de outro. As duas Grandes Guerras ainda estavam distantes. Arthur Conan Doyle acabara de criar Sherlock Holmes – Um Estudo em Vermelho (A Study in Scarlet) aparecera (...) em 1887, no Beeton’s Christmas Annual. As mulheres de então usavam anquinhas; e os homens, sobretudos à Chesterfield.

 

Este texto foi transcrito do livro Jack, O Estripador – O Terror da Cidade (Terror Over London, tradução de Maurício W. Rezende, Rio de Janeiro, Tecnoprint, s. d., pp. 9-11), de Gardner F. Fox