Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

E SYLVIA KRISTEL SE LIVROU DE EMMANUELLE



Acostumados às acrobacias eróticas de Sylvia Kristel na série Emmanuelle, os céticos certamente duvidarão do que disse a crítica francesa a respeito do filme Alice ou A Última Fuga, dirigido por um dos mestres da Nouvelle Vague, Claude Chabrol, que teria conseguido a proeza de transformar a sensual estrela numa atriz sensível e competente. De qualquer forma, é certo que Alice não se apóia nas cenas de nudez (se elas existem, são incidentais), para prender o espectador à poltrona do cinema (...). A história é basicamente elementar: uma jovem e bela esposa, colocada em plano secundário por um marido egoísta, permanentemente voltado para si mesmo, seus interesses e sua profissão, resolve romper o impasse matrimonial e “partir para outra”. É exatamente aí que a coisa se complica, quando Chabrol passa a buscar inspiração em Aventuras de Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho  e o que Alice encontrou por lá, de Lewis Carroll, e insere sua heroína numa realidade paralela em que Alice (Sylvia Kristel) decide romper os laços que a trazem aprisionada à posição de mulher-objeto. Então, ao volante de seu carro, Alice parte em disparada e sem destino através de uma estrada qualquer numa noite de tempestade.
A entrada de Alice no universo paralelo criado por Chabrol começa com a repentina explosão do pára-brisa de seu automóvel (na história de Carroll, é o espelho que começa a se desfazer lentamente, como se fosse uma névoa prateada e luminosa). Mas o diretor não lança mão de nenhum dos recursos habituais que o Cinema costuma usar para produzir a angústia, o medo e o surrealismo. Não há portas que rangem. Não existem densos nevoeiros artificiais. Não se ouvem gritos de terror nem aparecem monstros abomináveis.
Cega pela chuva, Alice consegue dirigir mais alguns metros até que surge à sua frente a “fenda aberta no grande parque” (como em Aventuras de Alice no País das Maravilhas, quando Alice se lança na toca do coelho): um casarão senhorial, cercado de belas árvores e um imenso jardim. Ali ela é recebida pelo senhor da mansão, um delicado ancião (Charles Vanel), que a coloca  à vontade, oferece-lhe sua hospitalidade, pedindo-lhe que ceie, durma e espere que passe a tempestade. “Amanhã”, promete o ancião, “o pára-brisa estará consertado. Então, você poderá seguir viagem.”
No dia seguinte, Alice percebe que está absolutamente sozinha no imenso casarão: o anfitrião e seu valet-de-chambre desapareceram. Mas, apesar de todas as tentativas, Alice não consegue sair para retomar seu caminho. Não há mais saídas – o parque está fechado por um muro circular. Finalmente, dominando o medo cada vez maior e enfrentando as forças misteriosas que surgem a cada passo de sua fuga, Alice prossegue, de surpresa em surpresa, pelo universo paralelo, até que, mais adiante, os portões se abrem outra vez. Lá fora, no entanto, o mundo permanecerá inquietante. E ela acabará voltando ao casarão, onde o mesmo e simpático ancião da primeira noite a acolherá novamente.
Apesar da simbologia óbvia, Alice ou A Última Fuga foi bem recebido pela crítica francesa. Segundo Louis Marie-Barbarit, Sylvia Kristel pode ser comparada às heroínas de Hitchcock, com as quais compartilha “uma beleza fria e inquietante”. Houve até quem classificasse a produção de “terrivelmente bela, um filme em que a angústia e a beleza explodem a cada imagem”. Para Chabrol, entretanto, Alice é mais do que tudo uma homenagem a um dos grandes mestres do Cinema Fantástico: Fritz Lang. “Dediquei o filme a Lang”, disse o diretor, “porque resolvi me tornar cineasta depois de assistir a seu incomparável O Testamento do Dr. Mabuse, realizado na década de 1930. Para mim, ele sempre foi e continua a ser o grande modelo em minha tentativa de alcançar o despojamento absoluto.”

 

Alice ou A Última Fuga (Alice ou La Dernière Fugue, 1977, 93')
Direção e Roteiro: Claude Chabrol
Elenco: Sylvia Kristel, Charles Vanel, André Dussolier, Fernand Ledoux, Thomas Chabrol, Bernard Rousselet, François Perrot, Jean Carmet, Catherine Drusy, Katia Romanoff, Jean Cherlian, Noël Simsolo
Disponível no Brasil em DVD
Distribuidora: Lume

 

Este texto foi transcrito do número 86 da Revista do Domingo (Rio de Janeiro, Jornal do Brasil, 27 de novembro de 1977, pp. 12-13)