Ano 3 - nº 11 - outubro de 2011/janeiro de 2012

ESTÓRIAS ADULTAS
UMA REVOLUÇÃO NOS QUADRINHOS BRASILEIROS - PARTE 2 (FINAL)

Marco Aurélio Lucchetti



AS HISTÓRIAS DE ESTÓRIAS ADULTAS

Fantasia, drama, humor, terror, suspense e erotismo (mas um erotismo leve e muito bem dosado), tudo isso está presente nas histórias em quadrinhos de Estórias Adultas (além de quadrinhos, Estórias Adultas publicava também contos, artigos, piadas, cartuns e fotos de modelos nuas ou seminuas). E muitas dessas histórias em quadrinhos são protagonizadas pelos seguintes personagens:

PLAY-BOY
Após estudar no Rio de Janeiro, Roberto Valenciano, um rapaz rico do interior, voltou para sua cidade natal, ou melhor dizendo, voltou para a fazenda de sua família.
As coisas transcorriam normalmente, até que um trágico acontecimento mudou por completo a vida de Roberto: a morte de seus pais. Então, querendo esquecer a tragédia, ele resolveu deixar a fazenda e ir morar num luxuoso e confortável apartamento na Zona Sul do Rio e levou junto suas irmãs (Vivy, Tuca e Lelé) e dois primos (Bidú e Bethe).
A partir desse instante, Roberto Valenciano praticamente deixou de existir e cedeu seu lugar a Play-Boy, um bon  vivant que só quer saber de aproveitar cada momento de sua juventude, participando de festas, indo à praia e tendo encontros amorosos com as mais variadas mulheres (não importa que essas mulheres sejam solteiras ou casadas, tudo o que importa é que sejam bonitas e jovens).
A principal intenção de Fernando Ikoma, ao realizar as histórias de Play-Boy, era a de retratar o dia-a-dia de um grupo de rapazes e moças – bem-nascidos e despreocupados – do final da década de 1960.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Play-Boy:
“O Assassino” (Estórias Adultas número 1)
Para escrever esta história, Fernando Ikoma inspirou-se num velho clichê das narrativas de Detetive & Mistério: alguém (isto é, Tuca) vê um assassinato ser cometido, e ninguém acredita na sua palavra;
“O Sedutor” (EA número 2)
Nesta história, é informada a idade de Tuca: dezesseis anos;
“Um Nôvo Hobby” (EA número 4);
“O Cara de Anjo” (EA número 10);
“Uma Aventura no Sul” (EA número 11)
Nesta história, é revelado o nome do primeiro e único amor de Play-Boy: Carmem Lúcia (foi ela quem deu o medalhão que ele usa o tempo todo pendurado ao pescoço);
“A Calúnia” (EA número 12)
É nesta história, uma das mais interessantes de Play-Boy, que se fica sabendo que Lelé tem nove anos de idade.

FIKOM
Durante uma excursão do colégio, Mukifa, um jovem feio e desengonçado, conheceu Karla, a mais feia  e desajeitada das garotas da cidade. Um sentiu antipatia pelo outro à primeira vista, mas ficaram juntos e viram uma bela macieira. Como estava com fome, Mukifa pegou uma das maçãs e começou a comê-la. De repente, seus dentes morderam algo duro. Era um medalhão muito bonito. Julgando que o objeto tivesse algum valor, o rapaz ocultou-o de sua companheira. Mais tarde, à noite, já em casa, ele prendeu o medalhão numa corrente. E, em seguida, foi dormir, usando a corrente em volta do pescoço.
Enquanto dormia, Mukifa, graças aos poderes mágicos do medalhão, transformou-se em Fikom (esse nome é formado pelo F de Fernando e as quatro primeiras letras de Ikoma), um homem muito bonito e poderoso.
Na verdade, Fikom é a materialização do subconsciente de Mukifa. Assim, sempre que o rapaz dorme, Fikom surge no vácuo entre o sonho e a realidade. E, nesse vácuo, encontra sempre Sandra, uma mulher de notável beleza; e juntos, vivem incríveis aventuras.
Por sua vez, Sandra é, na realidade, Karla, que também descobriu um medalhão idêntico ao de Mukifa (ele estava oculto na única maçã que ela levara para casa).
Entretanto, Fikom e Sandra, com medo de perderem um ao outro, não revelam que na vida real são simplesmente horríveis. Por essa razão, mantêm suas verdadeiras identidades em segredo.
Fikom teve revista própria, publicada pela Edrel em 1968.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Fikom:
“As Deusas de Rikembur” (EA número 1);
“O Rival” (EA número 2);
“A Tróia Sideral” (EA número 9);
“Na Terra dos Comedores de Gente” (EA número 10);
“O Ajuste de Contas” (EA número 16);
“Os Últimos Dias de Pom-Béia” (EA Almanaque 1971).

SIBELE A ESPIÃ DE VÊNUS
Há milhares de anos, Vênus e a Terra estavam muito próximos um do outro. Tinham a mesma rotação  e a mesma translação, o que fazia com que a Terra, mesmo sendo maior, vivesse na mais completa escuridão, já que Vênus ficava na sua frente e não permitia a passagem da luz do Sol.
Os venusianos eram, então, um povo bastante adiantado; mas, viviam em constantes guerras. E essas guerras – muitas das quais atômicas – causaram um fenômeno que fez com que o planeta saísse de sua posição original e começasse a rumar em direção ao Sol. Isso deixou os venusianos em pânico; ao mesmo tempo, porém, aproximou os dois generais inimigos, Alum e Klabo, que, com a orientação do conselho de sábios de Vênus, decidiram que toda a população do planeta deveria migrar para a Terra (nessa época, nosso planeta nada mais era do que uma colônia de Vênus: para cá eram mandados todos os criminosos venusianos; e os terráqueos, que viviam ainda num estágio primitivo de civilização, serviam de escravos).
Todos os habitantes de Vênus embarcaram em enormes e potentes foguetes, que partiram em direção à Terra. E foi numa dessas espaçonaves, a Linus IV, que nasceu Sibele, filha do general Alum.
Quando chegaram à Terra, os venusianos fundaram uma bela e moderna cidade, à qual deram o nome de Atlântida, em homenagem à mãe de Sibele, Atlanta.
Enquanto isso, Vênus deixou de ser atraído para o Sol, parando na posição que se encontra atualmente. Entretanto, estava numa posição tão alterada, que nunca mais fez sombra para a Terra.
Recordando o que acontecera com seu planeta natal, os sábios de Vênus resolveram que todas as armas nucleares venusianas, construídas de forma impossível de serem desarmadas, seriam enterradas num poço bastante profundo no alto de uma montanha. Decidiram também destruir as espaçonaves; no entanto, deixaram uma intacta, destinada a Alum e Klabo, caso um dia eles decidissem abandonar a Terra.
Dois anos depois, devido ao calor intenso que passara a receber do Sol, o núcleo da Terra esquentou demasiadamente. Então, a pressão interna do planeta aumentou muito, provocando o aparecimento dos primeiros vulcões. E um vulcão surgiu justamente na montanha onde haviam sido enterradas as armas atômicas venusianas.
Prevendo que essas armas explodiriam no momento em que o vulcão entrasse em erupção, o que conseqüentemente provocaria a destruição de Atlântida, Alum decidiu fugir na espaçonave que sobrara. E, junto com Alum, também foram: Atlanta; Sibele; Klabo e sua mulher; e um nativo da Terra, o menino Pino, que era filho de escravos. Neste momento, o vulcão entrava em erupção. E, assim que o foguete partiu, as armas nucleares explodiram, destruindo por completo Atlântida; e o abalo da tremenda explosão afetou a rota da nave, fazendo-a se perder no espaço.
Depois de enfrentarem inúmeros perigos e dificuldades, Alum e seu grupo chegaram a Saturno, que tinha uma atmosfera semelhante à de Vênus e era habitado por seres de todos os tipos.
Tão logo desembarcaram no planeta, Alum, Atlanta, Klabo e sua mulher foram capturados por um grupo de habitantes de Saturno e levados para a cidade de Sandor, onde se tornaram escravos. Quanto a Sibele e Pino, foram recolhidos pelo povo sem mãos, que, apesar de extremamente inteligente, vivia de forma primitiva.
Os anos se passaram. E, graças a Sibele e Pino, o povo sem mãos pôde, enfim, prosperar.
Mais alguns anos se passaram. E, ao completar vinte anos de idade, Sibele se tornou rainha e agente espacial do povo sem mãos. É aí que se iniciam suas aventuras, repletas de muita emoção e ação.
As primeiras histórias de Sibele saíram no gibi A Espiã de Vênus, publicado pela Edrel em 1969.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Sibele a Espiã de Vênus:
“A Experiência Amorosa” (EA número 4)
Nesta história, Sibele tem a primeira relação sexual de sua vida, com Pino;
“O Sêr Que Veio da Tempestade” (EA número 21);
“Mutante” (EA Almanaque 1971).

SATÃ A ALMA PENADA
Quando viva, Satã era um bela mulher que levara muitos homens à perdição e destruíra a felicidade de inúmeros lares. Depois de morta, ela foi julgada pelos juízes do Além e condenada a viver nas trevas até pagar pelos seus atos.
Agora, Satã é uma espécie de fantasma que terá de cumprir cem missões na Terra – não poderá falhar uma sequer; do contrário, sua alma jamais encontrará paz e penará para sempre nas profundezas do inferno azul. Deverá fazer o bem, combatendo a feitiçaria, as doenças psíquicas, os dramas internos dos desajustados e as injustiças de que certas pessoas são vítimas.
Invisível aos olhos humanos, Satã tem o poder de ocupar o corpo de uma pessoa inconsciente e em suas missões é auxiliada por seu antigo criado, Bôo, um corcunda mudo (quando vivo, ele era um criminoso; e, por essa razão, foi condenado pelos juízes do Além ao mesmo castigo de Satã).
Satã a Alma Penada surgiu em 1969, no primeiro número da Revista de Terror.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Satã a Alma Penada:
“A Deusa do Mal” (EA número 7);
“O Homem Que Bebia” (EA número 11);
“Um Toque de Amor” (EA número 14).

PSIKUY
Em 1969, Claudio Seto desejava fazer histórias em quadrinhos intelectualizadas. Almejava realizar histórias em quadrinhos com temas filosóficos, psicológicos e psicanalíticos. Então, criou a Série Psicológica, cujo primeiro episódio, “Papai Quer Matar a Minha Flor ...”, foi publicado no segundo número de Estórias Adultas.
Em várias histórias da Série Psicológica, não há personagens fixos, isto é, os personagens que estão presentes numa história não aparecem em nenhum outro episódio. E esses personagens são homens, mulheres e crianças desequilibrados ou desajustados. São homens, mulheres e crianças com problemas mentais, traumas... Entretanto, no oitavo episódio, publicado no número 13 de Estórias Adultas, surgiu uma figura que iria aparecer em outras histórias da série: Psikuy, uma mulher muito charmosa, inteligente e aparentemente sem nenhum problema mental.
Tendo cabelos compridos da cor da platina, expressivos olhos azuis, um rosto atraente, um belo par de seios e longas pernas, Psikuy é uma agente da BID, que luta o tempo todo contra a Rede Internacional de Espionagem (RIE), uma organização que deseja dominar o mundo.
As histórias de Psikuy foram consideradas pelo crítico e professor universitário Moacy Cirne, na edição de janeiro de 1971 do prestigioso Jornal de Letras, como “uma das melhores histórias em quadrinhos de 1970”.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Psikuy:
“Psikuy” (EA número 13);
“Ciência e Humanismo” (EA número 22)
As duas primeiras páginas desta história foram impressas em cores;
“O Julgamento de uma Espiã” (EA número 24).

BIKINI CAT
“Ela se chama Paula Norris; tem cabelos louros, um rosto bonito, seios opulentos (para deleite dos leitores, eles estão constantemente à mostra), pernas compridas e muita sensualidade; e, além de jornalista e aventureira nata, é a combatente do crime... Bikini Cat.”
É dessa forma que se inicia, em nosso livro As Sedutoras dos Quadrinhos – livro esse publicado em 2001 pela Editora Opera Graphica, de São Paulo –, o capítulo referente a Bikini Cat.
Criada pelo desconhecido Hots (certamente, esse nome é um pseudônimo) no final da década de 1960 ou no começo da década de 1970, Bikini Cat (ela se chama assim porque usa biquíni e um chapeuzinho que se assemelha às orelhas de um gato) luta  incansavelmente contra cientistas malucos, organizações secretas, seitas satânicas, assassinos frios, mercenários, entre outros tipos de criminosos. E, nessa luta, é auxiliada por um amigo, o fotógrafo Patrick Flynn, que sabe que ela e Paula são a mesma pessoa.
De provável origem inglesa, as aventuras de Bikini Cat foram as únicas histórias em quadrinhos estrangeiras a aparecer em Estórias Adultas.
Em Estórias Adultas, foram publicadas as seguintes histórias de Bikini Cat:
“O Doutor Lépido” (EA número 27);
“Flores e Mortos” (EA número 28);
“A Rainha da África” (EA número 29);
“A Organização Secreta” (EA número 30).

 

AS TRÊS FASES DE ESTÓRIAS ADULTAS

Estórias Adultas durou aproximadamente três anos – seu primeiro número, com uma capa desenhada por Fernando Ikoma, foi publicado em setembro/outubro de 1969; e o trigésimo (presumivelmente o último número editado) chegou às bancas de jornal por volta do segundo semestre de 1972 – e teve três fases distintas:
Primeira Fase – do número 1 ao 18 e Estórias Adultas Almanaque 1971.
Com certeza, a melhor fase da revista.
As edições tinham entre 132 e cem páginas e apresentavam histórias em quadrinhos com excelentes roteiros e desenhos.
Segunda Fase – números 19 e 20
Certamente, a fase mais fraca da revista.
As edições tinham apenas 52 páginas.
Terceira Fase – do número 21 ao 30, Super Almanaque Estórias Adultas 1972 e Almanaque Estórias Adultas 1973
Uma fase razoável da revista, apesar de as edições apresentarem quase que somente aventuras da Bikini Cat e histórias em quadrinhos realizadas por Claudio Seto.
As edições tinham entre 48 e cem páginas (algumas em cores) e um formato que variava entre 20x27 cm e 20,5x27,5 cm.

 

PALAVRAS FINAIS

Entre 1969 e 1972, a Edrel foi a melhor editora de quadrinhos nacionais; e Estórias Adultas, o mais moderno e arrojado gibi brasileiro.
O que causa estranheza é que, em seus artigos e livros, a maioria de nossos críticos e pesquisadores de História em Quadrinhos ignora totalmente a Edrel e Estórias Adultas. É como se editora e revista nem tivessem existido. Dessa forma, os leitores de quadrinhos – principalmente os leitores mais jovens, nascidos depois de 1990 – desconhecem por completo que nossos quadrinhistas já produziram gibis de qualidade excepcional, gibis que a maior parte dos quadrinhistas norte-americanos (sobretudo aqueles que trabalham para as grandes editoras) não são capazes de produzir hoje em dia.
Nós dissemos “causa estranheza”. Na verdade, deveríamos ter dito “CAUSA REVOLTA”. Isso porque já conhecemos de longa data os críticos e pesquisadores brasileiros de Quadrinhos. Sabemos o que pensam a respeito das histórias em quadrinhos produzidas no Brasil. Com raríssimas exceções, eles não gostam dos quadrinhos nacionais. E, em virtude de não apreciarem os quadrinhos nacionais, preferem comentar os quadrinhos estrangeiros (por quadrinhos estrangeiros, leia-se o que existe de pior em matéria de histórias em quadrinhos made in USA). Preferem falar a respeito de Super-Homem, Mulher-Maravilha e Spawn a comentarem Fikom, Sibele e Satã a Alma Penada. Preferem falar a respeito dos personagens criados por Robert Crumb a comentarem as histórias da Maria Erótica. Preferem falar a respeito de Garfield e Ronin (de Frank Miller) a comentarem Tupãzinho e Samurai (de Claudio Seto). Bem, é o gosto deles; e gosto não se discute. Mas vale lembrar aqui o que disse, certa vez, Paulo I. Fukue: “Há pessoas que só dão valor às coisas que vêm de fora, quando na realidade o que vale realmente é o que vem de dentro.”